Reportagem

Faltam passadeiras e passagens aéreas para peões

Rodrigues Cambala e Neusa Menezes|

Muito sangue continua a jorrar no asfalto. Angola registou no ano passado 4.770 mortos nas estradas, e 15.625 feridos, em consequência de 16.537 acidentes de viação. Metade dos sinistrados nas estradas do país é por atropelamento.

Falta de passagens aéreas e excesso de velocidade estão entre as causas da sinistralidade rodoviária que já causou milhares de mortes nas estradas do país
Fotografia: Rogério Tuti

Os motivos, falta de iluminação e passagens aéreas, excesso de velocidade e condução sob o efeito do álcool.
São inúmeras as vias de Luanda a necessitar de passadeiras e pontes aéreas para os peões não correrem riscos no momento da travessia. Aliás, a capital do país é a que mais acidentes rodoviários registou, 3.723, mais de 1.000 mortes e 2.236 feridos, seguindo-se a Huíla, Benguela e Huambo. Em 2012, as estatísticas contabilizaram 4.636 mortos, 17.050 acidentes e 15.565 feridos.
A Via Expressa, com o surgimento do Zango, das centralidades de Cacuaco, Kilamba e outros bairros construídos fora da projecção das autoridades de Luanda, tem aumentado incessantemente o fluxo de viaturas. A falta de passadeiras em toda a sua extensão tem provocado inúmeros atropelamentos. Os peões atravessam a correr por todo o lado, saltando os separadores centrais.
“Se formos lentos podemos morrer na estrada, porque os carros nunca param para dar prioridade aos peões”, disse Madalena Cruz, moradora no Zango que se preparava para atravessar a Via Expressa.
A construção de uma ponte aérea para peões na Via Expressa, sobretudo para moradores do Zango, é premente e pode reduzir o número de mortes por atropelamento. A entrada da centralidade de Cacuaco também carece de uma passagem aérea. O viaduto que liga Viana a Catete, próximo do posto de Polícia da Brigada Especial de Trânsito precisa com urgência deste tipo de passagens para os peões.
Os moradores da centralidade do Kilamba também correm grandes riscos. Quem sai da estrada da Camama ou pelo Estádio 11 de Novembro, tem de saltar o separador e atravessar a correr. “Quando há polícia ainda conseguimos passar com alguma tranquilidade, mas quando não há o melhor é correr”, disse Manuel Hélder, professor numa das escolas do Kilamba.
As crianças que saem de outros bairros para estudar no Kilamba estão propensas a atropelamentos. Não existe nenhum tracejado de passadeira no asfalto para peões. É impressionante ver agentes da Polícia e cadetes do Instituto Superior da Polícia parados muito tempo na estrada para poderem passar. Na primeira oportunidade põem-se a correr. Igual situação se observa com os alunos e moradores que à entrada do bairro do Patriota procuram chegar ao bairro Progresso.
Na avenida Deolinda Rodrigues as passagens aéreas são insuficientes. Se a intenção é evitar mortes naquela estrada nacional, é urgente construir uma ponte defronte do BCA, próximo do parque de autocarros interprovinciais da TCUL, devido ao fluxo de peões. A mesma necessidade têm os moradores do Palanca, concretamente na zona da FTU, que não conseguem fazer uma travessia em segurança. Muitos automobilista conduzem como se os peões fossem inexistentes, em muitos casos nunca dão prioridade, mesmo nas passadeiras. A estrada principal de Cacuaco, cujas obras vão terminar na zona da Boavista, é uma extensa zona de risco permanente para os moradores. Mesmo na Vila de Cacuaco as pessoas atravessam a correr para atingir o outro lado, numa estrada bastante larga. Na estrada da Samba, apesar de haver tracejado no tapete asfáltico próximo ao INAD, os carros circulam em grande velocidade sem dar tempo aos peões, que lamentam a falta de uma passagem aérea para transitarem com tranquilidade, visando a redução de atropelamentos.
Na avenida Pedro Van-Dúnem as pessoas atravessam defronte do supermercado Kero, na ausência de passagem aérea para peões. Na Ngola Kiluanje, concretamente nas imediações da Cuca, os transeuntes passam em grandes grupos e o engarrafamento é grande porque as pessoas não circulam na berma da estrada e na passadeira. Tal como os peões, os automobilistas dizem que uma redução dos atropelamentos passa pela construção de pontes.

