Reportagem

Escassez de materiais de construção

Venâncio Victor

A província de Malanje regista, nos últimos dias, uma escassez dos principais materiais de construção, facto que tem preocupado os empreiteiros e demais cidadãos que querem ver realizado o sonho da casa própria.

João Domingos António lamentou a subida dos preços
Fotografia: Eduardo Cunha | Edições Novembro

Os principais estabelecimentos de materiais de construção na cidade de Malanje, como constatou a reportagem do Jornal de Angola  vão encerrar as portas a qualquer momento, porque como dizem “ninguém do Governo Provincial de Malanje dá uma explicação, do que se está a passar de concreto.”
O munícipe João Manuel, vende cimento há dois anos no bairro da Cangambo, disse que a dada altura o saco de cimento, em Malanje, chegou a ser vendido ao preço de três mil e agora está a ser comercializado a um valor acima deste preço, o que é uma especulação.
Com a subida dos preços, o número de clientes baixou consideravelmente, pois antes  vendia-se a 250 sacos de cimento por dia, hoje a cifra tem sido 50.
João Manuel, António Domingos, outro revendedor de cimento, disse que a situação está grave e apela ao Governo para instruir as fábricas para reforçarem a produção.
“Queremos que, relativamente ao cimento, o Executivo faça descer o preçário, porque existem obras em construção e não temos como dar acabamento em função da indisponibilidade financeira”, afirmou. As obras de várias residências, disse, estão paralisadas há dois anos, devido ao elevado preço do cimento. Caso o preço do cimento reduza, as pessoas vão conseguir materializar o sonho da casa própria.
A chapa de zinco de três metros, que era adquirida a 700 kwanzas, contra os actuais 1.700 está, também, a atrapalhar a construção de casas próprias em vários municípios da província de Malanje. Já as vermelhas, com seis metros, subiram de dois mil kwanzas  para  5.500,  o que não se compreende.
Há uma necessidade da fiscalização fazer bem o seu trabalho e penalizar os que sobem os preços dos materiais de construção de qualquer forma, como tem acontecido na província de Malanje e noutras localidades, disse António Domingos.
Ele tem esperança, confia no Executivo e no Governo Provincial de Malanje, assim como acredita que a situação vai voltar ao normal nos próximos anos. “O que me entristeceu foi ter lido e ouvir do que a Fábrica de Cimento do Kwanza Sul encerrou e deixa desempregados mais de mil trabalhadores”, disse com uma certa tristeza, António Domingos.
O projectista Mário Moisés afirmou que os preços dos materiais continuam estáveis, mas o grande problema reside na procura que se faz sentir devido à falta de alguns, principalmente os de automatização de portões.
Está a ser mais fácil encontrar materiais como cimento, tintas, chapas de zinco, ferros, cantoneiras e estruturas para pilares. Devido à gritante falta destes materiais, tem-se registado uma ligeira discrepância na tabela de preços praticados nos estabelecimentos comerciais.
Mário Moisés relacionou a escassez dos materiais à inexistência de indústrias nacionais vocacionadas à produção dos mesmos.
No seu entender, as dificuldades nas relações cambiais têm contribuído também para as oscilações de preços. Esta situação, frisou, só pode ser minimizada caso estejam estabilizadas as políticas de importação e exportação.
“Não obstante os preços, há materiais que registam uma grande procura no mercado local, por exemplo os materiais para automatização de portões verticais, de Malanje não existem em nenhuma loja. Os preços mantêm-se estáveis, porque a taxa cambial, nos últimos seis a oito meses, quase se estabilizou comparativamente aos últimos dois anos”, acrescentou.
Mário Moisés disse que, enquanto os preços dos principais materiais de construção registarem uma tendência de subida, a procura vai ser também cada vez maior.
O projectista lamentou também o facto de haver vendedores oportunistas, que se limitam a comercializar apenas aquilo que é mais absorvido nas suas lojas. Por isso, defendeu a necessidade de mais fornecedores de equipamentos de construção civil. Aos empresários, apelou, para terem mais coragem e para investirem neste sector, sobretudo os armadores e latifundiários.

Subida devido a crise

O agente económico João Domingos António disse que os preços dos materiais de construção registam uma ligeira subida desde que começou a vigorar a crise.
Explicou ainda que, anteriormente, os preços eram acessíveis, porém a caixa de azulejo com sete peças que era vendida a 1.800 kwanzas, agora com a subida dos preços, é vendida a 3.500, já a de mosaico grande, com quatro peças, que antes era 2.500, passou para 4.500. O balde de tinta que era comercializado ao preço de 3.500 registou um aumento para quatro mil kwanzas. Uma folha de chapa de zinco de seis metros que era vendida a 2.800 custa agora 5.500 na sua loja. João António disse que os preços são altos devido aos custos na importação dos meios.

 Lojas estão a encerrar

Os ferros de 40/60 antes custavam 2.200 kwanzas, actualmente orçam 3.500, os de 25/25 eram adquiridos a 900, contra os actuais 1.100.
“A princípio, tínhamos dificuldades na aquisição dos meios, mas agora já nos habituamos  à  situação”, mas ainda assim, existem empresários que tendem a fechar as suas lojas de materiais de construção, disse.
Devido à subida de preço do dólar, muitos empresários estão a abandonar os seus serviços, fechando as lojas devido à falta de clientes. Em média, são atendidas apenas cinco pessoas por dia, número que muitos consideram irrisório, para continuar com o negócio.
Para o agente económico, os clientes dizem que os preços são altos, o que até certo ponto tem criado uma série de dificuldades aos próprios vendedores, mas, não obstante isso, os munícipes procuram acostumar-se à situação, que consideram difícil. João António disse que os meios são adquiridos a partir de Luanda. O mosaico e a chapa de zinco são os mais procurados.
Ao Ministério do Comércio, apelou para que olhe para o problema da subida de preços. António Domingos disse ser importante que o governo provincial preste atenção a este problema, para impulsionar o processo de reconstrução nacional.
O comerciante expatriado  Sidy Mohamed da loja Al-RID, que trabalha em Malanje desde 2008, disse que, desde a subida dos preços dos materiais de construção em 2014, praticamente as coisas não voltaram ao normal, mas houve uma redução comparativamente ao ano passado.

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