Reportagem

Fábrica de mentiras: viagem ao mundo das fake news

Paulo Pena *

As fake news não são sempre óbvias, flagrantes ou sequer visíveis, na medida em que nem todos somos confrontados com elas quando exploramos os nossos feeds nas diferentes redes sociais.

Fotografia: DR

Para mim, pelo menos, não o eram, embora soubesse da sua existência e dos problemas (cada vez mais) sérios que colocavam em sítios tão distantes como os Estados Unidos ou o Brasil... Até que um dia, em Setembro de 2018, durante uma reunião de ideias no Diário de Notícias, surge a pergunta: “E porque não escrevermos sobre fake news em Portugal?”
A curiosidade é sempre um bom ponto de partida para qualquer jornalista. Até àquela reunião, nunca me tinha cruzado com uma notícia falsa (ou fake news) portuguesa. Quando o director do jornal, Ferreira Fernandes, me propôs investigá-las, tive dúvidas sobre que êxito poderia vir a ter ou a quem iria interessar. A minha ideia era outra, diferente daquilo que veio a concretizar-se, como é muitas vezes meu defeito: olhar para o assunto de longe, de fora.
Havia - há, aliás - uma razão para a minha ignorância: o Facebook, no qual muitas vezes essa acção decorre, não é uma base de dados aberta ou um fio comum de informação que todos vemos da mesma maneira. A informação a que cada um de nós tem acesso é escolhida, por complexos (e secretos) algoritmos que trabalham num sistema de inteligência artificial que tem como objectivo prever aquilo que cada um de nós quer ver.
Traduzindo: se eu “abro” sobretudo links de desporto na minha página (o feed), o Facebook conclui que esse é o meu tema preferido e vai publicar no meu feed mais e mais notícias, vídeos e imagens de desporto para que eu continue a gostar da minha experiência. Cada um de nós vê o que o Facebook lhe mostra, porque é isso que prevê que nos vai agradar. Por essa razão, se eu não recebo (nem os meus amigos partilham) fake news, é muito provável que eu nunca chegue a ver nenhuma. Mas isso não significa que elas não existam.
Não demorei muito tempo a encontrar dois exemplos: duas fotografias, reais, manipuladas por legendas falsas. E assim começou este trabalho, que explicarei em detalhe nos próximos capítulos. Com essas duas mentiras criadas com o objectivo de manipular opiniões, mergulhei de cabeça num enredo de proporções titânicas que ameaça a forma como vivemos. O problema não está apenas nas mentiras, na mensagem que é difundida para convencer ou manipular. Esse é apenas o primeiro degrau numa íngreme escadaria de problemas.
A desinformação é um processo, é isso que a distingue do simples engano ou de uma opinião mal fundamentada. É uma sequência de actos concebidos por alguém com o objectivo de manipular as convicções do maior número possível de pessoas.
Para que as mentiras existam é preciso que alguém as crie. E só em Portugal, há mais de 40 sites a fazê-lo neste momento. Depois, é necessário que a mensagem passe, que não fique esquecida num qualquer canto da imensa actividade das redes sociais, momento em que entram os propagandistas, os difusores profissionais de desinformação. Podem ser agências de comunicação, militantes de causas obscuras (na gíria, trolls), computadores programados para disseminar links através de contas falsas (bots, diminutivo de robot).
A pergunta seguinte será "porque o fazem?". Encontrei exemplos de várias motivações. Uma das mais óbvias é a agitprop (agitação e propaganda) política. As redes sociais são o palco para várias campanhas daquilo a que hoje se chama “polarização”, onde algumas convicções pretendem reinar numa guerra sem tréguas com os seus adversários. As fake news são um instrumento eficaz para denegrir, atacar, instalar a dúvida sobre as características, defeitos e acontecimentos “secretos” da vida dos rivais.
Numa eleição, esse é o poder de quem quer desmobilizar o campo oposto, retirando-lhes votos de pessoas que estavam disponíveis para os apoiar. Também é assim que se mobilizam os que estão convencidos de que esses adversários, além das más propostas que fazem para uma hipotética governação, são também eles maus, pérfidos, corruptos. Foi essa a lógica que a Cambridge Analytica usou para criar o célebre slogan “crooked Hillary” lançado por Trump na campanha americana de 2016, em que os dois O do adjectivo (desonesta) apareciam desenhados como se fossem algemas.
Há também pequenos grupos, geralmente excluídos da “moldura” informativa tradicional, que têm nas redes sociais um speakers corner gratuito. Refiro-me aos simpatizantes nazis, supremacistas brancos, nacionalistas radicais. Impedidos de aceder aos maiores espaços informativos por razões editoriais e, nalguns países, por imperativo legal, estes militantes de extrema-direita usam as redes sociais para levarem a cabo uma propaganda muito eficaz, baseada sobretudo em campanhas negativas sobre os adversários, com mentiras, explicando assim o êxito recente do discurso do ódio em muitos países europeus.
As vítimas deste discurso têm sido os refugiados, os judeus, os muçulmanos, as mulheres, os gays e todos os políticos que aparecem descritos como inimigos da “identidade nacional e cultural”. Uma dessas campanhas levou a uma crise política na Europa e esteve na base do maior trabalho publicado pelo “Investigate Europe”.
Mas há ainda uma razão, mais prosaica: o lucro. Escrever, publicar, difundir e replicar fake news é um negócio. Se, em Portugal, há 40 sites a criar mentiras (e, pelo meio, a copiar o que escrevem os jornais e TV para garantir tráfego) e mais de 2,5 milhões de pessoas a receber o que escrevem, isso tem um valor concreto para a nova “publicidade direccionada”.
O termo nasceu, e cresceu, como um elogio, no mundo online: “viral” é tudo aquilo que chega a um número grande de pessoas. Essa é a base das receitas do modelo de publicidade online. Quanto mais clicks uma história tem, mais dinheiro recebem os seus autores. Uma mentira eficaz tem, muitas vezes, muitos mais clicks do que uma história complexa.
É aqui que uma investigação sobre as fake news se torna, também, num alerta sobre a nossa relação com as grandes plataformas online - Google e Facebook - que gerem a parte de leão do mundo publicitário digital. Num passado não muito distante, a publicidade era uma das duas principais fontes de receitas do jornalismo (a outra era o público, que pagava pelo acesso à informação). O contrato era claro: os anunciantes compravam páginas de jornal para chegar aos potenciais clientes. Escolhiam, assim, os títulos que lhes garantiam um público genérico, pagando também a credibilidade e o reconhecimento que esses media conquistaram na sociedade.
Como veremos no caso Cambridge Analytica, porém, hoje já é possível dispensar esse papel intermediário e qualquer anunciante pode pagar ao Google e ao Facebook para chegar directamente a uma demografia exacta: homens casados com mais de 50 anos a viver em Lisboa, por exemplo, ou mulheres solteiras com menos de 24 anos a viver em Bragança.
O Google paga uma parte dessa receita a quem publicar os seus anúncios e isso tanto pode acontecer numa página online de um jornal como num site anónimo que fabrica fake news. No final, receberá mais dinheiro quem gerar mais tráfego, quem tiver mais clicks, quem publicar um tema tão “viral” que leve aquele anúncio ao maior número de clientes.

