Reportagem

Escola politécnica regista escassez de equipamentos

Carlos Paulino | Menongue

Desde a sua criação, em 2009, até a presente data, a Escola Superior Politécnica de Menongue já lançou para o mercado de trabalho 427 licenciados em Biologia, 83 em Enfermagem e 76 em Matemática, muitos dos quais estão a encontrar dificuldades na aplicação prática dos conhecimentos adquiridos.

Há licenciados que não tiveram a oportunidade de trabalhar com um microscópio
Fotografia: Nicolau Vasco | Edições Novembro

O decano do Instituto Superior de Ciências de Saúde do Cuando Cubango, Daniel Pires Capingana, reconheceu que a falta gritante de equipamentos nos laboratórios dificulta a formação integral dos estudantes do curso de Biologia e de Enfermagem que muitas das vezes concluem a sua licenciatura com graves lacunas de conhecimento prático.
Como exemplo prático citou a estudante licenciada recentemente na Escola Superior Politécnica de Menongue, que foi para fazer o mestrado na Inglaterra na especialidade de Saúde Pública, apresentou muitas debilidades e foi obrigada a parar o curso, por não ter bases suficientes em termos de conhecimentos científicos.
Daniel Pires Capingana disse que esta situação grave se deve, também, ao facto de muitos estudantes que ingressam no ensino superior no Cuando Cubango apresentarem ainda debilidades básicas de escrita, de leitura e nas disciplinas de Biologia, Química, Física e Matemática, fundamentais para uma boa formação.
A reportagem do Jornal de Angola apurou que muitos estudantes licenciados, sobretudo os dos cursos de Biologia, terminaram o ensino superior sem qualquer aula prática no laboratório, porque não existem equipamentos e os professores limitaram-se apenas a ditar a matéria e a mandar fazer trabalhos investigativos, uma dura realidade que persiste até hoje.
Há licenciados que nem tiveram a oportunidade de trabalhar com um microscópio para ver na prática uma bactéria ou microrganismo, porque os laboratórios da Escola Superior Politécnica estão despidos de equipamentos e os estudantes terminam o ensino superior com muitas debilidades em termos de conhecimentos científicos.   
Neste momento, a Escola Superior Politécnica de Menongue conta com três laboratórios, nomeadamente de Informática, Biologia e de Enfermagem, este último considerado multidisciplinar porque atende também os estudantes de Biologia na disciplina de anatomia e de fisiologia, mas que carecem de muitos equipamentos.
O actual laboratório de enfermagem funciona apenas com uma maqueta de aparelho digestivo humano, duas balanças de adulto e de criança, um biombo triplo, dois carros curativos, uma cadeira de paciente, uma cama fowler, dois moldes de coração humano normal, dois esqueletos de adulto, um de um feto de 30 semanas e outro de 14/16 semanas, três estetoscópios de pinard e oito clínicos, duas macas para transportar pacientes, uma pélvis feminina e outra masculina.
 
Ensino médio deficiente

A título de exemplo, no presente ano académico, dos 60 estudantes admitidos, 47 frequentaram o ensino médio na província do Cuando Cubango e destes 33 ingressaram no curso de Enfermagem com uma nota de cinco valores e os restantes com seis, o que espelha bem o baixo nível de conhecimentos.
“Há um grande trabalho que deve ser feito a partir do ensino médio para que os estudantes sejam devidamente preparados para a formação superior”, defendeu, acrescentando que uma atenção especial deve ser dada também no apetrechamento dos laboratórios para que os estudantes cheguem ao grau de licenciados muito bem preparados.
O Instituto Superior de Saúde do Cuando Cubango já colocou no mercado de emprego um total de 130 licenciados na especialidade de Enfermagem, cuja maioria trabalha nas unidades sanitárias a nível da província.
Daniel Pires Capingana acrescentou que no presente ano académico estão matriculados 303 estudantes do primeiro ao quinto ano, que são assegurados por 21 professores todos de nacionalidade cubana.
O laboratório necessita urgentemente de manequins simuladores, esqueletos humanos com ligamentos e com músculos superficiais e profundos, mapas anatómicos, aparelhos de aferir a pressão arterial, estetoscópios clínicos, aparelhos portáteis, ciclo ergómetros, microscópios, analisador hematológico, centrifugadora, analisador de iões no soro e na urina, computadores com elementos anexos, projectores, impressoras laser e geleiras para conservação de amostras.
O decano do Instituto de Ciências de Saúde destacou que a falta destes equipamentos impede a abertura de novos cursos na sua instituição, com realce para o de Análises Clínicas e Fisioterapia, sendo que este último seria uma mais-valia para a formação de quadros para dar resposta aos pacientes com deficiência física.

