Reportagem

Fazenda Pedras Negras volta a produzir cereais

Manuela Gomes

Até Março de 2018, a importação de cereais em Angola vai diminuir substancialmente, graças à Fazenda Pedras Negras, situada no município de Cacuso (Malanje).

Foram investidos recursos na mecanização agrícola
Fotografia: Eduardo Pedro | Edições Novembro

Numa área de 12.675 hectares, está prevista a recolha de mais de 14 mil toneladas de milho, 2.800 de massambala e 1.250 de soja. Estes produtos, depois de colhidos, tratados e ensacados, vão ser transportados e distribuídos pelos vários mercados das 18 províncias. Desde Setembro de 2016 até ao momento, foram plantados 3.500 hectares de milho, 800 de sorgo (massambala) e 500 de soja. No total, a Fazenda Pedras Negras já tem 4.800 hectares explorados.
A Fazenda Pedras Negras faz parte do lançamento do “Programa Sete Fazendas”, a cargo do Fundo Soberano de Angola (FSDEA), com um investimento de 250 milhões de dólares em diferentes regiões do país, nomeadamente, no Cunene (Manquete), Uíge (Sanza Pombo), Moxico (Caiamgala), Zaire (Cuimba), Bié (Camacupa), Cuando Cubango (Longa) e Malanje (Pedras Negras).
Este investimento visa gerar novas fontes de receita para o Estado angolano, bem como apoiar o desenvolvimento de sectores económicos independentes da exploração petrolífera.
Apesar da instabilidade financeira, o FSDEA vai continuar a investir em ramos e classes de activos específicos para colher receitas durante a retoma do ciclo económico em África.
O investimento agrícola vai permitir ainda aceder aos mercados internacionais das “soft commodities”, reduzir a importação de alimentos e apoiar a diversificação da economia do país, dando maior impulso ao agro-negócio e à industrialização. Pelo facto da agricultura empregar mais de metade da população angolana, o financiamento deste ramo aumenta o rendimento das pessoas ao nível das bases e apoia o surgimento de novas oportunidades para o sector privado na cadeia agro-alimentar.
Até Abril do ano passado, os dados indicavam que Angola produzia apenas 1,8 milhões de toneladas de cereais por ano, contra as 4,5 milhões necessárias para satisfazer o consumo interno humano e animal.
Só para produção de pão, o país precias de 600 mil toneladas de trigo, quantidade importada na totalidade, uma vez que o cereal deixou de ser produzido internamente.
As previsões apontavam para que, até 2017, se atingisse a chapa dos 4,5 milhões de toneladas de milho, massango, massambala, arroz e trigo.
Com todas as condições para a primeira safra, que decorre de Janeiro a Março do próximo ano, a Fazenda Pedras Negras esteve, nos anos anteriores, sob gestão da empresa Gesterra.
Em 2016, houve uma safra experimental de milho proveniente da África do Sul, que serviu para testar a sua qualidade e adaptação ao solo e clima de Angola.
No total, dois milhões, 379 mil e 912 toneladas de cereais foram colhidas na campanha agrícola 2015/2016, com maior realce para o milho, com dois milhões, 238 mil e 456 toneladas, obtendo um excedente de quatro por cento. As populações de Malanje e das restantes províncias vão, a partir do primeiro trimestre do próximo ano, contar com produtos agrícolas em maior escala, com maior qualidade e a baixo preço. Entre estes, estão a farinha de milho, a massambala e a soja, produzidos na Fazenda Pedras Negras.
A forte aposta do Executivo no sector da agricultura para a diversificação da economia, o combate à fome e à pobreza, bem como a redução de produtos do campo importados, foi materializada no investimento e potencialização de fazendas que há algum tempo não correspondiam às necessidades do mercado nacional.
Para cumprir tais objectivos, o Fundo Soberano de Angola disponibilizou 250 milhões de dólares para o desenvolvimento da produção em sete fazendas. Estes projectos são tutelados pelo FSDEA, sob gestão da Quantum Global, fruto de uma parceria entre as partes.
Os investimentos são alocados, sobretudo, em zonas onde a população é de baixo rendimento e depende essencialmente da agricultura familiar.
A Fazenda Pedras Negras, além dos seus vastos campos, tem também uma fábrica com uma tecnologia de última geração, que tem uma capacidade de transformação diária de 12 mil toneladas. O milho colhido na fazenda é levado para três grandes silos para secagem e, em seguida,  transportado para as moagens onde é triturado, ensacado, armazenado e levado para os mercados.