Crise do jornalismo

Esta lógica, de extrema rentabilidade para as plataformas e que ainda não foi questionada pelos anunciantes, tem uma consequência inevitável: a crise do jornalismo. É evidente que os jornais, antes da era digital, procuravam vender mais e ser lidos pelo maior número de pessoas possível, mas o compromisso era o oposto do actual. A publicidade não tinha um valor flutuante que dependesse apenas das métricas de leitura. Hoje, as redacções dependem do "volume" de clicks, um facto com diversas e graves consequências - desde o tempo que dedicam a trabalhar assuntos complexos e demorados, à forma como os apresentam, ao tratamento que dão aos métodos de verificação interna da informação (fontes em off, veracidade das citações, exactidão da informação, contexto das histórias).
Desde 2016, quando tomámos consciência do escândalo Cambridge Analytica e nos apercebemos da estrutura do problema colocado pelas grandes plataformas online (recolha e cedência de dados de utilizadores, ausência de controlo editorial sobre as publicações, por exemplo), sentimos que a democracia pode, ela própria, ser o alvo de um novo tipo de campanha de manipulação da opinião pública. Sentimo-nos indefesos, também.

O papel social, e cultural, das grandes plataformas é evidente - e não tem estado no centro do nosso debate. Deveremos considerá-los como editores? Devem ter as mesmas regras do que os media? Devem contribuir com parte das suas receitas para mitigar os efeitos da desinformação? Em resumo: devem ser mais reguladas? Será difícil responder a essas perguntas e garantir que as plataformas online, com todo o seu poder económico, político, de lobby, abdiquem de um mercado que dominam e se empenhem numa solução.
Pode parecer justo e algo inconsequente, mas, na verdade, é o equivalente moderno daqueles encontros comerciais entre europeus e nativos americanos no século XVI: um colar de contas de vidro em troca de ouro.
Quando andamos pela rua, apressados ou em passeio, somos todos muito parecidos, a matar o tempo de espera do autocarro com um telemóvel na mão, a fazer zapping pela actualidade num ecrã táctil. Distribuímos "gostos", pomos corações, espetamos o polegar para cima ou para baixo em vídeos, damos os parabéns, comentamos, partilhamos, aproximamo-nos de amigos perdidos no tempo, de familiares emigrados, de ex-namoradas, da turma do 9º ano.
É um ritual extenuante de sociabilização, pelo menos é assim que muitos de nós o sentem. Hoje, como vemos acontecer diariamente connosco e com todos à nossa volta, é online que fazemos quase tudo: comunicamos, recebemos trabalho, compramos, procuramos a rua para onde queremos ir, tratamos das férias, marcamos restaurantes, fazemos reclamações. E procuramos informação. Muita informação.
Mas há uma pergunta que não nos colocamos, pelo menos não tanto quanto devíamos: o que acontece a todo esse rasto que deixamos online?
Para responder a essa pergunta, temos de fazer uma outra: qual é o negócio que permite ao Google e ao Facebook (que são donos, também e respectivamente, do YouTube e do WhatsApp) oferecer-nos, livre de quaisquer custos, um motor de busca agilíssimo, um sistema integrado de email, de edição de texto, de armazenamento e de mensagens?
A resposta é simples: o negócio somos nós. Ao entregarmos a estas plataformas, gratuitamente, os nossos dados, informação não editada sobre nós e sobre a vida que levamos, permite-lhes oferecer-nos, em troca, os serviços que elas criaram. Pode parecer justo e algo inconsequente, mas, na verdade, é o equivalente moderno daqueles encontros comerciais entre europeus e nativos americanos no século XVI: um colar de contas de vidro em troca de ouro.

*Diário de Notícias*

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