Reportagem

Empresários apostam na produção alimentar

Carlos Paulino | Rundu

O telefone instalado no Consulado de Angola no Rundu, capital da região namibiana de Kavango, não pára de tocar devido aos empresários sul-africanos e namibianos que ligam constantemente para obter informações sobre a província do Cuando Cubango, onde pretendem realizar investimentos de vulto nos sectores de exploração mineira e florestal, agropecuária e construção de estradas.

Processo de mecanização agrícola na província do Cuando Cubango pode ser acelerado por empresários sul-africanos interessados em investir na região sobretudo na produção de cereais e outras culturas de alto rendimento
Fotografia: Nicolau Vasco| Menongue| Edições Novembro

O cônsul-geral da República de Angola na região de Kavango Este e Oeste, que superintende igualmente as zonas de Zambezi e Otjozondjumpa, que partilha uma extensa fronteira fluvial de 600 quilómetros e de outros 310 quilómetros de terra firme, com o Cuando Cubango, é considerado nos diversos círculos empresariais da Namíbia e da África do Sul como um paraíso agropecuário.
Gilberto Pinto Chikoti adiantou que, nos contactos telefónicos com os empresários dos dois países, apresentaram propostas de investimento aliciantes, sendo os sectores da agropecuária, exploração mineira e florestal, bem como a construção de estradas os mais referenciados, nos quais pretendem aplicar centenas de milhões de dólares americanos, com vista a manterem vivos os seus negócios.
“O interesse dos empresários sul-africanos de investirem em Angola é ainda maior porque, segundo estudos feitos naquele país mais a sul de África, apontam para uma escassez de água nos próximos dez anos, ao passo que a província do Cuando Cubango ostenta 40 por cento dos recursos hídricos do país, ou seja, tem água em abundancia e terrenos praticamente virgens”, disse
Os empresários sul-africanos queixam-se também de existir, no seu país, um excesso de burocracia na disponibilidade de terras.
Por este facto, como referiu, é que não param de ligar para “o nosso consulado, na expectativa de não verem morrer os seus negócios no futuro e preferem emigrar para outras paragens e Angola é um dos países de eleição, tendo em atenção a exuberância dos recursos naturais e os milhares de quilómetros quadrados de terras aráveis, nunca antes explorados.”
Gilberto Pinto Chikoti disse que todos os pedidos neste sentido foram encaminhados junto do Governo da Província do Cuando Cubango para, dentro dos protocolos de cooperação existentes entre os dois países, encontrar mecanismos para satisfazer, o mais rápido possível, as necessidades dos investidores estrangeiros, antes que estes entrem em desespero e procurem outros países.
“É necessário termos em consideração que, com a concretização dos diversos projectos que os empresários namibianos e sul-africanos querem investir no Cuando Cubango, vai ter enormes benefícios para o melhoramento das condições de vida da população”, defendeu, acrescentando ainda que haverá muitos postos de trabalho e fartura de alimentos, o que vai fazer com que a província deixe de depender de outras regiões, conforme acontece actualmente.

Empresários ansiosos


O primeiro grupo de empresários namibianos e sul-africanos, que visitaram a província do Cuando Cubango, continua a aguardar com expectativa a resposta do Governo Provincial do Cuando Cubango, sobre uma parcela de terra em Liapeca para a qual foram já mobilizados mais de 200 milhões de dólares americanos para a produção de carne, leite, ovos, milho e frutas em grande escala.
Depois de um encontro, o Governo Provincial do Cuando Cubango conduziu o grupo de empresários para uma área de 78 mil hectares de terras aráveis na localidade de Liapeca, a cerca de 30 quilómetros da cidade de Menongue e, até à data presente, aguardam com ansiedade a entrega do referido espaço para o arranque dos trabalhos.
Gilberto Pinto Chikoti disse que, depois que deixaram a província, os investidores namibianos e sul-africanos não param de ligar ao consulado para saber em que pé se encontra a tramitação dos documentos para a cedência do referido espaço uma vez que o dinheiro, ou seja, os cerca de 200 milhões de dólares americanos, para este fim continua inactivo nos bancos.
Os empresários já têm preparada grande parte dos equipamentos agrícolas para instalarem as suas fazendas no Cuando Cubango e questionam o consulado qual a razão da demora, da parte do governo provincial, em responder à solicitação.
Os mesmos pretendem investir na província do Cuando Cubango, porque esta região tem um potencial, em termos de recursos hídricos e terras aráveis, fundamental para se desenvolver projectos agro-industriais de referência.
As condições para se praticar agricultura na Namíbia, Zâmbia, África do Sul, Botswana e em outros países, a nível do continente africano, não se comparam com as que existem no Cuando Cubango que oferece excelentes oportunidades para a implementação de imponentes projectos agropecuários e industriais.

Atracção fiscal

Outro motivo de atracção dos empresários namibianos e sul-africanos em querer investir, nesta região do sudeste de Angola, prende-se com a legislação angolana que estabelece um período de carência de 15 anos para aquelas empresas que efectuarem investimentos acima de um milhão de dólares americanos.
Este tipo de incentivo fiscal agradou aos investidores estrangeiros que tudo fazem para exercerem actividade empresarial no Cuando Cubango, aos quais já se passou a mensagem de que a província está aberta para todo o tipo de investimento, com realce para os sectores agropecuário, florestal, mineiro e turístico.    
Na visão do cônsul-geral de Angola no Rundu, os vários empresários vêem os investimentos no Cuando Cubango como uma oportunidade de se desenvolver ainda mais a região, quer na criação de centenas de postos de trabalho, quer na melhoria da dieta alimentar das famílias e das estradas, esta última que constitui a principal dor de cabeça, quanto à circulação de pessoas e mercadorias na parte leste e sul da província.
Além das fazendas que vão ser instaladas, os empresários pretendem criar condomínios habitacionais que vão contar com com serviços sociais básicos.

Criação de cooperativa
 
Gilberto Pinto Chikoti anunciou que o consulado está a trabalhar em colaboração com o Ministério da Agricultura para a criação de uma cooperativa agrícola no município do Cuangar, com uma extensão de dois mil hectares, para atender ao pedido da comunidade angolana no Rundu, que, confrontada com a escassez de recursos financeiros, pretende desenvolver actividades agrícolas.
Esta iniciativa, disse, visa minimizar a situação de extrema pobreza em que muitos cidadãos angolanos vivem no Rundu, bem como incentivar os mesmos a regressarem ao país. Fez saber que o consulado controla neste momento mais de 50 mil angolanos nas regiões do Kavango Este, Oeste, Zambezi e Otjozondjumpa e que muitos não voltaram até hoje a Angola por falta meios de subsistência.

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