Reportagem

Falta de cimento inviabiliza projectos

Arão Martins | Lubango

O aumento gradual do preço do cimento é indicado pela população como factor estrangulador no curso normal das obras, inseridas sobretudo no programa de auto-construção dirigida.

A venda do cimento é o ganha pão para muitas famílias
Fotografia: Arimateia Baptista | Edições Novembro | Huíla

O Governo Provincial da Huíla criou os grandes centros habitacionais  Eiva, com 14 mil hectares, e  Quilemba, com cinco mil hectares,  disse o vice governador provincial da Huíla para o Sector Técnico e Infra-estruturas, Nuno Mahapi Ndala.
No Quilemba, os cinco mil hectares foram subdivididos em 11 unidades de execução e duas foram acauteladas para serem entregues à construção dos projectos de subordinação central e as restantes à autoconstrução dirigida.
É um ganho para a centralidade da Quilemba onde já estão concluídas as obras de oito mil fogos habitacionais, dos 11 mil previstos, para dar apoio ao grande défice habitacional.
Na província da Huíla, com vista a pôr cobro às necessidades habitacionais que a região  vive,  o Executivo  dividiu os programas de construção habitacional em dois subprogramas.
O programa da construção dirigida  tem a participação do Governo Provincial e do Executivo. Está ainda em curso o programa de implantação das centralidades,   de subordinação central. 
A cidade do Lubango continua a ter um défice habitacional muito alto e a preocupação do Governo Provincial é  continuar a trabalhar para criar condições condignas às famílias,  disse Nuno Mahapi Ndala.

 Aumento do preço do cimento
 O preço da venda de cimento no Lubango regista desde finais de Setembro um aumento. O saco de 50 quilos de cimento, que custava 1.250 kwanzas, subiu para 2.100 kwanzas.
A indústria cimenteira tem um papel importante no desenvolvimento mundial. Em todas as obras o cimento está presente pela sua resistência, durabilidade, infinitas possibilidades arquitectónicas. O cimento está presente em obras pequenas, médias e grandes  e é o produto mais consumido no mundo a seguir à água. 
A subida do preço do cimento que se regista na cidade do Lubango   está a causar enormes constrangimentos a população.
Nas casas de venda de cimento verifica-se uma diminuição do produto. Há comerciantes que vendem o saco a 2.100 Kwanzas e 2150 kwanzas. O preço vária em função da localização do posto de venda.
José Daniel é fabricante de blocos, no bairro Nambambe, arredores da cidade do Lubango. Com um saco de cimento produz 40 blocos. Ao adquirir o saco de cimento por 2.100 Kwanzas, perde muito.
Além de blocos, José Daniel produz abobadilhas e vigotas, cujo preço varia em função da dimensão. Para a abobadilha, o cliente gasta 100 kwanzas por unidade. Já o metro da vigota custa 1.200 kwanzas.
Com seis trabalhadores, Feliciana Alexandre é uma empreendedora  conhecida na produção de materiais de construção,  como vigotas, blocos, abobadilhas. Para ela, o preço do cimento já foi mais alto e agora está mais ou menos.
“Quando o cimento estava barato, o metro da vigota estava entre 1.000 e 1.100 Kwanzas. Com o aumento do cimento para 3.500 kwanzas, o preço subiu para 1400 kwanzas, a abobadilha custava 130 kwanzas.
A empreendedora já forneceu material de construção às várias obras que estão a ser construídas no Lubango. “É um orgulho ver muitas casas construídas com material adquirido na minha pequena fábrica de material de construção”, disse com   satisfação.
Luciano André é revendedor local de cimento afirma que a subida do preço do cimento se deveu as dificuldades que os fornecedores encontram para adquirir o produto nas províncias de Benguela e  Cuanza-Sul. “Estamos a fazer muito esforço para ter cimento no Lubango. Os preços sobem e quando assim acontece, temos que ajustar o preço com que é adquirido para termos margem de lucro, o cidadão deve entender esta situação."
João Capuma, outro revendedor de cimento no Nambambe, que tem um contentor para armazenar  800 sacos de cimento, no bairro Nambambe, disse que o saco de 50 quilos estava a ser vendido a 2.100 kwanzas. Segundo ele, antes o preço do cimento variava de 1.100 a 1.500 kwanzas. 
Adelino Cafivela é outro revendedor de cimento no Lubango. Atribui o aumento dos preços do cimento ao desequilíbrio entre a procura e a oferta depois de os revendedores estarem a adquirir o produto a preço mais elevado.

Constrangimentos
Os proprietários de obras no Lubango mostram-se preocupados com a subida gradual do preço do cimento, que é a principal matéria-prima para a construção de uma moradia condigna  mas mostram-se confiantes na mudança do panorama actual.
Os agentes económicos contactados pelo Jornal de Angola afirmaram que o aumento do preço de cimento tem os dias contados, em função do repto lançado pelo Presidente da República na mensagem sobre o estado da Nação, feita na abertura da quarta legislatura da Assembleia Nacional.

O impacto é muito negativo

O aumento do preço do cimento, matéria principal na construção de obras públicas e privadas, fez muitos cidadãos paralisarem a construção da casa própria.
No quadro do programa de autoconstrução dirigida, Manuel Belo, 29 anos, beneficiou de um lote de terra de mil metros quadrados na zona do Tchituno, atribuído pela Administração Municipal do Lubango.
Professor de profissão, Manuel Belo explicou que depois de concluir a base da casa, por causa do aumento do preço do cimento foi obrigado a paralisar a obra. “Com o meu salário, conseguia comprar mais de 70 sacos de cimento, mesmo repartindo com os gastos da casa. Mas com a subida do preço, o cenário alterou. Vou aguardar até que o preço reduza.”
O engenheiro de obras António Cafuile afirmou que o cimento misturado com água e outros materiais de construção, tais como a areia, a pedra britada, o pó-de-pedra, a cal e outros resulta nas argamassas usadas na construção de casas, edifícios, pontes, barragens e outros e o aumento do preço é factor estrangulador no curso normal de qualquer obra.
As características e propriedades desses concretos e argamassas vão depender da qualidade e proporções com que são compostos, mas o cimento é o mais activo do ponto de vista químico.
“Podemos afirmar que o cimento é o principal responsável pela transformação da mistura dos materiais componentes dos concretos e das argamassas no produto final desejado, tais como uma viga, um revestimento e outros”, disse António Cafuile, para acrescentar ser fundamental utilizar o cimento de forma correcta. António Cafuile acrescentou que é preciso conhecer bem as características do cimento e propriedades, para poder aproveita-las da melhor forma possível na aplicação que se tem em vista.
O cimento é composto de clínquer e de adições. “O clínquer é o principal componente e está presente em todos os tipos de cimento e são principalmente elas que definem os diferentes tipos de cimento. O clínquer tem como matérias-primas o calcário e a argila", disse António Cafuile. 
 
Cadeia e contributo nas obras

O processo de aquisição do cimento é constituído por uma cadeia de interesses que vai da compra e transportação ao carregamento e descarregamento, na cidade do Lubango.
A venda do cimento é tida como oportunidade para muitas famílias que ganham o pão nesta actividade.
Um cidadão identificado como António, é motorista de uma carrinha e vive do transporte de cimento.
Em cada saco cobra entre 50 e 100 Kwanzas, dependendo da distância. “Há dez anos  vivo desta actividade e a escassez ou alteração do preço  é factor estrangulador da minha actividade”, confessou.

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