Treze mortes por dia

Os números apresentados pela Direcção Nacional de Viação e Trânsito indicam que morrem por dia nas estradas 13 pessoas, a segunda causa de mortalidade no país. As mortes nas estradas só são superadas pala malária.
Os acidentes do último ano causaram danos materiais avaliados em mais de 15 mil milhões de kwanzas. O director nacional de Viação e Trânsito, comissário Inocêncio de Brito, disse recentemente que as províncias do Bié, Moxico, Lunda Norte, Lunda Sul e Malanje estão a preocupar as autoridades, por terem tido um aumento de acidente no ano passado.
A mudança de direcção irregular e a não cedência de prioridade de passagem são também apontadas como principais causas dos acidentes rodoviários. Os finais de semana, sobretudo sextas-feiras e sábados são os dias em que se registam mais acidentes. A estrada de Viana, Cacuaco, Pedro Van-Dúnem, Samba e a Via Expressa são propensas a mais acidentes motivados por excesso de velocidade e escuridão. A iluminação pública é também um grave problema, sendo necessário responsabilizar as empresas que cuidam da electricidade dessas estradas.

Prevenção rodoviária

Circular nas ruas de Luanda durante a noite, de carro ou a pé, requer muita atenção e prudência. O risco de atropelar e ser atropelado está sempre à espreita, devido à falta de iluminação pública, à condução em estado de embriaguez e excesso de velocidade por parte dos automobilistas. Por esse motivo, a Polícia Nacional vai realizar a Primeira Conferência Nacional sobre Prevenção Rodoviária nos dias 28 e 29 deste mês, em Luanda, sob o lema "Prevenção Rodoviária um Compromisso da Nação".
O coordenador da comissão Nacional de Viação e Ordenamento do Trânsito, comissário Salvador Rodrigues, esclareceu que a iniciativa visa mobilizar e sensibilizar a Nação para esta causa, de modo a reduzir os acidentes rodoviários. Um oficial da Polícia de Trânsito disse ao Jornal de Angola que os acidentes também se devem à falta de prudência de peões, pois muitos atravessam em estado de embriaguez. A falta de iluminação tem provocado choques entre veículos e em obstáculos fixos, atropelamentos e despistes seguidos de capotamentos com danos humanos e materiais.
O comandante-geral da Polícia Nacional, Ambrósio de Lemos, disse na cerimónia de cumprimentos de fim de ano que a sinistralidade rodoviária continua a ser uma preocupação. Ambrósio de Lemos salientou que a Polícia Nacional vai debater na conferência nacional sobre a sinistralidade rodoviária temas como a caracterização da sinistralidade rodoviária no país, educação rodoviária dos jovens e o papel da família, inserção de matérias sobre a educação rodoviária no currículo escolar, infra-estruturas rodoviárias, ordenamento do território e redefinição das vias. Os números estão sempre presentes, entre 24 e 25 de Dezembro do ano passado, foram registados 50 acidentes de viação, dos quais resultaram 17 mortes. Números que a todos devem merecer atenção e análise. A gravidade da situação, continuou Ambrósio de Lemos, exige um melhor e imediato atendimento médico aos sinistrados, bem como o seu controlo e acompanhamento.
Na Primeira Conferência Nacional sobre Prevenção Rodoviária vão estar em discussão temas como cidades ecológicas e ambiente rodoviário, sistema integrado de transportes públicos, soluções para a redução do congestionamento do trânsito, problemática do estacionamento, ambiente rodoviário seguro, entre outros.

Estradas com mais acidentes

As províncias com maior número de acidentes rodoviário têm sido, Luanda, Benguela, Huíla, Bié, Huambo e Cuanza Sul. Na capital, as estradas com mais acidentes são a Estrada Nacional n.º 230 com nove por cento dos acidentes, a Avenida Deolinda Rodrigues, com sete por cento, a Estrada de Cacuaco, com cinco por cento, a da Samba, com três por cento, e a Avenida Pedro de Castro Van-Dúnem, com dois por cento. Dados da Polícia em Benguela, indicam os municípios de Benguela, Lobito, Caimbambo e Bocoio com mais acidentes. Na província da Huíla, Lubango e Matala comandam a lista de sinistros e na província do Bié, os municípios mais afectados são o Cuito, Chitembo, Camacupa e Chinguar.
No planalto central, os municípios mais afectados são Huambo, Caála, Tchicala Tcholoanga e Alto Hama. No Cuanza Sul, as localidades com registo de mais acidentes de viação são Sumbe, Cela, Libolo e Porto Amboim.
Nas estradas nacionais, a polícia diz que os acidentes ocorrem devido ao desrespeito pela observância das regras do Código de Estrada, com maior incidência no excesso de velocidade, a fadiga, a sonolência, a condução sob efeito do álcool, a falta de precaução dos peões e a condução irresponsável de alguns automobilistas e motociclistas.

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