Reportagem

Fábrica de cimento com custos baixos

André dos Anjos |

A Nova Cimangola, a segunda mais antiga fábrica de cimento do país depois da Secil Lobito, promete baixar os custos de produção e do preço do produto, a partir do próximo ano, com a entrada em funcionamento de uma nova unidade fabril de que é accionista.

Nova Cimangola vai aumentar a produção
Fotografia: Vigas da Purificação

A unidade fabril em construção no município de Cacuaco, designada Nova Cimangola II, é uma empresa comparticipada pela Ciminvest e pela Nova Cimangola. O projecto foi concebido em 2010, mas teve de esperar dois anos para sair do papel. Foi em 2012 que os seus accionistas juntaram-se à Nova Cimangola II para celebrarem com a então Agência Nacional de Investimentos (ANIP) um contrato para a construção de uma unidade de produção de clínquer e cimento, num projecto orçado em 385 milhões de dólares.
O projecto foi pensado ao detalhe e uma das metas a que se propôs é retirar a Nova Cimangola da dependência do estrangeiro, de onde adquire o clínquer, componente decisivo na feitura do cimento. O recurso ao mercado externo tem um peso importante nas contas da empresa que gasta anualmente cerca de 70 milhões de dólares, com implicações nos custos de produção, nas reservas cambiais do país e no preço do produto final.
A nova unidade fabril vai produzir anualmente 1,3 milhões de toneladas de clínquer, quantidade bastante para suprir o défice da Nova Cimangola e satisfazer as suas necessidades particulares, sem excluir a possibilidade de comercializar o excedente.
As linhas orientadoras do projecto incluem, ainda, a redução dos custos de produção do cimento, que passa pela instalação de equipamentos de última geração tecnológica, produção interna de clínquer à altura das crescentes necessidades das duas unidades fabris, a antiga e a nova, e a criação de novos postos trabalho.
As obras estão a cargo da empresa Sinoma International Engineering e, ao que o Jornal de Angola apurou, estão em fase avançada. Neste momento, o empreiteiro trabalha na conclusão da construção civil das estruturas de suporte dos armazéns de matérias-primas e silos de clínquer, na finalização do processo de montagem dos fornos e na conclusão da instalação das linhas de abastecimento de água e energia eléctrica.
Na escolha do local onde está a ser montada a nova unidade fabril, numa área de 700 hectares, pesou a presença de grandes jazidas de calcário, já que as que circundam a antiga fábrica, localizada na zona do Kikolo, a 14 quilómetros do centro da cidade de Luanda, caminham para o esgotamento.
E se é verdade que não se faz cimento sem clínquer, não é menos verdade que este não se consegue sem o calcário, pois este produto resulta exactamente da calcinação de uma mistura de calcário, argila e outros componentes químicos como o silício, o alumínio e o ferro, todos, entretanto, presentes no subsolo angolano.
A Nova Cimangola há muito que fabrica clínquer, mas em quantidade insuficiente para as suas necessidades e com tecnologia anacrónica (via húmida), que torna o processo mais moroso e dispendioso, quando na actualidade, as grandes indústrias do sector já migraram, quase todas, para a chamada via seca, com graus de eficácia a superar, de longe, o antigo método.
