Reportagem

Escassez de água ameaça o Planeta

Osvaldo Gonçalves |

Há muito ouvimos dizer que, depois do petróleo, as guerras no mundo seriam por causa da água. Embora nos impressionasse a severidade dos desertos e nos preocupasse o avanço destes em várias regiões do Mundo, tocou-nos bem fundo o alerta do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para o facto de cerca de 600 milhões de cianças, em todo o Mundo, viverem em zonas afectadas pela falta de água em 2040.

De acordo com a UNICEF dezenas de países já vivem com níveis extremamente altos de stress hídrico e as regiões mais pobres serão as mais afectadas
Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

De acordo com a UNICEF, 36 países já vivem com níveis “extremamente altos” de “stress hídrico”, ou seja, com recursos muito limitados de água potável. As regiões mais pobres serão as mais afectadas. Estão na base dessas horríveis previsões, as “temperaturas mais elevadas, o aumento do nível do mar, o aumento de inundações, as secas e o derretimento do gelo”.
A crisce “crescerá” se não se agir de imediato, afirmou Anthony Lake, director executivo da organização. As medidas imediatas devem ter como objectivo travar as alterações climáticas que pioram a situação.
Quase 663 milhões de pessoas vivem já sem acesso a toda a água de que precisam, sujeitas a doenças como a cólera. As crianças nas regiões afectadas pela seca passam mais de 200 milhões de horas por dia, no total, a acarretar água, em vez de estarem na escola. Meninas e mulheres são sujeitas a ataques durante esses percursos.
Estima-se que mais de 270 milhões de crianças vivam em zonas de cheias recorrentes, enquanto 60 milhões estão em zonas de seca.
A UNICEF exige aos governos que consigam fazer chegar água potável às crianças que mais dela precisam e tomem em consideração os riscos climáticos nas medidas sobre água e saneamento, investindo nas pessoas mais vulneráveis.
Outro alerta sério chegou de São Francisco, Califórnia (EUA). Especialistas referiram que o uso crescente de água doce na agricultura, na indústria e para o consumo humano pode esgotar os recursos hídricos subterrâneos em várias partes do mundo nas próximas décadas.
Índia, Argentina, Austrália, Califórnia e sul da Europa são algumas das zonas de risco apontadas durante a conferência anual da União Geofísica Americana.
“Embora muitos aquíferos permaneçam produtivos, a água subterrânea economicamente explorável já é ou se tornará inacessível num futuro próximo, especialmente em áreas irrigadas intensivamente nas regiões mais secas do mundo”, disse o pesquisador Inge de Graaf.
Nos próximos 34 anos,  1,8 mil milhões de pessoas em todo o mundo podem viver em áreas com os níveis de água subterrânea totalmente ou quase esgotados, devido ao bombeamento excessivo de aquíferos para consumo humano e para as culturas agrícolas, refere o estudo.
“Não sabemos quanta água há, quão rápidos estão esgotando os aquíferos, ou por quanto tempo poderemos usar esse recurso antes que ocorram efeitos devastadores, como a secagem de poços ou rios”, disse De Graaf.

 Medidas urgentes

Mais de 1,8 mil milhões de pessoas no mundo ainda são servidas por fontes de água contaminada, estando, por isso, expostas ao risco de contracção de doenças como a cólera, a febre tifóide e a poliomielite. A água imprópria e as deficientes condições de saneamento e higiene são a causa de 842 mil mortes por dia no Mundo. O problema afecta mais de 10 por cento da população mundial, que causa a morte a 4.500 crianças por dia. África é o continente mais afectado.
O Conselho Mundial da Água (WWC, sigla em inglês) alerta aos governos que “o custo total da insegurança da água para a economia global é avaliado em 500 mil milhões de dólares.”
Um dos objectivos da ONU é que todas as pessoas tenham acesso à água potável e saneamento até 2030. Nas contas do WWC, é necessário um investimento anual de cerca de 650 mil milhões de dólares, até 2030, para garantir a concretização das infra-estruturas necessárias para alcançar os níveis de segurança universal da água.
Assim, a WWC “encoraja os governos e os cidadãos a aumentar a segurança hídrica nos seus países, assim como prestar auxílio às nações com maiores dificuldades, nomeadamente na África Subsaariana e Ásia.”
 
