Reportagem

Despesas militares chegam para acabar com a pobreza no Mundo

Osvaldo Goçalves

A realização de exercícios militares pelas tropas da Rússia, envolvendo forças da China e da Mongólia na região de Chita, na Sibéria Oriental e Extremo Orionte russo, tem chamado a atenção do Mundo, em particular da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que acusa Moscovo de se estar a preparar para um “conflito em grande escala”.

As manobras militares que as Forças Armadas russas estão a realizar este ano são as de maior dimensão desde o fim da Guerra Fria
Fotografia: DR

Iniciados na passada terça-feira, 11 de Setembro, com o fim marcado para depois de amanhã, os “Vostok 2018” são considerados os maiores exercícios militares da Rússia desde 1981 e envolvem cerca de três mil militares de todos os sectores das Forças Armadas do país e o apoio de soldados chineses e mongóis.
O primeiro dia dos exercícios foi dedicado ao deslocamento de tropas e na quarta-feira foram realizados exercícios de luta anti-aérea. Com estas manobras, que decorrem sob o olhar de observadores da OTAN, Rússia e China assinalam a crescente cooperação entre os dois países.
Apesar de todos os anos as Forças Armadas russas realizarem manobras de grande envergadura numa das suas regiões militares, as deste ano são as de maior dimensão desde o fim da Guerra Fria. Além de um grande contingente de homens, os exercícios envolvem dezenas de milhares de veículos terrestres, aeronaves e navios. A China participa no “Vostok 2018” (nome do distrito militar onde se realizam este ano os exercícios) com 3.200 militares do Exército do Povo, que também enviou tanques e caças.
A imprensa ocidental assinala que não é a primeira vez que russos e chineses participam em exercícios militares conjuntos, mas nunca a uma escala tão ampla. Os líderes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, estiveram juntos na terça-feira passada, em Vladivostok, no Extremo Oriente russo, para assinalar o início das manobras e reiteraram que a participação conjunta é prova do aprofundamento dos laços entre os dois países. “Temos uma relação de confiança na esfera da política, segurança e defesa”, afirmou Putin ao lado de Xi, o líder chinês. Observadores referem que, num cenário de crise nas relações diplomáticas com a União Europeia e os Estados Unidos da América, Moscovo encara a China como um parceiro natural.

Despesas militares
Estes exercícios militares dominam os noticiários hoje em dia e mobilizam a atenção de analistas um pouco por toda a parte. Alguns dos comentários feitos, que indiciam a enorme preocupação dos estados-membros da União Europeia e da OTAN, no geral, levam a imensas questões sobre a correlação de forças entre as principais potências militares, em particular sobre as despesas de cada um em matérias ligadas à defesa.
O que se sabe é que em 2017 o total de gastos militares mundiais subiu para 1,739 trilões de dólares, um aumento marginal de 1,1 por cento, em termos reais, comparativamente a 2016.
De acordo com os números do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), as despesas militares da China voltaram a aumentar no ano passado, mantendo uma tendência ascendente nos gastos que dura há mais de duas décadas. Os gastos militares da Rússia, por seu lado, caíram pela primeira vez desde 1998, enquanto os dos Estados Unidos permaneceram constantes pelo segundo ano consecutivo.
Os EUA continuam a ter as maiores despesas militares do mundo. Em 2017, gastaram mais com as suas forças armadas do que os sete países que mais consumiram juntos. Em 2016 e 2017, os gastos foram de 610 mil milhões de dólares.
“A tendência de queda nos gastos militares dos EUA, que começou em 2010, chegou ao fim”, disse o Dr. Aude Fleurant, director do programa SIPRI AMEX. “Os gastos militares dos EUA em 2018 devem aumentar significativamente, para apoiar o aumento de pessoal militar e a modernização de armas convencionais e nucleares”, acrescentou.
A Rússia gastou no ano passado 66,3 mil milhões de dólares, 20 por cento  menos do que em 2016, a primeira queda anual desde 1998.
“A modernização militar continua a ser uma prioridade na Rússia, mas o orçamento militar foi restringido por problemas económicos que o país experimenta desde 2014”, disse Pieter Wezeman, pesquisador sénior do programa SIPRI AMEX.
Conduzidos, em parte, pela percepção de uma crescente ameaça da Rússia, os gastos militares na Europa Central e Ocidental aumentaram em 2017, em 12 e 1,7 por cento, respectivamente. Muitos países europeus são membros da OTAN e, nesse contexto, concordaram em aumentar os seus gastos militares, cujo total de todos os 29 membros da aliança foi de 900 mil milhões em 2017, representando 52 por cento  dos gastos mundiais. No Oriente Médio, as despesas militares aumentaram 6,2 por cento em 2017. A Arábia Saudita gastou mais 9,2 por cento  em 2017, após uma queda em 2016. Com gastos de 69,4 mil milhões, a Arábia Saudita teve o terceiro gasto militar mais alto do mundo em 2017. Irão (19 por cento) e Iraque (22 por cento) também registaram aumentos significativos em 2017.
“Apesar dos baixos preços do petróleo, conflitos armados e rivalidades em todo o Oriente Médio impulsionam o aumento dos gastos militares na região “, disse Wezeman.

 Oriente Médio domina o “Ónus Militar”

Em 2017, os gastos militares como parcela do PIB (conhecido como “Ónus Militar”) foi mais alto no Oriente Médio, com 5,2 por cento. Nenhuma outra região do mundo destinou mais de 1,8 por cento do PIB aos gastos militares.
É também oficial a informação que aponta que, entre 2005 e 2015, as despesas militares no mundo cresceram em média mais de 42 por cento. Segundo o Departamento de Estado Norte-Americano, no seu relatório “Despesas Militares Globais e Transferências de Armas - 2017”, nesse período de dez anos, o valor anual médio das despesas militares globais parece ter aumentado entre 26 e 46 por cento. Os gastos militares passaram de 1,35 trilhões de dólares em 2015, para cerca de 2,76 trilhões de dólares em 2015, o que implica um aumento de mais de 42 por cento  nesse período.
De acordo com o relatório, os governos dos países ricos e democráticos dependem cada vez mais dos Estados Unidos como fonte de armas. As exportações de armamento dos EUA subiram de 78 por cento para 83 por cento  nos 11 anos analisados. Na Ásia e na Oceania, as despesas militares aumentaram pelo 29º ano consecutivo. A China, o segundo maior gastador global, aumentou o consumo militar em 5,6 por cento, para 228 biliões de dólares, em 2017. Os gastos da China como parcela das despesas militares mundiais aumentaram de 5,8 por cento, em 2008, para 13 por cento, em 2017.
A Índia gastou 63,9 mil milhões de dólares nas forças armadas, em 2017, um aumento de 5,5 por cento em comparação com 2016. Já os gastos da Coreia do Sul (39,2 mil milhões) aumentaram 1,7 por cento, entre 2016 e 2017.
Um simples olhar às despesas militares em todo mundo revela que menos de 10 por cento do dinheiro que se gasta com a defesa são suficientes para cobrir os custos dos objectivos globais que visam terminar com a pobreza e a fome em 15 anos.
Mas a verdade é que os Estados frágeis e atingidos por conflitos são os que têm maiores índices de pobreza.

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