Reportagem

Edi, cassulinha do Fubu na mira do Real Madrid

José Luís Mendonça

A sombra de uma árvore é o balneário improvisado dos jogadores. Mister Dinax está sentado num banco de plástico meio dilacerado.

Entre muitos apoios, Edi conta com o da família que muito tem feito para ele concretizar o sonho de jogar no colosso madrileno
Fotografia: DR

Ao lado está um tambor vazio e um bloco de concreto que servem de mesas. O sol abre uma cortina no céu para espreitar aquela equipa de cassules do futebol Fubu, perfilada para a foto: Nelson, 12 anos; Baloteli, 14; Paulo, 12; Dabarra, 14, Jota Dê, 13; Kenera, 12; Gogoró, 12, Giovani, 12, Januário, 12, Edi, 13 e Leandro, 14.

Às 8h30 teria início o desafio contra os Candengues do Patriota, adversário saído do bairro Benfica, no calendário de jogos organizado pelo Movimento Nacional Espontâneo e denominado Gira Bairro. Os jogos decorrem aos sábados, a partir das 8h30, “se calharmos com uma equipa da Petrangol, devemos ir à Petrangol, temos transporte”, esclarece Dinax.
Edi e o seu time entram para o campo e começam a aquecer os músculos, com a bola branca a saltitar e a deslizar na roda de jogadores já equipados com a camisola verde-alface do Contemplante. O treinador Dinax explica que o equipamento dado pelo clube é completo: chuteiras e uniforme, “infelizmente, as chuteiras não duram muito, devido ao uso fora do campo”.
Jota Dê está há três anos na equipa, joga no meio-campo. Confidencia-nos que “o Edi joga bem, vai ter futuro no futebol”. Dá para ver. Ali no treino de aquecimento, Edi destaca-se pela precisão no domínio da bola e pela destreza no jogo com os dois pés. O repórter aproveita para fotografá-lo a travar a bola com o pé esquerdo e fazer um passe rápido com o direito. Sempre posicionado a lateral direito, Edi, jogador cassulinha, tem demonstrado um empenho fora do normal que já lhe granjeou uma medalha pelo 3º lugar conquistado no torneio Candengues Habilidosos, ganho pela equipa do Akwá. A juntar a este, Edi exibe o certificado de participação no mesmo torneio e outro do Real Madrid.
O Real Madrid chegou a Luanda este ano com a informação de que haveria um torneio em Espanha, no final de 2019. O torneio tem três fases de preparação em Angola. A primeira já decorreu, em forma de treinos. A segunda está marcada para Agosto e a terceira para Setembro. “Depois viajamos em Dezembro”, explica o lateral-direito. “Vão seleccionar os melhores jogadores, vamos lá competir num torneio e depois regressamos. Acho que talvez escolham alguns de nós para ficarmos em Espanha, mas não tenho a certeza. O espanhol que falou connosco, o Xavier, é técnico do Real Madrid.”
Três Barras entrou para o Contemplante com 12 anos. Antes jogava na equipa do Ti Malu, um mecânico detentor de uma oficina. “A Contemplante estava a precisar de jogadores, então o mister Dinax foi-me pedir emprestado no Ti Malu e estiveram a conversar, fizeram uma contratação para eu ficar aqui neste time”, esclarece o menino do Fubu cujo objectivo é um dia jogar na Champions e que tem Ronaldo como o seu ídolo. Da prata da casa, Edi considera Job, do Petro de Luanda, o melhor.