Boleia aos professores   

Outra situação preocupante que a escola superior enfrenta é a falta de viaturas para transportar os professores, sobretudo os expatriados, que dependem da boleia dos estudantes para irem ao hospital ou fazer compras nos supermercados e nos mercados paralelos.
Esta situação tem contribuído negativamente, pois os docentes ficam com uma dívida moral para com os alunos e, no momento da correcção das provas, mesmo sabendo que o estudante teve uma nota negativa não têm como o reprovar.

É preciso acabar com a corrupção

A reportagem do Jornal de Angola apurou que há casos em que o próprio professor é que faz o trabalho de fim de curso dos estudantes, nota-se isto no momento da defesa, porque os alunos perante o corpo da mesa de júri não demonstram qualquer domínio do tema. 
O decano do Instituto Superior de Saúde do Cuando Cubango defendeu por este facto a necessidade de o governo provincial criar mecanismos para a atribuição de um mini-autocarro que possa transportar os professores, para deixarem de depender dos estudantes, que se aproveitam desta situação e corrompem os docentes.

Quadros competentes

A vice-governadora do Cuando Cubango, para o sector Político, Social e Económico, Sara Luísa Mateus, que visitou as unidades orgânicas da Universidade Cuito Cuanavale na cidade de Menongue para constatar o real funcionamento, prometeu que o governo provincial  vai trabalhar para encontrar soluções o mais rápido possível, no sentido de suprir as dificuldades que as mesmas enfrentam, sobretudo a situação de falta de equipamentos no laboratório do curso de Enfermagem.
“Temos a obrigação de formar quadros competentes e, para isto acontecer, o governo provincial deve fazer alguns investimentos mesmo, apesar da crise económica que o país está a viver, para que gradualmente se possa garantir o bom funcionamento da universidade”, disse.
Sara Luísa Mateus reconheceu que é um grande desafio a formação de quadros competentes, tendo em vista que acarreta muitos custos, mas que há toda a necessidade de “estarmos unidos para que se possa solucionar as dificuldades, para que se tenha um ensino de qualidade na província.” “Por isso, temos que trabalhar afincadamente todos em conjunto, para colocarmos a Universidade Cuito Cuanavale nos patamares de outras instituições académicas de renome nacional e internacional, para que a mesma não seja desacreditada no mercado de trabalho”, disse.
Regista-se na província muitos cidadãos que fazem o ensino superior para terem, apenas, um nível académico que lhes permita ser bem remunerados e esquecem-se de  esforçar-se para terem conhecimentos científicos, para poderem corresponder com os desafios do futuro.
A outra inquietação do governo provincial é o facto de as unidades orgânicas da Universidade Cuito Cuanavale, no Cuando Cubango, estarem apenas confinadas na cidade de Menongue e contarem com um número reduzido de quadros angolanos.
Este é um outro desafio em que o governo provincial vai apostar, para que gradualmente se possa substituir os docentes expatriados, tendo em vista que acarretam muitos custos, bem como dar resposta às orientações do Presidente da República, João Lourenço, que quer maior qualidade dos quadros nacionais para que possam assegurar as instituições académicas.

 

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