Reportagem

Dia da Mulher Africana: O desafio da ascensão das jornalistas aos cargos de chefia e de direcção

Rosalina Mateta

Hoje assinala-se o Dia da Mulher Africana, data instituída em 1962, na Conferência das Mulheres Africanas, em Dar-Es-Salaam (Tanzânia). Para marcar a efeméride, o Jornal de Angola deu voz a seis mulheres, que reflectiram sobre o desafio que é ser jornalista num cenário que consideram de “ profundas desigualdades”, na hora do provimento dos cargos de chefia e direcção.

Luísa Rogério, presidente da Comissão da Carteira e Ética, está nas lides jornalísticas há 35 anos
Fotografia: DR

No Dia da Mulher Africana, que hoje se assinala, trazemos, de propósito, depoimentos de mulheres jornalistas, que, pela natureza do seu labor, reportam e analisam casos de mulheres vítimas de todos os tipos de discriminação. Porém, não podendo elas serem juízes em causa própria, raramente as suas queixas e inquietações, a respeito das barreiras que enfrentam diariamente no exercício da profissão, chegam ao grande público.

As jornalistas fazem análise crítica do que observam nos órgãos de Comunicação Social. Falam de desigualdades no género, no quesito ascensão à chefia e direcção. Deixam testemunhos dos desafios que enfrentaram e, em unanimidade, acreditam que a paridade entre mulheres e homens será alcançada quando o provimento dos cargos for baseado na qualificação e competência técnico-profissional. Sem discriminação.

Ana Lemos, TPA

“Muitos obstáculos no processo de inserção...”

Ana Lemos, um dos rostos mais conhecidos da Televisão Pública de Angola, está há mais 30 anos ao serviço da Comunicação Social, sendo hoje administradora não-executiva do órgão, depois de muito recentemente ter ocupado o cargo de administradora de Intercâmbio Internacional e Marketing. No percurso até chegar ao selecto Conselho de Administração, teve percalços.

“Foram desafios duros, algumas frentes. Lutas inegáveis contra a discriminação. Nem sempre foram rosas. Muitos obstáculos no processo de inserção e progressão na carreira. Estou a falar de alguns anos atrás, onde a discriminação era muito mais visível. Tive cenas absurdas que me custam lembrar, sobretudo, quando encontramos alguém que, para brilhar, ofusca a luz de outrem. Era uma discriminação que muitas vezes se traduzia em meras associações mentais feitas sobre mulheres, de quem nem sempre se conhecia o potencial ou pelo menos se ignorava. Aliás, o potencial era muitas vezes confundido com traços como empatia e bondade. Os homens eram sempre os mais durões e, por isso, também os mais “capacitados”. Enfim, coisas que, felizmente, ficam para a história”.

Relativamente à ascensão de mulheres jornalistas aos cargos de chefia e de direcção nos órgãos de Comunicação Social, Ana Lemos foi directa. “Honestamente, penso que hoje em dia há representatividade da mulher em cargos de chefia ou de direcção. Olhando para a Comunicação Social,vem assumindo um posicionamento cada vez maior, embora, em termos estatísticos, entenda que os números estão ainda aquém do desejado. As mulheres constituem ainda minoria nos cargos de maior status. As dificuldades em percebermos as capacidades ou competências femininas ainda persistem. Basta olharmos para o número de mulheres, por exemplo, nos conselhos de administração, nas nossas redacções ou noutras áreas importantes para o funcionamento dos órgãos. Falo, sobretudo, nos órgãos públicos, porque nos privados não me parece nada diferente.”

A voz feminina do Telejornal durante muitos anos garante que adora o seu trabalho e, às vezes, quase se perde à procura do perfeito. Razão pela qual entregou-se à profissão. “Na TPA tive vários desafios, desde a coordenação dos serviços noticiosos à sub- direcção
de Informação. Passei pela assessoria do Conselho de Administração e estou como administradora há alguns anos, sempre conciliando ou experimentando as várias maneiras de fazer televisão. Tem sido um desafio cada vez mais apaixonante, mas, também, com algumas dores à mistura, porque eu amo comunicar”.