O sonho de Edi

A casa de Edi dista dois quilómetros do campo do Kimbango. É uma construção de blocos de cimento, sem reboque, onde ele coabita com dois dos sete irmãos que a mãe lançou ao mundo. A mãe, Dona Maria, emigrou para a terra natal, Malanje, onde desbravou uma lavra, a fim de prover ao sustento da família. Levou consigo a cassule de nove anos. Agora, o lar é dirigido pela irmã de 18 anos, Fátima Egas (Beibi).
Esta menina frequenta a 12ª classe num colégio privado, pago pela caridade de uma mamã da OMA. É ela quem cozinha, lava, limpa e engoma. O pai deles, em vida, foi primeiro sargento das FAA. Faleceu em 2014, por doença, e até à data, a Caixa Social das FAA desconsegue abrir mão da pensão para a família. A mãe escreveu para a Caixa e essa mamã da OMA comprometeu-se a apoiar, pelo menos, nos estudos da menina. Os restantes proventos vêm da renda de uma parte da casa. Segunda Manuel Egas (Vinte e Cinco), 16 anos, é praticamente o homem da casa. Aos fins- de-semana corta o cabelo dos amigos e vizinhos. “Com as dificuldades que temos passado para sobreviver, as despesas da escola de todos nós, táxi, alimentação, essa mensalidade da Caixa seria muito útil”, lamenta este rapaz, a estudar a 11ª classe, e que quer um dia ser arquitecto.
O sonho de Edi é ser um jogador da alta competição. Este projecto do Real Madrid aparece como uma bênção dos deuses na sua carreira de cassulinha. Mas a paixão pelo futebol não o impede de cumprir a orientação da mãe de se formar um dia. Natural de Malanje, Edi tem como opção profissional ser lapidador de diamantes, talvez por influência do avô, originário da Lunda-Norte: “se a vida me não der uma chance de ser jogador, vou estudar para ser lapidador de diamantes.”

Natural do Sambizanga, José Congo, mais conhecido por Dinax, foi ex-jogador do Petro de Luanda e do Progresso Associação Sambizanga, no escalão de juvenis. Nunca chegou a efectivo, por falta de documentação, “na altura tinha 12 anos e não dispunha de Bilhete de Identidade”. Dinax explica ao Jornal de Angola que começou este projecto com os candengues em 2015, com o patrocínio de Hosday Guilherme, empresário. O Contemplante comporta todos os escalões da modalidade: cassulinhas, iniciados, juniores e seniores.
Os cassulinhas de Edi treinam quatro vezes por semana, às terças, quartas, quintas e sextas, logo pela manhã, das 7 às 8h30. Os rapazes enfrentam os adversários aos sábados e já estão na fase de eliminatórias (mata-mata) na competição do Gira Bairro. A equipa tem três jogadores vendidos, um sénior está na Academia de Futebol de Angola (AFA) e dois juvenis estão no Progresso, o que significa dizer que ali na Fubu está constituído um verdadeiro viveiro de talentos do futebol.

O dono do clube

O jovem empresário Hosday Guilherme é o dono do Contemplante. “No passado, denominava-se Côte d’Ivoire. O nome Contemplante teve origem no nome de uma empresa que um primo meu constituiu e que ainda não se encontra a operar no mercado. Apostei no nome, senti que me identificava com o projecto, e adoptámos essa designação para o clube”, afirma Guilherme, por detrás da mesa de trabalho na Vila Alice.
Hosday Guilherme diz ser “muito amante do futebol”. No passado jogou no torneio da FESA (iniciados e cassulinhas), à passagem da fase dos juvenis não deu continuidade, pois teve de prosseguir com os estudos. “A minha família optou pela minha formação. Estudei Contabilidade, mas troquei, estou agora a estudar Gestão de Empresas.”
A razão da localização da equipa no bairro Fubu (por analogia com fuba, porque é uma zona altamente empoeirada, quem entra no bairro sai de lá “fubulado”) deve-se ao facto de Hosday viver nele e se identificar com a zona. “Gosto do bairro e criei este projecto social. Jogávamos no Gira Bairro, no escalão sénior. Mas notei que havia muitas crianças que acompanhavam a equipa. Por vezes, tínhamos de alugar um Hiace, só para levar as crianças a assistir os jogos noutros bairros e, tendo em conta o nível de criminalidade que havia no bairro, senti a necessidade de ocupar a juventude. Foi então que criámos o Contemplante”, elucida o jovem empresário. Valeu a pena o esforço: hoje, o Contemplante tornou-se uma verdadeira mina de ouro do futebol angolano.

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