Reportagem

Executivo promove expansão do uso de fertilizantes naturais

João Mavinga | Mbanza Congo

O Ministério da Agricultura pretende expandir em Angola o método da agricultura natural com o objectivo de aumentar a esperança de vida dos angolanos.

Bernardo Paulino um dos formandos do curso sobre agricultura natural enalteceu o projecto pois o modelo ajuda a evitar o recurso a fertilizantes químicos e a pesticidas
Fotografia: João Mavinga

Numa parceria entre o Centro de Formação Profissional em Agricultura Natural Mokiti Okada e o Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA, Angola), o Minagri está a delinear estratégias de suporte à  expansão desse modelo agrícola pelo país, evitando-se o recurso a fertilizantes químicos e a pesticidas.
Em entrevista ao Jornal de Angola, o director do centro, Marques Zambo Bambi, destacou a importância da expansão do método, realçando o carácter filantrópico da sua instituição, que privilegia ajudas às famílias de baixa renda atingidas pela fome e pela pobreza.
Segundo o engenheiro agrónomo Marques Zambo Bambi, a  escola de Agricultura Natural Mokiti Okada, localizada na comuna da Funda, município de Cacuaco, apoia a Africarte (Associação para o Desenvolvimento da Agricultura Natural, Arte e da Cultura Africana).
O estabelecimento escolar lecciona aos formandos tecnologias sobre o uso de Bokashi-EM, um dos fertilizantes naturais do conjunto de farelo de origem vegetal, fermentado com microrganismos eficazes, que alimentam a produção, e acautela o rejuvenescimento do sistema imunológico da saúde humana e aumenta a vitalidade do homem. 
Experiências comprovadas, de países onde já se pratica o método em alusão, como Alemanha, Japão, Brasil, França e Tailândia, mostram que os produtos da agricultura natural oferecem resultados fabulosos na protecção da saúde humana. Através do protocolo assinado ­entre o Ministério da Agricultura e a Africarte, o Centro Mokiti Okada pretende que o país todo adira ao método em questão, para que o desenvolvimento da agricultura  natural seja inevitável, tal como disse o engenheiro Bambi.
Para ele, o método natural vai afastar, aos poucos, o modelo habitual, que consiste no uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, muito nocivos à saúde humana.
“Queremos que as famílias e os agricultores do país adiram a esse modelo, para aumentarmos a esperança de vida dos angolanos de 50 para 90 anos e essa expansão pode resultar em menos gastos na compra de medicamentos, o respeito pelos hábitos e costumes da nossa dieta alimentar”, enfatizou o director do centro.
A Africarte já formou em Angola 192 técnicos básicos em agricultura natural, dos quais 62 ficaram de receber os seus certificados no passado dia 10 de Novembro, tendo em conta que os respectivos processos já foram homologados pelo Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, através do Inefop - Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional.
A escola agrícola Mokiti Okada já lançou, no mercado de trabalho, dezenas de pessoas, que expandem o método de agricultura natural nas províncias de Luanda, Cabinda, Zaire, Benguela, Uíge, Bengo, Huíla, Huambo e Cuanza Sul.
 
Estudantes universitários
 
Pela importância e dimensão que a escola Mokiti Okada encerra, um grupo de estudantes do segundo ano de Gestão da Universidade Técnica de Angola (Utanga), lançou-se numa pesquisa neste centro, para apurar os efeitos negativos dos agrotóxicos na agricultura convencional.
Henrique Diogo Victor, o estudante que falou em nome dos demais, informou que a essência do trabalho no Centro de Agricultura Natural Mokiti Okada baseia-se na criação de uma empresa de produção de fertilizantes orgânicos e inorgânicos, em função da necessidade dos agricultores da praça nacional. O objectivo, afirmou, é transmitir a experiência à população e abraçar o uso de Bokashi-EM, fertilizante de uma tecnologia puramente natural e de origem japonesa.
O estudante universitário reprovou o uso de fertilizantes inorgânicos por, segundo ele, quebrarem a longevidade do homem, através de substâncias nocivas do tipo nitrogénio, potássio e cálcio 12, 24, 12, propensos ao contágio de doenças vulneráveis, como trombose, pressão arterial alta e cefaleias.
A reportagem do Jornal de Angola apurou que os estudantes vão demonstrar os conhecimentos adquiridos na escola Mokiti Okada, numa Feira de Gestão Estratégica na universidade. Henrique Victor ­deixou transparecer a ideia de o colectivo poder aplicar o novo método aprendido em hortas caseiras, como uma experiência piloto, para, posteriormente, evoluir em campos extensos de agricultura natural.
O estudante asseverou que os nutricionistas aconselham o consumo de produtos agrícolas cultivados com fertilizantes orgânicos (sem adição de agrotóxicos), razão pela qual recomenda a experiência piloto com a confecção de hortas caseiras, como forma de preparação e mudança do regime alimentar.
 
