Reportagem

Entreposto entra nas contas da diversificação

Leonel Kassana |

O programa de fomento da produção agrícola que está a ser desenvolvido em todo o território nacional para aumentar a oferta de bens alimentares para a população ganha um aliado de “peso”: O Entreposto Aduaneiro de Angola.

Gestores do Entreposto Aduaneiro assumem ambição de ser um parceiro de peso no fomento da produção agrícola
Fotografia: Kindala Manuel

Empresa pública do sector de abastecimento alimentar, criada há sensivelmente 15 anos, o EAA está pronto para contribuir de forma activa para o aumento da oferta de produtos agrícolas através da uma aposta no estabelecimento parcerias sólidas com várias outras estruturas logísticas que operam no mercado.
Pela vocação natural, e num cenário de forte dependência de importações, o EAA tem uma palavra a dizer na estabilidade dos preços, em particular dos bens da cesta básica. Ele actua como um agente da actividade comercial grossista de modo a prevenir situações de rupturas no mercado.
Mas num quadro como o actual, com limitações na actividade de importação devido a escassez de divisas, a empresa aposta agora numa nova abordagem do seu “core”, expandindo em termos territoriais e redireccionando o seu foco no fomento da produção local.
O presidente do Conselho da Administração do EAA, Jofre Van - Dúnem, garante estar em condições de criar delegações locais ali onde se fizer sentir a necessidade de uma estrutura de apoio à distribuição de bens, principalmente os da cesta básica. “Lá onde for necessário vamos criar delegações para aproximar-nos cada vez mais dos nossos objectivos que passam por assegurar a necessária estabilidade no fornecimento de bens de primeira necessidade às populações”.
Para já, a partir de 2017 começam a serem montadas novas filiais do EAA nas províncias de Malanje, Uíge e Cunene num  investimento de 1.692 milhões de kwanzas.
Jofre Van- Dúnem não tem dúvidas sobre os enormes desafios que a empresa terá que enfrentar nesse novo segmento de negócio, tendo em atenção as “enormes dificuldades de escoamento de produtos do campo” em praticamente todo o território nacional. O responsável do EAA refere-se às vias de comunicação, aos custos com os combustíveis, juntando-se a isso a inexistência de infra-estruturas intermédias desde os pólos de produção aos pontos de venda final ao consumidor.
É do conjunto de constatações na rede comercial que a EAA decidiu enveredar por uma transformação do seu segmento de maneira a tornar-se num agente ainda mais activo no incentivo à produção nacional, promovendo um maior envolvimento com produtores de várias dimensões no território nacional.
Segundo Jofre Van-Dúnem, a estratégia passa pela criação de parcerias com agentes locais, desde os que necessitam de insumos para a produção e outros dos meios para o escoamento, surgindo nesta cadeia o EAA como uma espécie de âncora.

Aposta no milho

O redefinir a sua actuação no mercado, a gestão do Entreposto Aduaneiro de Angola considera fundamental eleger produtos específicos com os quais seja possível mais facilmente estruturar um circuito comercial, desde a fase de produção. E no sector agrícola, mais concretamente, a escolha recaiu para o milho, pelas suas mais variadas particularidades e pela importância múltipla na produção alimentar.
A entrada da EAA no sector agrícola tem em vista criar um ambiente de negócios que permite proporcionar aos pequenos e grandes produtores de milho, condições para escoar sem grandes constrangimentos a sua produção desde os campos. E em relação ao milho, é esperado um efeito multiplicador bem mais acentuado devido às múltiplas utilidades do milho.
Desde a produção de farinha à produção de ração animal, a aposta no milho promete uma entrada bem mais impactante do que noutro produto. O Entreposto surge como uma espécie de garantia de mercado deste produto, e de qualquer outro, desde o produtor até ao consumidor final.
É pois esse o principal desafio a que se propõe a gestão do Entreposto Aduaneiro de Angola, que espera até 2022 consolidar a rede nacional e estar em plenas condições de contribuir para uma maior oferta de bens com níveis de qualidade comparáveis aos existentes nos grandes mercados internacionais.