Ana Lemos cresceu com uma forte paixão pela medicina. Mas, aos 15 anos, teve a TPA como a primeira e única escolha em termos de opção de trabalho. “Abracei a profissão com educação, disciplina, dedicação, empenho, devoção e profissionalismo; procurei sempre destacar-me. Aliás, procuro conservar essa marca em tudo o que faço na minha vida. Sou uma pessoa de trato fácil, comunicativa, responsável e muito solidária com os meus. Penso que isso tem permitido alguma confiança naqueles que comigo partilham a maior parte do tempo na minha vida, para além da minha família, claro”.

Luísa Rogério, JORNAL DE ANGOLA

“ …Um grande desafio”

Luísa Rogério, presidente da Comissão da Carteira e Ética, está nas lides jornalísticas há 35 anos. Desempenhou funções como sub-editora de Política, Sociedade, chefe de Reportagem e editora de Cultura no Jornal de Angola, onde começou a carreira. Os anos de estrada dão-lhe autoridade para avaliar a prestação da mulher jornalista, com uma visão muito própria, tomando a sua experiência como referência.

“Para mim, ser mulher, num país como o nosso, marcado por profundas desigualdades de género, constitui em si um grande desafio. No entanto, o facto de ter sido quase sempre uma menina no meio de muitos rapazes fez com que assumisse, desde muito cedo, a realidade marcada por desequilíbrios. Quando comecei a trabalhar, encontrei apenas três mulheres na Redacção: Nicolina Neto, Josefa Lamberga e Eugénia Silva. Depois, ficamos só duas, eu e a Geny, durante alguns anos, num ambiente predominantemente masculino. Querendo ou não, eu tinha que ser ‘um deles’. Ainda assim, quando assumi o primeiro cargo de chefia, o de sub-editora de Política, pouco tempo depois da realização das primeiras eleições gerais em Angola, muitos colegas perguntaram ‘porquê eu’. Houve quem questionasse inclusive o facto de ganhar mais do que chefes (de) homens e chefes de família, uma vez que eu nem sequer tinha filhos para sustentar”.

Luísa Rogério lembra que, “numa ocasião, o falecido Manuel Dionísio, então chefe de Redacção, pediu o arquivo e mostrou aos colegas, com palavras que jamais esquecerei: ‘confere o número de matérias assinadas pela Luísa ao longo de um mês e quantas vezes fizeram manchete’. Devo sublinhar que o apoio dos meus chefes na época, Luís Costa e Victor Silva, foi fundamental. Eles ofereceram-me as oportunidades de ouro e, modéstia à parte, eu soube aproveitar as ocasiões. Houve outras situações que aprendi a contornar. Não sou propriamente uma ‘dama de ferro’, mas procurei sempre trabalhar no sentido de jamais dar motivos para se questionar a minha competência e autoridade por ser mulher. Os cargos de chefia no Jornal de Angola e a particularidade de ter começado a encarar responsabilidades profissionais com pouco mais de 20 anos moldaram-me para o grande desafio que foi liderar o Sindicato de Jornalistas Angolanos ( SJA). O resto, como a cobertura do processo eleitoral, as reportagens em tempo de guerra, tomar banho em rios ou dormir em quartéis militares e carregar diariamente a mochila com o kit de sobrevivência para casos de emergência, é algo inerente à profissão”.

Percurso penoso

Embora tenha individualmente galgado vários degraus do edifício que é a Comunicação Social, especificamente o Jornalismo, Luísa Rogério põe reticências quando o assunto é avaliar a ascensão de mulheres jornalistas aos cargos de chefia e de direcção nos órgãos de Comunicação Social públicos e privados.

“Há muito que se diga em relação à inserção de mulheres jornalistas em cargos de chefia. Somos muito poucas, a representação no topo não reflecte a presença feminina nas redacções dos Órgãos de Comunicação Social onde é crescente o número de mulheres. Nas instituições superiores de ensino onde se ministram cursos de Jornalismo ou Comunicação há paridade entre o número de homens e mulheres, em algumas até a presença destas é superior. Por incrível que pareça, até hoje há o registo de duas mulheres a exercerem a função de administradoras para a área de Conteúdos ou conexas nos órgãos públicos. Trata-se das jornalistas Luísa Damião, actual Vice-Presidente do MPLA, que fez carreira na ANGOP, e Paula Simons, que até ao mês passado deteve o cargo mais expressivo na área de conteúdos da RNA. Na imprensa privada, o desequilíbrio é maior.