Mas a nova tecnologia de fabrico de clínquer não chega a Angola pelas “mãos” da Nova Cimangola II, pois já cá anda. As fábricas de cimento do  Kwanza Sul (FCKS) e  a China Internacional Fund Angola (CIF), duas empresas do sector que nasceram, também elas, no quadro dos esforços de facilitação do processo de reconstrução do país, foram, na verdade, quem introduziram na indústria cimenteira nacional a técnica de fabrico de clínquer por via seca.
O que a Nova Cimangola II vem fazer é juntar-se aos esforços de modernização de uma indústria de capital importância para o país e que tem na Nova Cimangola uma referência incontornável, não fosse ela líder do mercado nacional por décadas a fio, até à chegada da China Internacional Fund Angola.
Mas a modernização de qualquer indústria passa também pela qualificação da mão-de-obra. Nesta perspectiva, para além de garantir 275 novos postos de trabalho, 250 dos quais reservados a cidadãos nacionais, a Nova Cimangola II tem a missão de contribuir para a elevação da qualificação do pessoal da antiga fábrica.
O investimento na nova unidade fabril tem tudo para devolver à Nova Cimangola a liderança do mercado perdida para a China Internacional Fund Angola ou colocar as duas empresas em pé de igualdade em níveis de produção, mas sempre com vantagens comparativas para a Nova Cimangola, que junta um prestígio acumulado à antiguidade no mercado. Com a conclusão da segunda e última fase das obras da nova unidade fabril, prevista para entre finais de 2017 e princípio de 2018, espera-se que a Nova Cimangola duplique a sua produção, passando de 1.800.000 toneladas anuais para 3.600.000 toneladas, as mesmas quantidades que são produzidas actualmente pela China Internacional Fund Angola, com a qual passa a disputar a liderança do mercado.
A primeira fase do projecto deve ser concluída ainda no mês que vem para, 90 dias depois, dar-se início ao processo de testagem dos equipamentos. Mas, o cronograma das obras pode sofrer ligeiras alterações, se não forem superados, em tempo útil, constrangimentos de última hora, resultantes da desvalorização da moeda nacional face ao dólar.
É que, para além de capitais dos accionistas, o projecto é financiado por um sindicato bancário e as cifras foram fixadas em moeda nacional, numa altura em que a taxa média de câmbio era de 100 kwanzas por cada dólar americano. De 2014 para cá, o valor do financiamento sofreu uma erosão calculada à volta de 100 milhões de dólares, em consequência da depreciação da moeda interna.
A situação exige agora um refinanciamento do projecto, sobretudo, para a conclusão da segunda e última fase, que inclui, entre outras tarefas, a montagem da moagem de cimento, equipamentos de embalagem e expedição. Ao que apurou o Jornal de Angola, os accionistas já iniciaram as conversações com os bancos financiadores para obter o reforço financeiro necessário e processo está no bom caminho. Pelo menos o banco líder da operação já aprovou a proposta.
A preocupação dos accionistas da Nova Cimangola II é a de chegar a um acordo sobre a matéria, ainda em Dezembro, para evitar possíveis embaraços e permitir o cumprimento do cronograma das obras. Mas a efectivação do acordo de financiamento a ser selado com o sindicato bancário depende da celeridade com que o Banco Nacional de Angola (BNA) e os Ministérios da Indústria e da Economia vão encaminhar o processo para garantir aos investidores o acesso aos 100 milhões de dólares de que necessitam para a conclusão da nova fábrica. No curto prazo, até finais de Dezembro, os accionistas da nova fábrica precisam de 37,3 milhões de dólares, para não interromper os trabalhos.