Planos do Governo

Em Angola, o Censo Geral da População e Habitação, realizado em 2014, apurou que mais de metade dos cerca de 5,5 milhões de agregados familiares do país não tem acesso à água “apropriada” para beber.  O levantamento define como água “apropriada para beber” a proveniente de fontes como torneiras ligadas à rede pública, chafarizes públicos, furos com bomba ou nascentes protegidas, incluindo-se neste grupo 43,6% dos agregados familiares.
Regista-se grande disparidade entre o meio urbano, com 57,2% (1,9 milhões de famílias), e o rural, com 22,4% (484 mil famílias) que conseguem consumir água tida como segura. Ainda assim, a água da rede pública com torneira em casa apenas serve 17% dos 5.544.834 agregados familiares (num total de população superior a 25,7 milhões de habitantes, em Maio de 2014).
O Governo angolano tem adoptado um conjunto de medidas para promover a melhoria do acesso à água e a sua gestão adequada. O Ministério da Energia e Águas considera que essa transformação vem sendo conseguida mediante a execução do programa de Governo para o sector das Águas, que visa servir de forma regular e contínua a maior percentagem de população possível, com a progressiva elevação da qualidade do serviço, a um preço comportável e no âmbito de uma perspectiva ambientalmente sustentável.
O ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, disse que o seu pelouro leva a cabo, em simultâneo, três programas, sendo um para as capitais provinciais, avaliados em USD 4 mil milhões, denominado “Avultado”, o segundo, destinado ao fornecimento de água a 132 sedes municipais, e o terceiro – Água para Todos – dirigido essencialmente ao fornecimento do líquido às comunidades rurais.
O programa “Água para Todos” prevê beneficiar, até ao fim deste ano, cerca de 85 por cento da população rural com água potável.
O Plano Nacional da Água visa dar maior aproveitamento ao potencial hídrico do país, que tem 47 bacias hidrográficas principais, distribuídas por cinco vertentes (vertente atlântica, cujos rios desaguam no Oceano Atlântico a 41 por cento, vertente do Zaire, com 21, vertente do Cubango, com 3,8 e outros).
Com um escoamento superficial anual de cerca de 140 quilómetro cúbicos, Angola explora apenas cinco por cento de todo o potencial hídrico que possui, como referiu o ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges. O plano prevê investimentos públicos na ordem dos 110 mil milhões de dólares no sector até 2040. Vários dos projectos já estão em curso, como a construção e o reforço de potência nas barragens do rio Kwanza (Laúca e Cambambe).
 
Desperdício de água

Apesar das dificuldades que vive para a obtenção e armazenagem da água, a população angolana residente nos centros urbanos mostra-se ainda um tanto avessa a acatar os conselhos no sentido da preservação do líquido, assim como se registam graves anomalias nas redes de distribuição, que levam ao desperdício de enormes quantidades de água.
João Baptista Borges considera a racionalização do consumo de água potável de extrema importância. Uma das medidas para conter o volume de perdas da Empresa de Águas de Luanda, que anda à volta dos 44 por cento em Luanda, é a instalação de 850 mil contadores pré-pagos na capital do país até 2020.
“Mesmo que tenhamos um dia estes projectos construídos, temos de conseguir cada vez mais, por via da gestão da demanda da procura de água, fazer com que os clientes racionalizem o consumo de água e isso é obtido com a instalação dos contadores, com uma facturação regular e também com a introdução de preços que reflictam com os custos com o abastecimento de água”, frisou.

 Poupar é preciso

O director nacional do sector, Lucrécio Costa, disse em Março à Angop que 60 por cento da água fornecida voltam ao meio hídrico na condição de água residual e defendeu que as pessoas devem ser educadas para o consumo regrado desde as primeiras idades.
Embora o país não esteja na chamada “linha de risco”, num mundo em que a escassez de água pode ser a principal fonte de conflitos nas próximas décadas, o consumo racional deve ser uma cultura.
Muita água é desperdiçada de forma leviana e até mesmo criminosa.  Um dos problemas que afectam o sector das Águas em Angola é o garimpo. Não há números exactos, mas as perdas são enormes. Para desincentivar  esta prática, o director nacional de Águas, Lucrécio Costa, defendeu a alteração do regulamento de abastecimento de água por camiões cisternas.
“Temos de ter em conta que estes serviços têm uma componente pública. A água é levada a determinados pontos onde a rede convencional não chega. Estes serviços têm de ser integrados como complemento  aos que já existem, desde que  os pontos de enchimento sejam os que legalmente foram estabelecidos. Quando assim não ocorre,  significa que há prevaricação e aí tem de haver  a actuação dos órgãos policiais e de Justiça”, disse a propósito.
Lucrécio Costa lembrou, então, que a destruição de uma conduta, como tem sido recorrente, é um crime público e a população é chamada a colaborar, denunciando tais práticas. A  UNICEF aconselha as pessoas que vivem em zonas com pouca água disponível a procurarem várias fontes de obter água e a armazenarem em segurança a que conseguem.

 

 

 

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