Luísa Fançony é a única mulher directora-geral, assumindo a função desde a fundação da LAC. Além dela, somente a Suzana Mendes tinha exercido a função de directora de Informação de um jornal, o Angolense. Recapitulando, o percurso tem sido penoso para as mulheres, em termos de inserção em cargos de direcção. Em definitivo, não reflectem conquistas registadas noutros sectores. É urgente a implementação de políticas públicas realistas para evitar que muitas jornalistas mudem de área por falta de perspectivas de realização profissional e material na Comunicação Social”.
Com reputação e competência profissional inquestionáveis, seria desnecessário perguntar à Luísa Rogério como está a encarar o desafio de liderar a Comissão da Carteira e Ética (CCE), sendo um órgão totalmente diferente do Sindicato de jornalistas, onde foi secretária-geral por muitos anos. Mas, à luz da especificidade de cada função, consideramos pertinente conhecer o que lhe vai na alma.

Até ser eleita presidente da citada entidade, acreditava que liderar o SJA tinha sido o desafio da sua vida. “Agora já não sei, apesar de a CCE ser um órgão virado para a auto-regulação. Portanto, um organismo privado com poderes públicos, tem a competência de assegurar o funcionamento do sistema de acreditação dos profissionais da Comunicação Social nos termos da Lei. Compete-lhe a atribuição, renovação, suspensão ou mesmo cassação, nos termos da Lei, dos títulos de acreditação dos profissionais, julgar e sancionar a violação dos deveres ético-deontológicos dos jornalistas, entre outras competências plasmadas na Lei do Estatuto do Jornalista. É completamente diferente.”

Margarida Cortez, ANGOP

“Sempre fui dedicada ao trabalho"

Ao longo da carreira, Margarida Cortez teve como um dos seus grandes desafios fazer com que as suas competências fossem reconhecidas, o que a obrigou a trabalhar em dobro, ser mais exigente e rotulada insensível e sem instinto maternal.

“Sempre fui dedicada ao trabalho e o facto de permanecer dois períodos na Redacção também levou os colegas a questionarem o tipo de educação que os meus filhos tinham. Mas foi uma situação que aprendi a controlar com muito choro. Outro grande desafio foi o exercer as mesmas funções que alguns homens, mas ter o salário muito mais baixo que o deles. Este facto podia ter-me desmotivado e feito que deixasse de trabalhar com prazer. Isso aconteceu no período de 2008/2015 e até hoje nunca entendi quais foram os critérios para a distribuição salarial. Em 2009, já exercia o cargo de Editora, mas continuava com salário de Sub-editora. Quando fui promovida a delegada provincial (chefe de departamento), o salário era de Editora. O facto de ter um salário não compatível com as funções que exercia fez com que fosse mais persistente e tivesse maior comprometimento e dedicação ao trabalho, já que o Jornalismo é a minha paixão. Consegui superar muitas barreiras, consciente de que devia trabalhar muito mais que os outros colegas. Essa persistência e dedicação permitiram que eu conquistasse o meu espaço dentro da empresa”.

Quando pensava que havia vencido a batalha contra a discriminação, Margarida Cortez enfrentou outro desafio, que era ganhar o respeito dos colegas da Delegação de Luanda. “Cheguei a fazer-me de desentendida quando ouvia piadas machistas do tipo: ‘se tivesse homem já estaria em casa, ao invés de estar a nos encher’... E quando fossem obrigados a refazer a notícia, até de perseguição e assédio era acusada. ‘A falta de homem torna as mulheres ranhosas e acabam por atacar todos e tudo. Essa foi expulsa de casa ou fugiu dos afazeres domésticos’. Foram, entre muitas, as frases que ouvi. Infelizmente, em Angola como em outras partes do mundo, ser mulher jornalista ainda é um grande desafio e exercer um cargo de chefia é um desafio maior, que exige da mulher trabalho a dobrar. Em Angola, é visível o protagonismo das mulheres no Jornalismo, mas grande parte dos cargos de chefia são ocupados por homens, ou seja, ainda é um domínio masculino”.

Para repudiar a incompreensível discriminação reinante, Margarida Cortez aponta a lenta ascensão de mulheres aos cargos nos órgãos públicos. “É uma evolução muito lenta e isso acaba por minar a autoconfiança da própria mulher. Nos conselhos de administração existem mulheres, mas nenhuma como administradora para área de Conteúdos ou como directora de Informação. O reduzido número de mulheres nos cargos de chefia não só quebra a auto-estima da mulher, como gera uma certa insegurança. A falta de auto-confiança torna-se um grande obstáculo para que a mulher almeje aquele lugar. Acredito que, se os cargos fossem ocupados por candidatura e não por nomeação, teríamos muitas mulheres nos cargos de chefia nos órgãos públicos e privados”.

