Reportagem

Empresárias vencem obstáculos e incentivam outras mulheres

Vânia Inácio

Empreender tornou-se praticamente uma necessidade em Angola. Depois da redução drástica do poder de compra, as famílias sentiram na pele os efeitos da crise económica e dos níveis altos de inflação. Para as mulheres, mesmo antes da crise financeira, empreender sempre pareceu um caminho muito difícil.

Elisabeth diz sentir a falta de mais mulheres jovens que a inspirem.
Fotografia: DR

Para falar sobre o lado empresarial das mulheres angolanas e das barreiras que tiveram de ultrapassar para alcançar o sucesso, o Jornal de Angola conversou com quatro mulheres, que podem servir de inspiração a outras, para que singrem no mesmo ramo.

Elizabeth dos Santos
Gestora da Kikovo, uma fazenda de ovos, é uma mulher com sucesso no ramo empresarial. Começou na actividade que desenvolve em 2012. No início da implementação, isto em 1992, a fazenda passou pela gestão de brasileiros, angolanos, entre outros. Mas apenas sob a gerência da actual proprietária é que negócio atingiu os níveis actuais.
Sem grande conhecimento, sendo que foi o seu primeiro emprego, a advogada e pós-graduada em direito empresarial, percebeu que tinha potencial para empreender desde tenra idade. Actualmente, a fazenda garante 560 postos de trabalho, dos quais 540 são ocupados por angolanos, e tem um volume de negócio que chegou a atingir 24 milhões de dólares. A Fazenda Kikovo tem condições técnicas para a produção diária de um milhão de ovos.
O lado persistente de Elisabeth Santos e a característica de mulher forte e determinada fizeram que, ao longo do seu percurso, não se sentisse discriminada por ser mulher. “Sabia, de antemão, que, por ser mulher, teria algumas limitações no agro-negócio. Por ser uma área mais forte e musculada, mas tive de me superar".
Elisabeth diz sentir a falta de mais mulheres jovens que a inspirem. Mas tem a ministra da Indústria, Bernarda Martins, e a chanceler alemã, Angela Merkel, como modelos pelo lado imponente que têm e que intimida muitos homens. Ao negócios de produção avícola da fazenda que gere juntam-se outros, como corte de frango fresco (Vicuchi) e ração (Nutrimix).
Para as mulheres que querem empreender, Elizabeth aconselha que comecem por pensar que não sabem nada e a ligarem-se às pessoas que possam ensinar-lhes alguma coisa. Para, posteriormente, se definirem enquanto profissionais, sem nunca deixarem de ser mulheres.
A empresária é mãe de três filhos, gosta de cozinhar nos tempos livres e prefere receber as pessoas em casa a estar na rua.

Nayma Izata

"Primamos pelo conforto e elegância". É assim que a jovem angolana apresenta os seus sapatos de marca Nayma Izata, por sinal o seu nome. A ideia de seguir este ramo surgiu em 2014, quando procurava por um segmento relacionado com a moda, que faltava no mercado.
"Sempre fui ligada à moda e achava que em Angola havia uma lacuna na indústria de calçado", lembra.
Nayma licenciou-se em Engenharia, mas muito cedo descobriu que trabalhar como engenheira não era algo para ela. Decidiu ser dona de um negócio. Hoje, a sua marca fabrica sapatos e chinelas, cujos preços variam de 45 a 65 mil Kwanzas. A última colecção, 300 pares de calçado, foi vendida em apenas dois dias.
A empresária não tem memória de episódios de discriminação por ser mulher, pois o seu lado forte, dinâmico e decidido convence sempre as pessoas com quem se relaciona, sejam mulheres ou homens.
"Mas empreender não é fácil e existem sempre entraves. Por exemplo, tenho dificuldade de importação, porque o meu calçado é fabricado na China e as divisas e as taxas estão cada vez mais altas. Há que ter muita força de vontade", advertiu.
A empresária também entrou para o negócio da comida. Agora tem um Brunch - café que até ao momento emprega 25 pessoas.

Iracema Matias

Ela sempre fez parte do mundo da moda. Em 2018, criou a “Regardez Moi”, uma marca de roupa que "já é um orgulho em Angola", garante Iracema Matias. Ela descobriu que tinha potencial empreendedor quando decidiu parar de trabalhar para outrem, porque precisava de fazer faculdade.
Actualmente, tem uma loja, mas a empresária começou em 2008, com uma boutique onde vendia roupas importadas. Já formada em Fashion/designer, em 2017, surge a vontade de começar a fabricar as suas próprias roupas.
"Comecei a fabricar e a vender algumas peças na boutique. O meu espanto foi que comecei a vender mais do que fabricava do que o que importava. “Foi aí que decidi parar com a importação. Abri o meu ateliê de corte e costura e a loja de pronto a vestir", contou.
"Hoje, o ateliê faz muito sucesso e até vende roupas no estrangeiro. “Tenho estado a participar em muitos eventos de moda internacionais e nacionais, nos quais já recebemos vários prémios", frisou.
Do ponto de vista de conquistas, Iracema é categórica: " Somos aquilo que decidimos ser. Somos o fruto da semente que plantamos. Acredite no seu potencial, não desistas dos seus sonhos", incentivou.

Hermenegilda Silvestre

Ela considera-se destemida por natureza. Gilda, como é chamada, construiu uma carreira à força. A “Gil”, marca de transformação de produtos de campo em conservas 100 por cento naturais, nasceu quando a empresária percebeu que havia muito excedente do campo a estragar-se. “Daí pensei: porque não transformar os produtos que estejam tocados, mas não podres, em conservas”, desvenda.
Recentemente, o Presidente da República, João Lourenço condecorou-a, pela ousadia de apostar num segmento até ao momento pouco explorado no país. A empresa nasceu em tempo de crise (2017) e conta com 57 produtos, desde geleias, compotas e molhos, tudo feito com frutas e hortícolas. Os preços variam de 800 a 2700 mil Kwanzas.
Os seus produtos tiveram boa aceitação no mercado angolano, inclusive recebe encomendas de grandes supermercados. Mas a empresária lamenta a falta de potes de produção local, o que tem dificultado o crescimento da empresa. Ainda assim, Gilda já viu os seus produtos serem exportados para o Brasil, Portugal e Inglaterra.
A empresária, que é gestora de formação, já foi burlada e descriminada por ser "mulher e bonita", mas a sua persistência levou-a ao sucesso no agro negócio.
"Sempre soube onde queria chegar. As pessoas confundem persistência com teimosia. Mas, dentro de mim, sabia onde eu queria chegar. Nunca desisto e sou daquelas que se dedica a transformar todos os não em sim", confessa.
Para a empresária, a maior dificuldade de uma mulher que quer empreender é a falta de iniciativa. Dai que aconselha a mulher que quer ser empreendedora de sucesso a ser resiliente e ter a capacidade de se reinventar.
Gilda considera-se uma empreendedora nata. Já teve um salão de cabeleireiro, foi decoradora, vendeu muitos outros produtos, como gelados e roupas. Da mãe, Filomena, herdou o lado visionário e o espírito empresarial. Apesar do sucesso, a progenitora continua a ser a maior influência na sua vida.

 

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