Gestão integrada

Para tornar ainda mais exequível a nova estratégia, o EAA propôs-se implementar um modelo de gestão integrada que possa identificar parceiros para uma actuação conjunta que viabilize a saída fácil dos produtos dos campos agrícolas. O modelo de gestão integrado escolhido propõe-se alcançar toda a cadeia de aprovisionamento, desde a produção até ao escoamento. Mais do que estabelecer parcerias, os responsáveis do EAA consideram fundamental para o êxito do projecto a aquisição de vários hectares de terrenos na província da Huíla e outras concessões já solicitadas ao Ministério da Agricultura.
O responsável pela área de planeamento estratégico e projectos do Entreposto Aduaneiro de Angola, Castrício Castro explica que ao partir para investimentos na compra de vastos terrenos em diferentes regiões do país, a empresa alarga o seu leque de opções, que pode levar, no futuro, à produção própria de milho, soja, arroz, assim como uma maior integração nesta cadeia de agricultores de pequeno e médio porte, bem como de camponeses.
“Gostaríamos e temos essa preferência em trabalhar na implementação dos programas dirigidos que foram orientados pelo Executivo para aumentar a produção de bens alimentares, obviamente em parceria com outros agentes económicos que tenham ambição de tirar os produtos do campo”, adiantam os responsáveis do Entreposto Aduaneiro de Angola.
Nesta altura, diferentes equipas do EAA já têm concluído o trabalho de prospecção em várias províncias de reconhecido potencial agrícola, o que permite avançar para a implementação deste projecto a partir de bases consideradas sólidas para alcançar toda a cadeia produtiva.
O contributo incisivo do Entreposto Aduaneiro de Angola para segurança alimentar foi estudado e analisado ao detalhe. No topo da cadeia desse processo haverá agentes financiadores desde a  a aquisição de insumos para a produção agrícola até à indústria transformadora. E isso antes da entrada para os canais de distribuição aos consumidores das diferentes regiões do país.
Mas como é que a entrada do EAA no segmento agrícola vai processar-se. Segundo apurámos haverá um contrato garantido com fornecedores locais ou no exterior para a compra de insumos, nomeadamente sementes melhoradas, fertilizantes, adubos, tractores, charruas, enxadas, catanas, machados e outros instrumentos de trabalho. Contratos garantidos referem-se ainda a entrega do milho e utilização adequada dos insumos pelos produtores integrados, compra e remuneração por quilograma de milho, assim como fornecimento de insumos e assistência técnica.
A abundância de dados em posse do Jornal de Angola pressagia já alguma viragem no relacionamento mais recentemente com os produtores de milho. Por exemplo, a entrega de milho às moagens para a sua transformação em fuba e rações para diversos produtores de animais e aves está acautelada no novo modelo desenvolvido pelo EAA, que prevê ainda um contrato e remuneração para armazenagem do milho do EAA como reserva estratégica.
O Entreposto Aduaneiro de Angola surge como a entidade que garante o fornecimento dos insumos aos integrados que devem agir de forma eficiente em toda a cadeia produtiva. “O EAA quer controlar a eficiência dos integrados nesta cadeia para, depois, garantir a entrega dos produtos como a fuba de milho e rações”, dizem os responsáveis da empresa.

Novas embalagens

 A entrada desta empresa no segmento de escoamento da produção agrícola desde as áreas produtivas até aos centros de consumo trouxe novos desafios para os seus gestores. Assim, a  EAA aposta na montagem de uma linha para a produção de embalagens de menor dimensão, uma estratégia que pretende, no essencial, oferecer ao mercado opções mais diferenciadas. Trata-se de um projecto desenhado para ser desenvolvido a curto prazo e que está orçado em 224 milhões de kwanzas, com o financiamento de uma instituição bancária, como apurámos.
Nesta altura as negociações com o banco para a aquisição de equipamentos técnicos a partir do mercado europeu para a montagem da linha de embalagens estão fechadas estando-se já na fase das respectivas encomendas, demonstrativo do empenho desta empresa no alinhamento com estratégia do Executivo para a disponibilização de bens de primeira necessidade à população.
Produtos como o arroz, feijão e açúcar adquiridos em sacos de maiores dimensões e identificadas com a própria marca EAA ou do cliente poderão ser, assim, embalados em sacos de um, dois e cinco quilogramas com benefícios substanciais para o consumido final.
Com a linha de dimensões menores, também aos produtos provenientes do campo passarão a serem embaladas seguindo os mais elevados padrões de higiene para entrar no mercado. “Para nós, diz um responsável da empresa, é fulcral apresentar novas condições ao mercado, ou seja o alvo seriam os retalhista ou cash Carry e com benefícios indirectos para o consumidor final”.
Na esteira da diversificação dos seus negócios, a EAA tem também em marcha um programa para ampliação da sua rede própria de frio com total de 1300 metros cúbicos para produtos congelados e frescos, abrindo espaço a novas. O investimento previsto para essa área é de 251 milhões de kwanzas. Aqui, agentes económicos devidamente identificados e dotados de todas as condições higiénico - sanitárias surgem como opção para novas parcerias do Entreposto Aduaneiro de Angola. “Essa é também uma condição para não sermos só nós a operarmos essa rede, mas com apoio de parceiros que estão mais directamente ligados ao sector em Luanda e outras regiões do país”, sublinham os responsáveis do EAA.
 