Há mais de 30 anos na ANGOP, Margarida Cortez recorda quando entrou pela primeira vez na Redacção, para começar o estágio. “Tive um grande choque, por causa da linguagem utilizada e pelo reduzido número de mulheres”. Mas continuou. Recebeu noções de jornalismo, em 1987, no Centro de Formação da ANGOP e, depois do estágio, integrou o desk Sociedade e Exterior Português. Ocorreram movimentações; foi nomeada sub-editora da Divisão Social, cargo que ocupou por três anos.
“Foi um grande desafio. Quem passa pela Divisão Social tem traquejo para aguentar qualquer redacção. É uma área que recebe material de toda Angola, 24h/24h.” A seu pedido, foi transferida para o município do Kilamba-Kiaxi, como delegada municipal. Actualmente, é delegada provincial da ANGOP em Luanda.

Ana Francelina, Angop

“Já temos mulheres nos cargos de chefia”

Ana Francelina é directora do Centro de Formação da Agência Angola Press, (ANGOP). Desde que abraçou o jornalismo, em 1986, vivenciou vários momentos, ao mesmo tempo aceitou desafios para conquistar o seu espaço. Porém, tem a certeza que há barreiras que dificultam a mulher a atingir cargos de chefia.
“É bem verdade que encontrei bastantes dificuldades. Mas um dos grandes desafios foi chefiar um universo masculino, alguns deles com mais tempo de trabalho que eu e com mais idade. Outro desafio foi conciliar a vida doméstica com a actividade profissional. Às vezes chefiar homens é muito difícil, principalmente, porque quando somos nomeadas, eles questionam a nossa competência. ..”

Sempre a pensar em somar e seguir, Ana Francelina encarou a possibilidade de dirigir o Centro de Formação da ANGOP sem hesitação.” Achei que, tendo em conta a minha experiência profissional, podia dirigi-lo, dando o meu apoio às novas gerações e fazendo programas que iam de encontro à realidade da ANGOP. O objectivo é a criação de profissionais competentes para assegurar a era da multimédia e alcançarmos a excelência.”

Ana Francelina considera que ter mulheres nos cargos de chefia ainda é um sonho a concretizar. Apesar disso, aponta avanços, ainda que tímidos. “ Quando entrei para ANGOP, em 1986, não havia muitas mulheres no jornalismo. Lembro-me que a Redacção tinha cinco ou seis mulheres...Mesmo naquela época, já estavam duas mulheres a chefiar. Era a Luzia Moniz, no Desk África e a Luísa Damião que era subeditora do Social. Agora, as mulheres têm demonstrado a sua capacidade, são firmes, guerreiras e conseguem fazer muito mais do que aquilo que se pensa. Já temos mulheres nos cargos de chefia e direcção nos órgãos da Comunicação Social. A avaliação é positiva e acredito que vamos ascender mais.”

A directora do Centro de Formação da ANGOP embora esteja animada com o desempenho e a progressão de mulheres, tem um olhar crítico, porquanto, “ apesar de uma presença mais frequente da mulher no jornalismo, poucas são as mulheres que se dedicam a questões políticas, económicas e desportivas.... É com trabalho que se faz tudo.”

Ana Francelina fez todo o seu percurso profissional no jornalismo. Entrou para ANGOP em Maio de 1986, na divisão Social, passou para divisão África e Resto do Mundo. Depois de concluir o curso de Francês, trabalhou, por algum tempo, na Agência France Press. Regressou à ANGOP para integrar novamente a divisão África. Foi subeditora do desk Sociedade, editora da delegação do Aeroporto 4 de Fevereiro durante oito anos. Foi nomeada chefe da Redacçao Multimédia e actualmente é directora do Cento de Formação da Angop.

