Reportagem

Exercícios físicos desorientados podem causar quebra dos ossos

Augusto Cuteta

A prática de exercícios físicos desorientados e o levantamento de cargas excessivas devem ser evitados, por serem actualmente factores de risco para o surgimento de casos de osteoporose, alertou o médico interno de Ortopedia Félix da Silva.

O ortopedista do Hospital do Prenda, em Luanda, explicou que a prática desportiva é salutar, mas quando feita de forma desregrada pode tornar-se um estímulo para o surgimento da osteoporose, uma doença que origina a perda gradual da massa óssea, enfraquece-a e provoca fractura.
Aconselhou os usuários de ginásios e de espaços de exercícios públicos a optarem por conciliar o tempo de execução de exercícios e cargas com o peso e sua musculatura física, para evitar problemas ósseos. “Não pode uma pessoa levantar 100 quilos quando ela pesa apenas metade disso”, exemplificou.
Félix da Silva disse que muitos desses pacientes são pessoas que, durante o seu processo de crescimento, tiveram pouca ingestão de cálcio, que se consegue com alimentos como o leite e com a vitamina D, o que origina o enfraquecimento da arquitectura do tecido ósseo.
O médico explicou que a osteoporose se dá por factores genéticos e biológicos ou por factores comportamentais e ambientais. No primeiro caso, destacou a história familiar, raça branca, sexo feminino, escoliose (problemas na coluna) e menopausa precoce.
Quanto aos factores comportamentais e ambientais, Félix da Silva citou os casos de pessoas que consomem excessivamente bebidas alcoólicas e fumadoras, o sedentarismo, mal nutrição, baixa ingestão de cálcio e vitamina D, bem como a amenorreia (ausência de menstruação).
O médico interno de Ortopedia considerou que, há uns anos, as pessoas mais propensas a apanhar a doença eram os idosos, pessoas de raça branca e mulheres. Mas, actualmente, o problema atinge uma série de jovens, principalmente os que ingerem bebidas alcoólicas e os fumadores.
Assintomática, Félix da Silva realçou que, às vezes, a osteoporose pode evoluir por muitos anos sem que a pessoa saiba que tem o problema, até ocorrer uma fractura. Antes disso, se costuma fazer exames de densitometria óssea, para detectar a perda de massa acima dos 2,5 do desvio padrão.
“Ela é uma doença silenciosa e, entre nós, por causa da falta de cultura de se procurar os serviços clínicos enquanto não estivermos com sinais de doença, muitos só a descobrem depois de uma quebra dos ossos”, lamenta.
O médico avançou que, embora sem estatísticas exactas, entre 10 e 13 por cento dos pacientes intervencionados cirurgicamente a nível do Hospital do Prenda apresentaram problemas de osteoporose quer pré e intra-operatório.
Esses doentes, incluindo muitos jovens, apareceram com graves dificuldades de fixação óssea, por causa da má qualidade dos ossos. Por este facto, alguns pacientes são submetidos à amputação.
Mas, realçou que há outras formas de diagnosticar o problema antes que o mesmo atinja a fase mais crítica que pode levar à operação, como o uso de radiografias, quer simples (como raio X), quer por meio da densitometria óssea e da biopsia óssea.
Além desses métodos, principalmente para o caso de o médico não dispor de um aparelho de densitometria óssea, Félix da Silva disse que há os exames laboratoriais no sangue e na urina, que podem ajudar a detectar a doença no paciente.

