Reportagem

Envio de cartas cada vez menos solicitado pelos utentes

Edivaldo Cristóvão

Escrever uma carta e enviá-la através dos serviços de correios, nos dias de hoje, é uma prática pouco utilizada pelos cidadãos devido a “invasão” das tecnologias de informação e comunicação  e o desenvovimento da Internet, na qual as pessoas passaram a recorrer ao e-mail, WhatsApp, Facebook ou  outras plataformas digitais.

Os Correios de Angola receberam e enviaram 379.025 cartas
Fotografia: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Teresa Bernardo, 55 anos, revelou ao Jornal de Angola que teve de se adaptar à era digital para não ficar ultrapassada, nem perdida no tempo, quando pretende estabelecer comunicação com familiares e amigos residentes dentro e fora do país.
 “Lembro que na década de 90, a única forma que tinha para comunicar com a família que estava no estrangeiro, era através de cartas ou telefone fixo, hoje fica mais fácil e rápido enviar uma mensagem por telemóvel e com a possibilidade de ser respondida na hora”.
Entre as vantagens apontadas pelo não uso da carta tradicional que antes era enviada através de correios, em comparação ao mundo digital, a confidencialidade é um dos factores apontados pelos interlocutores contactados pela nossa reportagem.
Além de realçarem que o envio de uma mensagem através de dispositivos electrónicos é sigiloso, “ninguém tem acesso à informação e não corro risco de alguém ler a mensagem, por um eventual extravio da carta ou devido à demora”, disse Teresa Bernardo.
O director comercial da Empresa Nacional de Correios e Telégrafos de Angola, Francisco Van-Dúnem, disse que, nos últimos seis meses, registou a recepção e envio de 379.025 cartas dentro do território nacional e 871.494 de carácter internacional.
As encomendas postais para o interior do país foram de 2.713 e movimentações internacionais de 12.285, uma tarefa executada por 895 trabalhadores em todo o país, a nível de 66 estações espalhadas pelas principais centralidades.
Os Correios de Angola projectam a construção de uma estação em cada município e o investimento em novas tecnologias de modo a  estar mais próximo do consumidor, introduzir serviços que respondam à realidade social, tornar o serviço de carga e logística como grande área de negócio.
Consciente da concorrência imposta pela era digital, Francisco Van-Dúnem disse que os Correios de Angola têm procurado aliar os serviços tradicionais às novas tecnologias, fazendo o comércio electrónico.
Apesar do desenvolvimento da era digital, os Correios de Angola são solicitados por empresas  e pessoas singulares na faixa etária dos 25 anos em diante.
“Temos clientes potenciais e com contratos, neste momento trabalhamos com 31 empresas que celebraram contratos de prestação de serviços com a ENCTA”, disse o director comercial.
Os serviços de correios são cobrados por peso da carga e pela região para que se envia a correspondência, havendo disponíveis vários serviços como Post Express, Express Doméstico e Internacional.

Para melhor prestação de serviços, os Correios de Angola utilizam meios de transporte aéreos e terrestres, sendo alguns de operadoras do ramo, além de ter cinco camiões de carga disponíveis.

As estações da Maianga, Avenida Lénine e Alvalade (Luanda) já estão a implementar o serviço de Internet (e-mail) e espera-se que a adesão da população seja maior nos próximos tempos, numa altura em que se trabalha  na conclusão do processo de modernização.

Instituição centenária
Os Correios de Angola são uma instituição centenária, com um longo historial e presença marcante junto das populações e instituições, que têm servido para o transporte e troca de mercadorias e informações.
Com a separação das actividades de correios e de telecomunicações, foi criada, em 1980, a Empresa Nacional de Correios e Telégrafos de Angola- EP, sob tutela do Ministério das Telecomunicações e Tecnologias de Informação.
Foi traçada uma nova missão para os Correios de Angola, assente na modernização e mudança organizacional, visando a melhoria de fiabilidade, segurança e rapidez dos seus serviços.

Dia Mundial dos Correios
Comemorou-se a 9 de Outubro o Dia Mundial dos Correios, data em que foi fundada a União Postal Universal (UPU), entidade que congrega correios de 191 países, e da assinatura do Tratado de Berna, em 1874.
Criada em Berna, Suíça, a UPU tem como missão integrar mundialmente os serviços postais e facilitar a comunicação entre os países associados, sem interferir nas políticas de cada Estado-membro.
A data é actualmente comemorada por vários países do mundo, porque os correios continuam a ter um papel muito importante na história das comunicações.
Os pioneiros da comunicação postal foram os chineses, mas os primeiros despachos, por via aérea, talvez tenham sido feitos pelos cretenses e fenícios, usando pombos e andorinhas.
O receio de que a correspondência fosse violada levou as pessoas a procurarem métodos secretos de comunicação.
Conta-se que, na Pérsia, um senhor rapou o cabelo do seu escravo, escreveu a mensagem sobre o couro cabeludo, esperou que o cabelo crescesse e despachou-o para o destinatário. Este só precisou de uma tesoura para ter acesso ao texto secreto.
Antigamente não era fácil ser “carteiro”, porque mesmo as maiores distâncias eram percorridas a pé e havia muitos assaltantes. Por isso, só as pessoas importantes, como os reis, tinham mensageiros ao seu serviço.

Inovação no sector postal

O secretário-geral da União Postal Panafricana (UPAP), Younouss Djibrine, alertou os países do continente para a necessidade de inovarem com urgência o sector postal, para que não desapareça, em função do poderio alcançado pelas novas tecnologias.
Numa mensagem a propósito do Dia Panafricano dos  Correios, que se assinala hoje, 19 de Janeiro, Younouss Djibrine referiu que em 2020 a organização vai celebrar 40 anos de existência, e nessa altura serão definidos novos títulos, cujo objectivo final será o desenvolvimento integral nos respectivos países, numa África emergente colectiva e inclusiva.
No quadro da transformação dos serviços postais através da digitalização, o secretário defende maior proximidade aos actores do sector para estar ao lado dos operadores, por forma a investir em massa nas novas iniciativas.
Younouss Djibrine referiu que as Tecnologias de Informação e Comunicação são uma oportunidade real para o desenvolvimento do sector postal no continente africano. “Devemos tirar o máximo proveito disso, porque as TICs são o novo nome do desenvolvimento”, disse.
O tema do Dia Panafricano dos Correios para este ano é “Juntos, diversifiquemos a nossa oferta através da digitalização”.
No entender do  secretário-geral da União Postal Panafricana, o desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação veio perturbar os hábitos e comportamentos em todos os níveis, no qual o sector postal, o vector histórico de comunicação e intercâmbio entre os povos, não foi poupado.
Em África, vários serviços postais multiplicaram iniciativas inovadoras, uns com o objectivo de alinhar a transformação digital desse sector, cujo papel motor em matéria de desenvolvimento socioeconómico não precisa mais demonstrar.
Graças às TIC's, os Correios estão a conseguir a sua transformação, repensando os processos operacionais e comerciais, fornecendo meios simplificados e eficientes para a prestação de serviços eficazes e eficientes, disse o dirigente africano.
A transformação total dos Correios requer uma oferta de produtos inovadores e diversificados, serviços de boa qualidade, preços atraentes e acessíveis a todos e em todos lugares, nomeadamente, às populações rurais que muitas vezes têm pouco ou nenhum acesso a serviços sociais essenciais.
Com isso, disse Younouss Djibrine, a diversificação de produtos através da digitalização  passa pela existência de uma infra-estrutura digital estável, disponível e eficiente e com  recursos humanos bem formados, competentes e profundamente motivados.

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