Elisa Coelho,  RÁDIO NACIONAL DE ANGOLA

Elisa Coelho entrou para os quadros da Rádio Nacional de Angola em 1985, como escriturária dactilógrafa. Passou pela Secretaria de Redacção e ficou durante 6 anos na área técnica, onde foi operadora, ascendendo depois à sonorizadora. Posteriormente, recebeu formação para ser jornalista. Os obstáculos que enfrentou na trajectória profissional deixam-na à vontade para afirmar que existem injustiças no sector da Comunicação Social.
“Conheço muitos bons nomes na Comunicação Social, que, para mim, são modelos; deviam ser líderes de alguns grupos, como redacções, sectores chaves da nossa área de acção. Mas, infelizmente, o facto de ser mulher pesa. Existem muitas injustiças. Fala-se muito na emancipação da mulher, no desenvolvimento das sociedades, no progresso, mas a sociedade tem sido muito ingrata para o reconhecimento do trabalho das mulheres. Temos mulheres muito bem formadas, mulheres que aprenderam na escola da vida, porque há instruções que nem sempre se aprende na Academia. Apesar disso, muitas vezes, somos relegadas para segundo plano, último ou nem somos tidas nem achadas”.

Elisa Coelho reforça, assim a ideia de que “há injustiça, quanto à liderança de postos chaves para mãos femininas. Isto é grave, muito grave! Para as mulheres angolanas na Comunicação Social, ainda lhes é muito, muito difícil ascender aos cargos de chefia ou de direcção. Não por falta de qualidade, existem muitos nomes que reúnem condições para estar à frente de departamentos, redacções e outras áreas. Mas continuamos a enfrentar grandes impasses, até mesmo pelo próprio sistema que governa o nosso país. Sabe-se que os cargos deixaram de ser uma conquista e, nas indicações, o factor justiça tem sido muito beliscado. Vivemos numa sociedade que é politizada, e não é segredo para ninguém, só isso explica tudo. E as mulheres que não têm muita inclinação para aquilo que o sistema muitas vezes exige têm dificuldades para atingir estes patamares, embora tenham apresentações com cabeça, tronco e membros, dentro das suas atribuições. Isto deixa-me muito triste”.
A mulher que nunca sonhou ser jornalista, estando na RNA, desejou fazer parte da equipa da área técnica da empresa e dar vazão à inclinação que tinha para as engenharias. Mas, de início, viu a sua pretensão barrada, sustentada numa explicação que considera machista:

“Quando entro para a Rádio, começo a conhecer bem, converso com algumas pessoas, chefes, que me dizem que ali não havia mulheres, porque era uma área sensível... Aquela área não servia para mulheres. Senti naquilo um desafio a encarar e disse: ‘vou vencer esta batalha’… Escrevi cartas que foram rejeitadas. Na última, disseram ‘vamos ver’… Na altura em que me foi dada luz verde, todo o pessoal da área foi obrigado a fazer um curso intensivo, era a única mulher, dos 18 elementos. No fim do meu estágio, foi admitido mais um grupo de operadores, onde havia mais uma mulher. Daí em diante, em todos outros grupos foram admitidas mulheres… Sinto-me orgulhosa por ser, de 1986 para cá, a primeira operadora de som, ou seja, todas as mulheres que estão na Rádio vieram depois de mim…Mas, antes mesmo de eu entrar para a Rádio, ouvi falar muito de uma senhora na sonorização, Linda Simões… Portanto, este foi um desafio que enfrentei e consegui levantar o estandarte da mulher na área técnica... Depois, ascendi à sonorização, fui chefe de Turno, a nível da Operação”.

Quando a saúde começou a faltar-lhe, Elisa Coelho, que entrou na RNA pela mão do falecido jornalista Francisco Simons, optou pelo jornalismo. Fez formação em Redacção e Reportagem na Rádio Escola e apoiou-se também naquilo que tinha absorvido na sonorização. Enquanto redactora/repórter, na área de Programas, Canal A, cuidou de matérias culturais, conquistando o seu espaço, o que a catapultou à categoria de Realizadora de Programas. Actualmente dirige o programa Reencontro.

Reconhecer o mérito

Elisa Coelho defende que se devia reconhecer o mérito de muitas senhoras. “Quando estamos a exercer a nossa profissão, não estamos como adversárias dos homens, nem somos o seu complemento... Somos os dois (mulheres e homens) responsáveis pela causa que é a nossa profissão… Estamos para honrar o nosso trabalho, engrandecer os nossos órgãos. Fazemos um trabalho a pensar apenas em servir quem absorve aquilo que a gente faz. Então, se estamos no mesmo espírito de empreitada, porque não olharmos também por aquelas que muito fazem, que são as verdadeiras companheiras nesta caminhada que é o Jornalismo angolano? Muitas mulheres têm garra, conhecimento e segredos que podem, sim, passar para os outros, os seus colegas. Se a sociedade, os chefes e os que estão à frente dos órgãos lhes reconhecessem mérito, estas senhoras estariam enquadradas em outros patamares”.

