Reportagem

Entre estradas à espera de melhorias e a agricultura a dar sinais de vida

Garrido Fragoso

Viajar hoje de Malanje para Luanda por estrada já não constitui grandes constrangimentos para o cidadão. Pelo menos os 180 quilómetros de estrada que ligam a província da Palanca Negra ao município do Lucala (Cuanza- Norte) encontram-se em perfeitas condições.

Fotografia: Santos Pedro | Edições Novembro

Reabilitada há um ano, a estrada está bem sinalizada, sem buracos e com uma largura que permite o cruzamento adequado entre veículos. Os automobilistas gastam não mais de duas horas para vencer o percurso entre as duas cidades, à velocidade permitida. Antes da reabilitação, dependentemente das condições do veículo, o troço era percorrido em mais de quatro horas.

A única precaução que os automobilistas devem ter sempre presente ao longo do trajecto é com animais (sobretudo cabritos), que estão permanentemente a atravessar a estrada, na aproximação de povoações.

Troço péssimo
No regresso a Luanda, para quem vem de Malanje, os únicos embaraços são observados nos mais de cem quilómetros de estrada que ligam Cuanza-Norte à vila de Ca tete, a pouco mais de 50 quilómetros da cidade de Lu- anda. A via Ndalatando-Luanda encontra-se bastante esburacada. Notam-se na maior parte do trajecto buracos profundos.
“Com um pouco de paciência e esforço das autoridades do Cuanza-Norte, os mesmos (buracos) já estariam superados”, defenderam alguns automobilistas e populares, contactados pela nossa reportagem.
João Serafim, motorista de um camião acoplado de duas cisternas de combustível (gasóleo e gasolina), disse que faz o referido troço duas vezes por semana, para transportar o produto de Luanda para Malanje. Quando viaja para as províncias do Leste (Moxico, Lunda-Norte), faz o percurso apenas uma vez a cada quinze dias, atendendo ao mau estado das vias Luanda - Cuanza-Norte-Malanje para as regiões do Leste.
O motociclista Teixeira Kandimba foi mais longe nas suas declarações. “Afinal de contas, o que faz o Fundo Rodoviário criado pelo Executivo, concebido para proceder regularmente à manutenção das estradas?
Um outro automobilista que preferiu o anonimato considera que “os buracos que se observam na via Luanda-Cuanza-Norte podem ter soluções imediatas e com trabalhos mínimos, caso as autoridades de direito se interessem em resolver o problema”.
O automobilista sublinhou que a falta de qualidade das estradas construídas na região também o preocupam. Apontou o exemplo da via que liga Malanje ao Cuanza-Norte.
“Apesar desta estrada apresentar-se aparentemente em boas condições, a sua qualidade deixa muito a desejar. Foi reabilitada há um ano, mas nas próximas enxurradas estará, certamente, esburacada, porque a espessura não corresponde ao peso dos camiões carregados de mercadorias que nela circulam diariamente”, referiu.

Agricultura familiar em alta e a bom preço

A agricultura familiar na região tem este ano resultados bastante fabulosos. O facto pode ser facilmente constatado nas muitas pracinhas instaladas ao longo do percurso Malanje-Ndalatando (sede capital do Cuanza-Norte), sobretudo, entre as localidades de Matete e Cacuso.
Produtos agrícolas como batata-doce, ginguba, milho fresco, cana, batata rena, fuba de bombó, banana e outros são colocados, logo pela manhã, nas pequenas praças e ao longo da estrada ou em camiões que os transportam para comercialização nos grandes mercados informais de Luanda, sobretudo do 30, kwanzas e Catinton.
“Mesmo sem apoio em fertilizantes, sementes, charruas e outros, conseguimos produzir este ano muita batata-doce, milho, ginguba, banana e hortaliça”, disse Alfredo Domingos, camponês da pequena localidade de Matete, que dista menos de 50 quilómetros da sede-capital de Malanje.
Empunhando uma catana já sem cabo e uma enxada carcomida do lado esquerdo, de tanto usada para escavar a terra, Alfredo Domingos pede apenas, do Governo liderado por Kwata Kanawa, a viabilização na aquisição de charruas, animais de tracção, sementes, adubos e demais meios agrícolas.
“Com esse material garantido, vamos poder aumentar e diversificar ainda mais a produção", referiu o agricultor, de estatura média, que defendeu também a reabilitação imediata das estradas inter-comunais e municipais, para a evacuação dos produtos do campo para os centros urbanos.
“Tudo o que produzimos é do nosso esforço e às vezes a produção apodrece no campo, por falta de escoamento devido o mau estado das estradas”, queixou-se o agricultor. Acrescentou que os apoios que às vezes chegam servem apenas os grandes fazendeiros.
Florinda da Cruz, outra agricultora, residente na localidade de Lombe, também se queixou da falta de apoios para a promoção da agricultura na região. Dona de mais de 100 hectares de terra, a agricultora disse que, “mesmo sem apoios, continuamos a produzir até ao limite das nossas forças, para colocar os produtos à mesa e na estrada, para abastecer os grandes mercados de Luanda”, disse.

Bons preços

Enquanto nas ruas e mercados de Luanda seis bananas de mesa são comercializadas por 200 Kwanzas, no percurso Malanje-Cuanza-Norte, o cacho grande é vendido por 800 a 1000 Kwanzas. O balde médio de batata-doce por 500 Kwanzas, quando na capital um monte com sete a oito batatas custa o mesmo preço. A venda frequente de animais selvagens ao longo da estrada, sobretudo entre Lucala e Maria Teresa, no Cuanza-Norte, e de carne nas barracas concebidas para confeccionar pratos de comida, sobretudo para os camionistas e turistas que transitam ao longo da via, pode colocar espécies animais em extinção. Falamos de javalis, cabras do mato, perdizes, pacas e outros.
Por exemplo, um prato bem servido de carne de javali com funje de bombó ou milho, acompanhado de algumas verduras e feijão, é vendido a mil Kwanzas. A cerveja local (Eka) custa apenas 125 Kwanzas e a gasosa não foge os 200 Kwanzas. Mas alguns automobilistas, saturados dessas bebidas, enveredam normalmente para o maruvo (bebida extraída da seiva da palmeira). O litro e meio custa 500 Kwanzas.
A venda de sacos de carvão é mais notável ao longo do percurso Malanje-Lucala. A comercialização é tão evidente e regular, que resulta em ravinas e zonas sem cobertura florestal, o que já coloca em risco o equilíbrio ambiental na região.

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