Reportagem

Falta de escolas nas comunidades fronteiriças força milhares de crianças a estudar na RDC

José Bule | Quimbata

De mãos a abanar, dez crianças (seis do sexo feminino e quatro masculinos) caminham a passos lentos em direcção à fronteira com a República Democrática do Congo (RDC). Calçam chinelas e trajam uniformes. As raparigas vestem saias azul-escuras e blusas brancas. Com as mesmas cores, os rapazes apresentam-se de calças e camisas.

Fotografia: Dombele Bernardo | Edições Novembro

Atravessam a fronteira pelo posto de Quimbata, no município de Maquela do Zombo, província do Uíge. Os alunos percorrem, de segunda a sábado, mais de quatro quilómetros em busca de conhecimentos nas escolas de Quimpangu, região do Baixo Congo, onde deixam ficar todo o material didáctico. Evitam carregar muito peso, devido à distância.
Ninguém fala português. O mais velho do grupo, Francisco Diassissua, tem 13 anos e estuda a 6ªclasse, e a mais nova, Tuhau Takutala, está na 1ª classe e soma apenas seis. Na conversa com a equipa de repórteres do Jornal de Angola,que se deslocou em serviço à fronteira, a comunicação só fluiu na língua nacional Kicongo. As crianças também falam lingala (língua da RDC).
“O meu pai não teve tempo de fazer a minha matrícula na escola do ensino primário de Quimbata, por isso, agora sou obrigado a andar muito a pé até à escola de Quimpangu”, disse o menino Francisco Diassissua.
Em Maquela do Zombo, o sector da Educação controla mais de três mil crianças, que atravessam a fronteira com o objectivo de estudar naquele país vizinho. Sobre o assunto, o administrador municipal, Ntoto André Faitoma, disse que a construção de salas com material local, nas regedorias e aldeias situadas ao longo da fronteira, pode ser a solução para o problema.
Ntóto Faitoma avançou que a Administração Municipal de Maquela do Zombo contratou alguns fabricantes de adobes e vários pedreiros, para depois comprar as chapas e barrotes e assegurar a construção de salas nas comunidades fronteiriças.
“Os adobes estão a ser fabricados nas localidades de Toto e Ntsangui. Portanto, estamos a fazer tudo para evitar que milhares de crianças continuem a estudar do outro lado da fronteira”, garante o administrador, que solicita a criação de um núcleo do ensino superior no município, para acolher os alunos que terminam o II Ciclo.
No âmbito do Programa de Investimentos Públicos (PIP), este ano, o município de Maquela do Zombo beneficia da construção de duas escolas, uma de sete e outra de 12 salas, para reduzir o número de alunos que se encontra fora do sistema normal de ensino.
Com um total de 109 escolas e mais de 36 mil alunos matriculados, o sector da Educação regista grandes dificuldades. Falta salas de aula, recursos humanos e material didáctico para os colégios e liceus. O director da Educação de Maquela do Zombo, Manzambi João, disse ao Jornal de Angola, que o município conta com um total de 534 professores. A localidade necessita de mais 500 para melhorar o processo de ensino-aprendizagem.
No município, funcionam escolas do ensino primário, I e II Ciclo do Ensino Secundário. “As vias de acesso às comunas estão muito degradadas e, também, estamos sem transporte para supervisionar o trabalho nas localidades de Béu, Sakandica e Cuilo Futa”, disse Manzambi João.

Mercado fronteiriço encerrado há mais de vinte anos

Está tudo parado. Há 42 quilómetros da sede municipal de Maquela do Zombo, o Posto Fronteiriço de Quimbata continua, oficialmente, encerrado. O projecto de reabertura não passou do papel, quando, em 2015, estavam praticamente criadas as condições para a construção de infra-estruturas de acomodação dos bens transaccionados entre os dois países (Angola e RDC) e dos meios de transporte, para melhorar a fiscalização das áreas cir­cundantes, que carecem de maior protecção e que constituem pontos de entrada de imigrantes ilegais e de mercadorias contrabandeadas.
O mercado seria instalado numa área com 455 hectares, distribuídos em 24 lotes, para a construção de armazéns, áreas de comércio grossista, retalhista e cambial e parte administrativa, onde funcionaria a Polícia de Guarda Fronteira e a Polícia Nacional, bem como a parte residencial e hoteleira.
Segundo o projecto apresentado no mesmo ano, na localidade de Quimbata, previa-se a construção de várias infra-estruturas escolares e sanitárias, num espaço de cerca de 24 hectares. O projecto tinha pernas para andar, sobretudo depois que ficaram concluídos os trabalhos de desminagem, limpeza e loteamento dos espaços onde seriam implementados esses serviços.
Os contactos entre o Governo do Uíge (Angola) e o do Baixo Congo (RDC), para um intercâmbio cultural e de segurança da fronteira comum estavam muito avançados. Agora, o capim alto esconde os limites dos espaços reservados à construção do futuro mercado fronteiriço de Quimbata.
Num passado ainda recente, o actual mercado do tipo artesanal registava um grande movimento de congoleses. Alguns iam lá comprar bens alimentares diversos e outros levavam boas quantidades de mandioca, safu, ginguba e quicuanga, para vender ou trocar com açúcar, leite, azeite doce, sal, peixe seco e óleo alimentar.
Era grande o número de viaturas que chegava e saía do local. Faltava espaço para estacionar. Hoje, o movimento é muito fraco. Já não se regista trocas comerciais. Do outro lado da fronteira, as vias estão muito degradadas. Por falta de transporte, os congoleses já não levam produtos ao mercado de Quimbata.
“Muitos deles entram aqui de mãos a abanar. Já não trazem nada para vender ou trocar. Estão sem dinheiro”, disse André Muanza, o responsável pelo sector do Comércio no município.
Reduzida a presença de congoleses, muitos nacionais não desistem do negócio. Muito cedo, aos sábados, chegam ao local com grandes quantidades de bombó. Outros produtos, como o gergelim, previde, jinguba, feijão, banana e bens industriais diversos também são vendidos no local, em poucas quantidades.