Quadro formado
 
Bernardo Paulino, 55 anos, é um dos técnicos formados, há dois anos, no Centro Mokiti Okada. Membro da Igreja do Ministério Cristão do Combate Espiritual, terminou a formação numa altura em que cultivava num espaço de apenas um hectare, preparado com adubos venenosos.
Bernardo Paulino conta que um amigo que responde pela Associação dos Camponeses de Cacuaco escutou num belo dia um anúncio na rádio, no qual se fazia alusão à existência do Centro de Formação Profissional Mokiti Okada, que formava quadros em agricultura sem uso de pesticidas.
Essa informação motivou-o a frequentar a escola durante quatro meses. Depois da formação, abandonou os adubos químicos e passou a usar o Bokashi-EM como fertilizante, dissipando assim dúvidas à volta dos fertilizantes químicos. “Eu aplicava num hectare 25 quilogramas de adubos e 50 quilogramas de ureia”, explicou o agrónomo, admitindo que no início foi alvo de desprezo de demais produtores, pela prática do método de agricultura com fertilizantes naturais. Para espanto dos demais, quatro ­meses depois do cultivo, os resultados começaram a ser bem visíveis, tendo-se os alimentos desenvolvido com muita vitalidade. Com isso, quatro outros camponeses acreditaram e decidiram juntar-se ao método, com o qual se produz alimentos até aos dias de hoje.
Depois de ver os resultados satisfatórios, ganhou força e ampliou a área de cultivo para cinco hectares. Na época chuvosa transacta, três hectares cultivados ficaram inundados. Dos dois hectares restantes, um contém bananal. Neste momento, Bernardo Paulino cultiva couve, cenoura, tomate, milho, repolho e beringela.
 
Saúde humana
 
O relato de Bernardo Paulino sobre o tema teve outros resultados surpreendentes. O agricultor garantiu que padecia de asma durante 20 anos, de 1995 a 2015. Além disso, admitiu que era muito preguiçoso e tinha poucas horas de sono. Conforme explica, no primeiro dia em que comeu alimentos naturais, na escola Mokiti Okada, teve falta de apetite e não acabou a comida. “No segundo dia já me senti muito aliviado e notei uma grande diferença: tinha mais força, boa disposição e coragem”, frisou.
Como asmático, Bernardo Paulino não resistia a exercícios físicos, nem tinha força para trabalhar. Conta que era forçado a usar medicamentos e uma bomba manual, quando sentisse os sintomas da doença, garantindo assim mobilidade ao coração. O técnico agrónomo lembra as crises que teve, quando consumia alimentos com agrotóxicos. “A asma acabou quando comecei a comer os alimentos naturais por mim cultivados”, disse.
O agricultor explica ainda que a sua esposa, que padece de diabetes, também já sente alívio com o consumo de alimentos naturais do seu campo. “Quando retoma à alimentação convencional como frangos e carnes congelados os níveis de açúcar no sangue disparam, ao passo que com os alimentos naturais como couve, beringela, kizaca e outros a glicemia não ultrapassa os 130 miligramas, mesmo sem fazer recurso a medicamentos”, esclareceu.
 
Bokashi-EM
 
Bokashi-EM é uma palavra japonesa que significa matéria orgânica fermentada. É um fertilizante composto de uma mistura balanceada de matérias orgânicas de origem vegetal, submetidas a um processo de fermentação controlado.
Explicações do engenheiro agrónomo Marques Zambo Bambi revelam que a acção mais importante do Bokashi tem a ver com a introdução no solo de microrganismos benéficos, que desencadeiam um processo de fermentação na biomassa disponível, proporcionando, rapidamente, condições favoráveis à multiplicação e actuação da microbiana benéfica existente no solo, como fungos, bactérias, actinomicetos, micorrizas e fixadores de nitrogénio, que fazem parte do processo complexo  da nutrição vegetal equilibrada e da construção da sanidade das plantas e do próprio solo.
Este fertilizante, conta, é de uso fácil, aplicação indicada para o preparo natural do solo,  jardins, hortas caseiras e proporciona a revitalização do solo, oferecendo um melhor aproveitamento da sua fertilidade natural.
O fertilizante Bokashi-EM oferece vantagens para os agricultores ou fazendeiros. O agricultor pode desenvolver a sua própria receita, substituindo os ingredientes de acordo com o material disponível na sua região. Todos os técnicos agrónomos formados no Centro de Formação Profissional Mokiti Okada aprendem a fazer o adubo orgânico, denominado Bokashi-EM.

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