Suzana Mendes, VIDA TV

“As oportunidades não são iguais”

Suzana Mendes começou muito cedo o seu percurso jornalístico, na Rádio Nacional de Angola, no Departamento de Programas, no chamado Canal A. Fez carreira nos jornais privados “Agora” e “A Capital”, sendo a primeira editora-chefe de um jornal em Angola, no caso o jornal Angolense, onde chegou à directora de Informação. Actualmente, é coordenadora editorial do Departamento de Informação da Vida TV. Em 20 anos de jornalismo, os lugares de destaque que ocupou não a deslumbraram ao ponto de se esquecer que o seu caso é excepção à regra no Jornalismo angolano. Por isto, enquanto mulher, não tem dúvidas de que um dos desafios que enfrentou, e ainda enfrenta, tem a ver com as barreiras que existem na sociedade, no que toca à igualdade do género.

“Vivemos numa sociedade que, apesar de a Constituição consagrar a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, apesar de Angola ter ractificado uma série de instrumentos internacionais, que consagram a igualdade do género, como a Convenção para a eliminação de todas as formas de discriminação, continuamos a ter barreiras na igualdade do género, ou seja, as oportunidades no mercado de trabalho não são iguais para homens e mulheres. Quando há oportunidades e funções, são dadas aos homens. É só ver que, a nível da comunicação social, a maior parte dos cargos de chefia estão entregues a homens. Há sempre esta barreira, no sentido de que, apesar do trabalho e da competência, o facto de ser mulher, muitas das vezes, nos relegar a segundo plano”.

Ao ter que lidar com a produção de conteúdos informativos em televisão, Suzana sabe que, ao aceitar a proposta, outros novos desafios a esperam. Ter de trabalhar com uma equipa maior e criar um grupo mais coeso, de modo a que todos possam contribuir para o sucesso do produto a emitir, é o seu cavalo de batalha.
“...É um desafio. Como profissional e mulher, vamos aceitando, abraçando e nos dedicando completamente ao que estamos a fazer e, obviamente, que é um aprendizado, na medida em que toda a nova função que desempenhamos, para além de darmos a nossa experiência e contributo, também aprendemos constantemente”.

Suzana Mendes reconhece que o contexto não é favorável à mulher, mas é claramente a favor de mudanças de paradigma, quanto às promoções na comunicação social. “Ainda temos muito que caminhar no que toca aos cargos de tomada de decisão ao nível do jornalismo. Ser formos analisar, na maior parte das editorias, nos diversos órgãos de comunicação social, os responsáveis são homens, os directores e a maior parte dos conselhos de administração são integrados por homens. Portanto, não é um contexto fácil. Penso que é possível que nós (mulheres) possamos ascender ainda mais. Isto não acontece por falta de competência e empenho das mulheres, é devido a uma sociedade que ainda não dá iguais oportunidades a homens e mulheres. Ainda temos a questão salarial, continuamos a verificar que, em alguns casos, o homem e a mulher fazem o mesmo trabalho, têm as mesmas competências e valências, mas os homens acabam por receber um salário maior. Ainda temos muitos desafios neste capítulo”.

Durante os 20 anos de jornalismo, Suzana Mendes fez a cobertura de eleições, entre outros eventos importantes, em várias partes do mundo. Destaque para a cobertura de eleições na África do Sul, nos Estados Unidos da América, onde acompanhou o processo eleitoral, que elegeu, pela primeira vez, Barack Obama para Presidente. Esteve igualmente na Noruega, a cobrir eleições. Há muitos anos, dedica-se à causa da igualdade de género e do combate à violência, através do trabalho com o Fórum de Mulheres Jornalistas para a Igualdade do Género, uma organização da qual é fundadora e membro da direcção. Foi também membro da direcção do Fórum de Repórteres Investigativos de África, organização da qual foi vice-presidente, em 2009. Desde 2016 integra a Rede de Mulheres Namíbia, da Fundação Graça Machel.

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