Vendas só aos sábados

A maioria dos vendedores vive na localidade. Outros saem da sede municipal de Maquela do Zombo e da província de Luanda, como Davita Ndongala, vendedor de cintos multicolores. Vive no bairro da Mabor, no Cazenga.
Desempregado, o jovem sentiu necessidade de fazer alguma coisa para garantir o sustento da família (mulher e filho). Incentivado por um amigo, há dois anos que realiza o negócio na fronteira. Compra os cintos em Luanda, no mercado dos Kwanzas. Pela passagem de ida e volta de auto-
carro, de Luanda a Maquela do Zombo, Ndongala gasta 12 mil kwanzas.
“Vendo aqui todos os sábados. Mas fico até segunda-feira para continuar com as vendas na praça do Masseque”, diz o negociante, de 32 anos. Com o dinheiro das vendas, compra muitos litros de tangawissi (bebida extraída do gengibre), que comercializa na capital do país.
O saco de sarapilheira é pe-queno para colocar tanto feijão. Nzongo Maria também não se envergonha de comprar previde e gergelim no mercado, apesar de o seu marido ter fama de ser “grande agricultor” da região de Quimbata.
“O que o meu marido produz só dá para comer. Eu compro tudo isso para vender”, esclarece a mulher, que realiza o exercício há quatro anos.
Três meninas, menores de 12 anos, vendem folhas de matete, utilizadas para forrar a quicuanga. Todos os sábados, elas marcam presença no mercado. Cada feixe custa 500 kwanzas. “Com o dinheiro que ganhamos, compramos cadernos e os lápis”, atiram.
Uma das mais antigas vendedoras do mercado fronteiriço de Quimbata vive no Kimpinda, um bairro próximo da fronteira. Há mais de nove anos que Vela Madalena comercializa ali o bombó. Ela revela que a escola dos seus quatro filhos e todos os problemas de saúde que apresentam são suportados com os lucros do negócio.
Outra vendedora, Júlia Makiesse, vende roupas e chinelas para crianças e adultos, além de cabelo postiço e brinquedos. Vive na sede municipal de Maquela do Zombo e há três anos que realiza negócios na fronteira de Quimbata.
“Compro as roupas na ci-dade do Uíge e, às vezes, em Luanda. Faço o possível para não faltar nada aos meus três filhos”, declara.

Automobilistas facturam menos

No passado, os taxistas facturavam muito mais do que agora. Nos dias que correm, a quantidade de produtos que chega ao mercado é cada vez menor. Os congoleses, que eram os principais fregueses, deixaram de ir às compras. O movimento é muito fraco.
Quimbata apresenta um cenário diferente dos outros mercados fronteiriços, como do Luvo, na província do Zaire, e o de Santa Clara, no Cunene. Não tem nada a ver.
Já está reformado. Um motorista de 73 anos considera-se um homem sortudo. Há três anos, recebeu uma prenda dos filhos, uma viatura de marca Toyota Hilux. O mais velho já não pára em casa. Nos dias em que há mercado na fronteira, Fernando Maconzo transporta pessoas e mercadorias, da vila municipal de Maquela até à fronteira e vice-versa.
Por cada saco de 50 quilogramas de bombó cobra apenas 100 kwanzas. As pessoas pagam 300 cada. “Nem sempre cobro. Às vezes, levo familiares e amigos que me pedem um favor. Quando não há mercado na fronteira, costumo ir ao Quibocolo, onde há uma praça que funciona todos os dias”, conta.
Outro automobilista, Pumba Artur, faz o percurso Maquela/Quimbata todos os dias da semana. O jovem, que diz ter 12 filhos com a mulher com quem vive desde 1990, não fala português. Na língua nacional Kicongo, avança que trabalha há oito anos na via.
“A estrada está boa. Foi muito bem asfaltada. Não tenho problemas com os amortecedores. Circulamos sem grandes dificuldades”, disse, para acrescentar que os passageiros pagam 400 kwanzas. “Pela carga, dependentemente do peso, pagam de 100 a 200 kwanzas”, explicou.

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