Cesta básica garantida

Nos últimos cinco anos, com o desenvolvimento de novos players e na lógica do crescimento e da liberalização e livre concorrência, o papel do EAA foi naturalmente substituído pela iniciativa de operadores privados de médio e grandes porte que em condições de estabilidade económica convergiriam para o estabelecimento do equilíbrio do mercado.
Mas com a crise económica e financeira por que passa o país a partir de 2015, como resultado da queda vertiginosa do preço do petróleo no mercado internacional, o Executivo repensou o papel do EAA, com forte contributo das propostas feitas por esta empresa como forma de viabilizar a oferta de bens de consumo à população. O alcance desta meta pressupõe a aplicação de condições financeiras, com o apoio da banca conduzindo também à estabilização dos preços.
Em Setembro, o EAA que, além de Luanda, possui representações nas cidades do Lubango, Lobito, Namibe e Huambo, iniciou a implementação de um programa semestral de importação de bens alimentares essenciais, como a farinha de trigo, açúcar, arroz, feijão, fuba de milho e outros que formam a cesta básica.
O impacto dessa medida aprovada pelo Executiva já é notório com uma baixa significativa dos preços dos produtos da cesta básica, e que estão a chegar com regular aos diversos portos do país desde o mês de Outubro, fruto da prioridade que a banca tem vindo a dar às empresas ligadas à importação de bens de primeira necessidade, paralelamente aos incentivos à produção nacional.
O preço do pão, por exemplo, está bem próximo de estabilizar-se como efeito imediato da baixa do custo da farinha de trigo que semanalmente chega aos portos. O EAA adoptou um conjunto de medidas para abastecer os industriais da panificação espalhados pelas diferentes regiões do país.  Aos industriais de panificação a pastelaria, a empresa está a entregar a crédito a farinha de trigo, com o saco de 50 quilogramas a sair por 8 mil kwanzas por um período de 15 dias e 9 mil durante um mês. A pronto pagamento, a farinha é adquirida a 7 mil kwanzas a unidade.
O preço da farinha de trigo está uniformizado a nível nacional, o que é garantia bastante para travar a especulação do pão.
Num cenário em que o Executivo enverede pela criação de uma Reserva Alimentar Estratégica, segundo apurou o Jornal de Angola, o EAA tem condições para assumir a sua gestão apoiando o Ministério do Comércio para a salvaguarda dos níveis de segurança dos produtos básicos. Na mesma senda, esta entidade pretende aproveitar de forma optimizada as suas infra-estruturas de armazenagem e equipamentos, o seu capital humano, vasto “know how” na gestão e operacionalização do negócio, conhecimento do mercado de prospecção, aquisição e distribuição dos bens alimentares.
Com 350 funcionários e uma estrutura preparada para uma rotatividade anual de 55 mil toneladas de produtos secos e outros que fazem parte da cesta básica, como açúcar, arroz, óleo, farinha de milho e trigo, o EAA, embora tenha um pendor mais virado para a importação, aposta igualmente na vertente logística. Para tanto, e aproveitando todo o seu “know how” privilegia o transporte, aluguer de seus modernos equipamentos como gruas e naves para armazenamento de produtos.

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