Reportagem

Falta materiais de construção

Samuel António | Luena

A maior parte das obras de construção localizadas na cidade do Luena, capital da província do Moxico, está paralisada devido a falta de materiais de construção, associada com os altos preços praticados por parte dos comerciantes.

O preço do cimento e de outros materiais de construção é muito alto
Fotografia: Daniel Benjamim | Edições Novembro

A situação tem acarretado grandes constrangimentos no seio da população, sobretudo dos jovens que vêem cada vez mais adiados os seus sonhos de ter uma casa própria. 
Na periferia da cidade do Luena, onde estão concentradas a maioria das obras de construção, em vias de abandono, a reportagem do Jornal de Angola  ouviu o clamor de muitos cidadãos que apelam o Executivo a tomar medidas para pôr fim a especulação que se faz sentir na compra dos materiais de construção.
Felisberto Calungulungo, num tom de insatisfação, apontou a situação da falta de materiais de construção como sendo um golpe para todo o jovem que deseja ter casa própria.
Com uma certa tristeza, disse que os preços praticados deixam muito a desejar e contribuem para a desgraça de muitos cidadãos desprovidos de recursos financeiros suficientes para enfrentar tal fenómeno.
O cidadão Felisberto Calungulungo tem uma obra de construção no Bairro Social da Juventude, arredores da cidade do Luena, iniciada em 2013 e que até ao momento não sabe quando vai concluir a tal esperada casa dos seus sonhos. “Sempre pensei em ter uma casa com cobertura de telha, mas a situação actual obrigou-me, como alternativa, a colocar chapas de zinco”.
A exemplo de Felisberto Calungulungo, a nossa reportagem deparou-se com Carlos Chipango, um jovem residente no Bairro Capango, mas com as obras da futura casa há mais de quatro anos paradas no Bairro Sinai Novo.
Carlos Chipango enfrenta os mesmos problemas de preços nos materiais de construção que se verifica em toda a cidade do Luena.
Para ele, os constrangimentos na aquisição dos materiais de construção resultantes da pouca oferta dos produtos no mercado, contraria o plano do Executivo em garantir melhores condições de habitabilidade aos cidadãos.

Compromissos
Se o Executivo, disse, pretende manter o compromisso de ver os seus cidadãos a viverem em habitações condignas, deve subsidiar os preços dos materiais de construção para evitar tantas especulações por parte dos comerciantes.
O jovem, com obras ao limite da viga geral, pretende ver o seu sonho realizado com a construção de uma casa própria e se livrar definitivamente dos aposentos do pai, onde vive com a mulher e filhos.  Carlos Chipango disse que o programa de construção de habitações gizado pelo Executivo não tem sido suficiente para abranger grande número de cidadãos, tendo sublinhado que, a construção de moradias por iniciativa própria do cidadão pode ser uma das medidas para atenuar o défice habitacional ainda existente.
Cidadãos desgastados com os altos preços na compra de materiais de construção no Luena afirmam que a cada dia o poder de compra foge do controlo financeiro do comprador, o que tem originado a interrupção de muitas obras iniciadas. 

Preços muito altos

Um saco de cimento está a ser comercializado neste acima dos 3 mil kwanzas, sem falar do preço das vigas aço (ferro) e de outros materiais complementares. Cada comerciante estabelece o preço que achar conveniente, para tirar alguma margem de lucro.
Domingos Pedro, proprietário de um estabelecimento comercial de venda de materiais de construção, afirmou que os altos preços registados principalmente na compra de cimento, resultam da escassez do produto nos grandes centros comerciais.
Para facturar um camião de cimento neste momento em Luanda ou em qualquer outro ponto do país onde existem fábricas, não tem sido uma tarefa fácil devido a pouca oferta de produto no mercado.
O comerciante lamentou que os constrangimentos começam na aquisição do cimento, devido aos preços praticados a partir das fontes e na transportação da mercadoria, por causa do mau estado das estradas nos troços Malanje/Saurimo  e Saurimo/Luena.
Nos últimos anos, a administração municipal do Moxico distribuiu enormes lotes de terra aos jovens e antigos combatentes, para auto-construção dirigida, mas devido a  fraca capacidade financeira  para aquisição  dos materiais de construção por parte dos  beneficiários,   grande parte destes terrenos  estão entregues à sua sorte.

Jovens são beneficiados

Moisés Patrício é um dos jovens que beneficiou de um terreno em 2015, mas hoje não sabe o que fazer com o pedaço de terra que recebeu, porque os preços actuais de materiais de construção estão muito longe do seu poder de compra.
O jovem professor de 31 anos de idade, recebe como salário mensal de 50 mil kwanzas, valor que  segundo ele, já  não dá para suportar as despesas de um agregado composto por cinco pessoas.  “O que eu ganho nem chega para alimentar a família, se olharmos para os preços actuais”.

  Tomadas novas medidas


Moisés Patrício
defende novas medidas para travar o fenómeno dos preços altos, para que se devolva a esperança de muitos cidadãos, principalmente jovens ávidos de ter uma moradia para viver.
Segundo o que o jornal de Angola apurou, a situação não afecta apenas os particulares, até mesmo algumas obras públicas estão na mesma condição, razão pela qual a nossa reportagem tentou contactar os empreiteiros dessas obras paralisadas, mas sem sucesso.
Noves fora a situação da subida de preços dos materiais de construção, a cidade do Luena continua calma e movimentada. De manhã pode ver-se os estudantes e trabalhadores atravessarem as ruas com alegria, a caminho das escolas e dos locais de tranalho, como constatou a reportagem do Jornal de Angola.  “O importante é que há paz no país. O problema de falta de materiais de construção vai ser superado pelo Executivo. Luena e outros municípios têm zonas turísticas e recebem muitos visitantes. Logo, acredito que a situação vai ser revertida em breve”, disse um jovem, que se identificou por Manuel Cafuta, que é um dos empreendedores.  
Alguns empresários ouvidos pelo Jornal de Angola acreditam na boa vontade do Governo Provincial do Moxico, assim como do Executivo para reverter a situação em todas as vertentes.
“A província é rica e temos muitas formas para arrecadar receitas para os cofres do Estado, logo é preciso que tenhamos estradas em condições, urbanização, água e luz e para isso é bom que os preços dos materiais de construção baixem, enfatizou Manuel Cafuta.

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