Reportagem

Desemprego atira milhares de jovens ao garimpo de diamantes

André da Costa e Kamuanga Júlia | Lunda-Sul

Em pé com os amigos Diogo e Pedro, o jovem Faustino Txingue, 30 anos, faz uma pausa na árdua labuta, feita nas zonas de garimpo de diamantes, na Lunda-Sul, para colocar a conversa em dia, num ambiente quente. O relógio marca 11 horas e o sol de Saurimo há já umas horas que dá o ar da sua graça.

Fotografia: DR

A conversa decorre defronte a uma das casas de compra de diamantes. Não é um pequeno colóquio sobre festas ou coisas de jovens. A abordagem do trio de amigos foca aspectos relacionados com as vicissitudes por que passam no exercício da actividade. Faustino, por exemplo, revela, na primeira pessoa, os riscos de vida que corre na prática do garimpo, além de  consequências criminais a que está exposto.
Natural de Saurimo, Faustino tem consciência que pode ir para a cadeia, se for apanhado pela Polícia. Mas, o jovem alto, magro e de pele escura é pai de dois filhos e tem de lutar por esses meninos, ainda mais, depois de perder a esposa, em Janeiro deste ano.
Dado o sofrimento, por falta de emprego, Faustino encontrou no garimpo de diamantes a melhor forma para sustentar os dois filhos. Já lá vão três anos, desde que mergulhou nesse buraco, que dá pedras brilhantes, em que ele pensa não poder sair, enquanto lhe faltar emprego. Parece ser a mesma posição dos seus amigos Pedro e Diogo.
Os três fazem parte de um grupo de 20 jovens, contratados por um empresário, a quem tratam apenas por “boss”, para fazerem o garimpo de diamantes no meio das matas de uma das comunas do município de Cacolo. Para além de arrumar a força de trabalho, o “boss” tem a preocupação de levar comida, três vezes ao dia, para saciar a fome dos 20 jovens. Nesse andar, os moços acabam dias e noites na luta incessante de encontrar a pedra preciosa, ainda que isso lhes custe a própria vida.
Mas, Faustino, Pedro e Diogo e seus 17 companheiros representam apenas um pequeno grupo de jovens mergulhado no trabalho do garimpo de diamantes. A prática envolve centenas de pessoas, que exercem a actividade em áreas de Calonda, Mulunda, Yamukegenge e, até, no Lucapa, um dos municípios da vizinha Lunda-Norte.
A maior parte dos jovens que explora diamantes é desempregada. Desse grupo, há pessoas com formação superior, mas, por falta de emprego, dedicam-se à exploração ilegal dessa pedra preciosa, como nos fez entender Faustino Txingue.
Para encontrar diamante, os jovens fazem escavações que atingem os cinco ou dez metros de profundidade. No subsolo, eles usam enxadas, pás, picaretas. Na parte de cima, fora do buraco, outros elementos transportam a areia em baldes e sacos, mergulhada em água, com vista a encontrar a pedra.
O tempo corre. Chega a noite. Depois do trabalho árduo, os jovens pernoitam nas matas, recorrendo a panos e cobertores levados de casa para se cobrirem. Em caso de chuva, há uma tenda ou cabana, construída a propósito.
“Elementos da Polícia, Forças Armadas e de empresas de protecção correm connosco, mas voltámos sempre que podemos. É aqui o nosso ganha-pão”, desabafa Mário João, 43 anos.
De estatura forte e baixa, Mário afirma que o desemprego o levou a juntar-se a outros jovens no garimpo. A sua missão é cavar e escolher os diamantes extraídos da terra e entregar ao “boss”, para os guardar.
Mário tem estado doente, por isso, não entra muitas vezes no buraco. “Já tinha abandonado o trabalho e fui a Saurimo me tratar, mas, uma semana depois, tive de voltar. Não dá para ficar parado”, avança.
Durante o tempo que ficámos na conversa, um aspecto ficou patente. Os jovens de diferentes áreas que se dedicam ao tráfico de diamantes reconhecem que correm vários riscos, mas contam que a busca de melhores condições de vida fala mais alto, decorrente desta actividade. “É um trabalho cansativo e perigoso, mas não temos outra saída”, afirma Benvindo Timóteo, na actividade há dois anos.