Incentivos fiscais

O projecto está em linha com a estratégia do Executivo destinada a aumentar a produção nacional, a criação de novos postos de trabalho, a redução das importações e o fomento das exportações, o controlo da saída de divisas e a estabilização dos níveis de inflação. Por esta razão, o Estado resolveu conceder benefícios fiscais e aduaneiros à Nova Cimangola II, por um período de cinco anos, a contar da data em que a fábrica passa a incorporar 90 por cento da mão-de-obra prevista.
No quadro dos benefícios fiscais que o Estado oferece, a Nova Cimangola II fica isenta de impostos industrial e de aplicação de capitais sobre os lucros distribuídos e beneficia de uma redução de 2,5 por cento nos impostos de aplicação de capitais sobre os juros dos empréstimos contraídos no âmbito do projecto.
Para além dos benefícios fiscais, o Estado isenta a nova empresa do pagamento de direitos aduaneiros em bens e equipamentos, ficando apenas obrigada ao pagamento de impostos de selo.
A Nova Cimangola II surge numa altura em que os níveis de produção já alcançados na indústria cimenteira nacional, mais do que satisfazer as necessidades do país, garantem a estabilidade do preço do produto no mercado face às oscilações cambiais a que estava sujeito, quando a procura era superior ao que era então produzido. Dados do Ministério da Indústria indicam que Angola atingiu, há dois anos, uma capacidade de produção instalada de 8.030.000 toneladas de cimento anuais, valor que está acima das necessidades actuais do país, que andam à volta de seis milhões de toneladas anuais. É de auto-suficiência que se fala.
Mas, o excedente de produção de cimento que se verifica hoje não deve ser dissociado do facto do sector de construção no país estar a passar por um período de retracção, resultante da crise financeira que o país atravessa, em consequência da queda do preço do petróleo no mercado internacional.
O mau momento financeiro que o país atravessa forçou a paralisação de algumas obras e o abrandamento de outras, incluindo no sector público onde os investimentos diminuíram consideravelmente.
A retracção no sector da construção levou as empresas a adequarem a sua produção à procura. De acordo com o Ministério da Indústria, em 2014, como em 2015, a Nova Cimangola, a Fábrica de Cimento do Kwanza Sul (FCKS), a Cimenfort Industrial, a China Internacional Fund Angola (CIF) e a Secil Lobito, as cinco unidades fabris em actividade no país, produziram, em conjunto, cerca de cinco milhões de toneladas, muito abaixo das capacidades instaladas. Ainda assim, acima da procura.
A oferta à altura das necessidades do país veio blindar o preço do cimento, tornando-o quase que imune às oscilações cambiais. Contrariamente aos preços da maior parte dos produtos que registam um aumento proporcional à desvalorização da moeda, o do cimento não conhece senão ligeiras alterações, incapazes de perturbar o mercado.
Com a entrada em funcionamento da Nova Cimangola II, espera-se um aumento exponencial da oferta de cimento no mercado.
Ao que o Jornal de Angola apurou, o país produz actualmente 4,8 milhões de toneladas de clínquer, quantidade que pode chegar a  7,9 milhões de toneladas anuais, o bastante para as necessidades do país, caso se concretize um outro investimento na produção de clínquer da Cimenfor, outra cimenteira nacional.
Das cinco unidades fabris em funcionamento no país, apenas duas produzem clínquer suficiente para as suas necessidades. Trata-se da Fábrica de Cimento do Kwanza Sul, com capacidade para 1.330.000 toneladas de clínquer por ano e da China Internacional Fund (CIF), que produz 3,6 milhões de toneladas de clínquer por ano. A produção da Nova Cimangola é deficitária nessa matéria e utiliza ainda uma tecnologia quase rudimentar.

Protecção da indústria

O Estado, tão logo teve a certeza de que a produção interna já satisfaz a procura interna proibiu, por decreto, as importações de cimento. O Decreto Conjunto nº 15/14, de 15 de Janeiro, interdita a importação de cimento em Angola, com excepções para três províncias fronteiriças (Cabinda, Cunene e Cuando Cubango), mas com quotas previamente estabelecidas.
As excepções feitas às províncias de Cabinda, Cunene e Cuando Cubango resultam das especificidades de cada uma das regiões, mas nenhuma delas está autorizada a exceder o limite de 150 mil toneladas anuais fixado por lei. O documento, prorrogado este ano pelos ministros da Economia, da Indústria, do Comércio e da Construção, justifica a decisão com os avultados investimentos no sector, feitos nos últimos anos.
O decreto lembra que a capacidade de produção de cimento instalada em Angola ronda os oito milhões de toneladas, para um consumo de 5.022.000 de toneladas em 2014, “acrescido do facto de, ao longo do ano de 2015, se terem constatado indícios crescentes do nível de exportação do cimento, sem colocar em causa as necessidades internas”.
A indústria cimenteira angolana cresceu exponencialmente nos últimos 14 anos, período correspondente ao tempo de paz. As necessidades da reconstrução do país colocaram-na, desde logo, no centro das áreas prioritárias de ­investimentos públicos e privados. O maior investimento no sector foi feito na localidade de Bom Jesus, em Luanda, onde o gigante chinês CIF instalou uma unidade fabril com duas linhas de montagem, sendo uma para clínquer e outra para cimento.
O segundo maior investimento foi feito pela Nova Cimangola, também em Luanda, que para fazer face aos desafios da reconstrução modernizou as suas infra-estruturas, aumentando a sua capacidade de produção. Hoje, as duas fábricas juntas representam mais de cinco milhões de toneladas de cimento das 8.030.000 toneladas anuais que o país pode produzir.
A Fábrica de Cimento do Kwanza Sul, com uma capacidade para 1.330.000 toneladas de clínquer e 1.400.000 toneladas de cimento anuais, entra  nas contas dos grandes investimentos efectuados no sector. Fruto dos avultados investimentos efectuados na indústria cimenteira e para orgulho do país, Angola passou, muito rapidamente, de um grande importador para um potencial exportador de cimento.

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