Formas de tratamento
A osteoporose pode ser prevenida, afirmou Félix da Silva. Apesar disso, muitos pacientes costumam ser submetidos à amputação dos membros, devido ao estado avançado da doença com que chegam aos serviços de saúde.
O médico explica que a osteoporose, que chega a afectar mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo, pode ter um tratamento curativo e preventivo, devendo este último começar desde tenra idade, com uma dieta rica em cálcio e vitamina D.
O clínico salientou que a dieta deve ser equilibrada no que diz respeito à ingestão de proteínas, fibras e de fosfato. Esses hábitos têm de ser associadas à prática desportiva orientada ou feita por padrões aceitáveis o mais cedo possível, com vista a facilitar a maturação óssea.
Em relação ao tratamento curativo, depois de detectar a doença no adulto, as estatísticas mundiais apontam que 99 por cento dos casos são irreversíveis, por já ter passado o pico de maturação óssea.
Nestes casos, explicou Félix da Silva, apesar de o paciente ser submetido à dieta rigoro-sa e a exercícios, tem de passar por tratamento curativo, que é hormonal (terapia com estrogéneo, na mulher, ou reposi-ção da testerona, no homem), ou medicamentoso.
No que diz respeito ao tra-
tamento medicamentoso, o médico disse que são feitos à base de cálcio e vitamina D, através da tomada, duran-
te 60 ou mais dias, do calcitram D3 e de fármacos fosfatados que reduzem a possibilidade de uma fractura patológica.
Os doentes podem ainda beneficiar de técnicas anti-reabsorção óssea, recurso a agentes estimuladores da formação dos ossos, recomendação de aledronato, iban-
dronato e do raloxifeno (que é um modulador selectivo de receptores de estrogéneo).

Mais fracturas patológicas
O médico interno de Ortopedia revelou que a maioria dos pacientes que entra no Hospital do Prenda com problemas de osteoporose re-gista uma fractura patológica, que tem a ver com a quebra do osso mesmo sem traumatismo.
Em outras palavras, Félix da Silva explicou que o processo normal para ocorrer uma fractura é através de traumas moderados e de grande energia, como em quedas, acidentes rodoviários, de trabalho ou doméstico e pancada, entre outras formas. Mas o doente osteopórico não precisa disso para quebrar o osso.
“Mesmo que esteja só a caminhar, a subir as escadas, levantar um bidão de 20 litros, por causa da fraqueza dos ossos, esta pessoa com osteoporose pode sofrer de uma fractura óssea”, salientou o médico do Hospital do Prenda.
Na referida unidade sanitária, as mulheres lideram a lista de pacientes com osteoporose. No mundo, também é assim. Uma em cada três mulheres e um em cada cinco homens com idade superior a 50 anos sofre da doença.
Em crianças, a osteoporose é rara, mas o médico disse que há casos genéticos, em que, ainda no ventre da mãe, esses bebés acabam por não ter a maturação adequada dos ossos.
Para evitar que as crianças nasçam com esses problemas, Félix da Silva recomenda as mulheres a aderirem às consultas pré-natais, onde se pode detectar irregularidades na composição óssea do bebé. As visitas aos serviços de puericultura também são fundamentais.
Para a pessoa adulta, o médico defendeu a necessidade de as mulheres terem cuidado com a sua saúde reprodutiva. Aos homens, Félix da Silva aconselha para procurarem o urologista, para serem submetidos a exames da próstata a partir dos 40 anos.

  Tratar as causas primárias

O médico defendeu um tratamento da osteoporose, mas salientou ser preciso primar-se pelo combate ou controlo de forma eficaz às causas primárias e secundárias, que são as anormalidades endócrinas e tumorais, com destaque para os problemas da tiróide, diabetes mellitus e tumores da medula óssea.
Além dessas doenças, que originam a osteoporose, Félix da Silva disse que é em vão lutar contra a osteoporose, caso não se dê atenção aos problemas de alcoolismo, tabagismo e de má nutrição, por exemplo.
Embora o Dia Mundial da Osteoporose tenha sido celebrado a 20 deste mês, o médico do Hospital do Prenda aconselhou a uma reflexão do problema, para que se preste maior atenção à osteoporose, uma vez que de três em três segundos acontecem a nível do mundo uma fractura, por causa da doença.
Entre os pacientes detectados com o problema de os-teoporose, as principais frac-
turas registadas acontecem a nível do punho, coluna vertebral (pressão lombar), fémur proximal, na zona da pelve e do úmero.

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