“Boss” e a divisão do dinheiro
Normalmente, os jovens são levados às zonas de exploração de diamantes por pessoas com algum poderio financeiro, quer angolanos, quer estrangeiros. São os conhecidos “bosses”. Estes, além da comida, compram também a matéria-prima para o garimpo, como pá, enxada, redes e baldes, entre outros equipamentos.
O tempo de permanência nas matas também depende do acordo que os jovens fazem com o “boss”. Há quem fique ali durante uma semana e volta à comunidade residencial, mas existe os que acabam um ano nas selvas.
Com tarefas divididas, quando encontram diamantes, os jovens sabem a quem devem entregar o produto: ao chefe. É este que determina o valor da venda e divide posteriormente o dinheiro a todos os trabalhadores.
“O ‘boss’ fica com 50 por cento do valor do diamante. Se, por exemplo, uma pedra custar dez mil dólares, ele leva cinco mil e a metade restante é dividida equitativamente entre todos os integrantes do grupo”, explicam.
Além das centenas de jovens angolanos, o trabalho envolve muitos cidadãos estrangeiros, com os congoleses democráticos a liderarem a lista desses últimos. Desde a escavação até a lavagem, o trabalho é rigorosamente controlado pelo “boss”.
“Uma vez, um congolês democrático, durante a lavagem, escondeu uma pedra de diamantes no lixo. Foi descoberto. Apanhou uma grande surra e mandaram-no embora”, conta, para avançar que recentemente “um outro congolês conseguiu uma valiosa pedra de diamante, atirou-se num dos rios e desapareceu.”
O último facto não resultou em morte, acredita Benvindo Timóteo, também congolês-democrático. “Nós temos treinamento em natação e conseguimos suster a respiração por muito tempo. Como nadamos bem, podemos sair à vontade do outro lado do rio, que dá acesso Congo Democrático. ”Além da morte, outro dos maiores riscos dos garimpeiros é o medo de serem detidos pela Polícia Nacional, como aconteceu na semana passada, em que o Serviço de Investigação Criminal (SIC) deteve três jovens, sendo dois por posse ilegal de diamantes e um por furto desta pedra.
Os três cidadãos aguardam por julgamento, estando encarcerados no Estabelecimento Penitenciário do Luzia.

Casas de venda de diamantes
Inúmeras casas de compra de diamantes estão espalhadas pela cidade de Saurimo, com a finalidade de adquirir o produto das mãos dos jovens garimpeiros. Por exemplo, só na rua em que se localiza a sede do Jornal de Angola há dois desses estabelecimentos.
Nessas casas, são maioritariamente estrangeiros que compram os diamantes. Esses estabelecimentos têm várias designações, mas com um dado curioso: todas levam a palavra “boss”. Há a casa “Boss Drome”, “Boss KM”, “Boss Carga”, “Boss Paga Bem” e “Jomar Boss”, entre outras.
Os compradores de diamantes são nacionais e estrangeiros. Mas, existem poucas casas de venda de angolanos, segundo constatação feita pelas visitas que efectuámos.
Keita Marcolino é maliano e dedica-se à compra de diamantes, para os revender. Explica que o negócio já não é rentável, tendo em conta que actualmente se pode ficar mais de duas semanas sem clientes, conta, enquanto pousa as mãos sobre uma balança de pesagem de diamantes. O empresário, que vive em Angola há 25 anos, casou-se com uma angolana, cuja relação já resultou em um filho, explica que o valor do diamante depende do peso e da qualidade, podendo variar entre os cinco e os 12 mil dólares.
Keita explica ainda que quanto maior for a pedra de diamante menor é o preço a pagar. Por isso, João Valente, comprador, avança que prefere o “rom”, tipo de diamante mais caro, que, com bom peso, pode custar entre 300 mil e um milhão de dólares.

Dezoito casas de comercialização

A província da Lunda-Sul controla 18 casas de comercialização de diamantes, designadas por NDMD, Concórdia, Preststione, Canonice, Angodiame, Marmak e Jamarque, todas concentradas na cidade de Saurimo e, na sua maioria, geridas por cidadãos estrangeiros.
A directora do Gabinete Provincial do Comércio, Indústria e Recursos Minerais, Georgina Muandumba, sublinhou que as empresas mencionadas estão devidamente legalizadas.
O processo de licenciamento dos proprietários passa por uma solicitação ao gabinete provincial, onde é remetida uma série de documentos necessários que permitem o exercício normal das actividades. Ressaltou que todas as empresas que se dedicam à actividade trabalham directamente com a Endiama e a direcção local faz apenas o acompanhamento local.
Em termos de números de cooperativas, Muandumba, explicou que o projecto mineiro conta com um total de 5.182 trabalhadores, dos quais 2.200 da Sociedade Mineira de Catoca (SMC), 60 do CAT, 42 do Luachimo, 22 do Mavo, 30 do Culia, cinco do Famiasso e igual número do JJMK.
Para permitir a actualização de dados das cooperativas, a direcção tem em carteira 117 projectos para a sua constituição, em que, numa primeira fase, concluíram a efectivação de 30, das quais três estão na fase de prospecção.
O pagamento de impostos, segundo a directora, depende do volume de trabalho desenvolvido pelas empresas e, por sua vez, a Administração Geral Tributária (AGT) estabelece um valor único para cada empresa de comercialização de diamantes.
Acrescentou que, a nível local, são realizadas sessões de sensibilização regulares com as empresas, por forma a desenvolverem as suas actividades com responsabilidade, para gerarem postos de trabalho, sobretudo para os jovens, e melhorar as condições de vida das comunidades.

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