Impacto social

Em termos de impacto social, a Fazenda está de forma progressiva a contribuir para o crescimento do município de Cacuso, particularmente das pequenas comunidades. A administração municipal apoia uma pequena comunidade de pescadores localizada próximo do lago Capanda. Mensalmente, fornece linhas de pesca, redes e outros instrumentos utilizados por pescadores da Cooperativa Cussubal. Domingos Gamba, também conhecido por “Totó”, natural de Malanje, é o representante principal da cooperativa, integrada por 80 associados. Como ele, diariamente, outros pescadores apanham bagre, cacusso e ngoló.
O peixe é vendido em Malanje, Luanda, Lunda-Norte, Moxico e noutros pontos do país. A Cooperativa enquadra 41 “mulheres processadoras” que compram o peixe e fazem a revenda.
Antes do apoio da Fazenda Pedras Negras, a comunidade não tinha acesso à energia eléctrica nem à água potável. Hoje, os habitantes usufruem destes bens e dentro em breve vão beneficiar de um jango onde poderão assistir a programas de televisão.
Domingos Gamba referiu que, antigamente, os habitantes não dispunham de cuidados médicos. Mas desde que começaram a receber apoio da Fazenda, as condições de vida mudaram consideravelmente. Com o dinheiro da venda do peixe, já conseguem pôr as crianças na escola, comprar medicamentos e bens materiais.
A época chuvosa é o período com maior fartura nas redes. Os pescadores estão ansiosos pela chegada do mês de Novembro, para venderem e ganharem mais dinheiro.
Domingos Gamba agradeceu o apoio da Fazenda Pedras Negras e pediu que iniciativas do género não parem, “uma vez que elas surgem para ajudar a reduzir, se não mesmo acabar com a pobreza e a fome”.
O administrador municipal de Cacuso, Caetano da Rita Tinta, felicitou a iniciativa do Fundo Soberano de Angola pelo investimento na zona, porque “é uma mais-valia, não só para a província de Malanje, mas para o país, porquanto vai apoiar e ajudar na segurança alimentar da população”.
O município está aberto a todo o tipo de investimento.
Cacuso é um município potencialmente agrícola. Tem 6.859 quilómetros quadrados e cerca de 101 mil habitantes. É limitado a Norte pelos municípios de Lucala, Samba Caju e Calandula, a Este pelo município de Malanje, a Sul pelos municípios de Mussende e Libolo, e a Oeste pelos municípios de Cambambe e Cazengo. Actualmente, tem uma fábrica de álcool proveniente do açúcar, que gera energia eléctrica, a primeira instalada em Angola.
Além da população angolana, existem habitantes brasileiros, chineses, portugueses, indianos, filipinos, cubanos e outros de origem árabe.
Uma escola profissional voltada para a área da indústria está a formar pessoas para diversas áreas e outra, designada Palanca Negra, ensina artes marciais a jovens angolanos.

Força de trabalho 

Todos os trabalhadores da Fazenda são angolanos. Ela emprega 70 trabalhadores, mas o objectivo é aumentar para 500. São jovens que desde cedo aprenderam com profissionais a trabalhar nos campos e em áreas de serralharia, mecânica, logística, higiene e segurança no trabalho, entre outras.
A Fazenda emprega jovens da província de Malanje que saíram de escolas com  formação teórica.
A vida da família de Vieira Nzamba, que trabalha como operador de máquinas desde Novembro de 2016, pai de dois filhos, mudou em termos de assistência alimentar, vestuário e escolaridade desde que entrou para a Fazenda Pedras Negras. O operário agrícola sente-se orgulhoso por ter conseguido emprego na sua província. “Assim não vou precisar de me deslocar até outras localidades para trabalhar e poder acompanhar a minha família. Desde que aqui cheguei, já aprendi a manejar as máquinas, sem precisar de ir para uma escola ou um centro profissional”, explicou.

Fundo Soberano

O Fundo Soberano de Desenvolvimento de Angola (FSDEA) é uma instituição do Estado angolano criada de acordo com as normas internacionais de governação e visa diversificar gradualmente a sua carteira de investimentos através de alocações de capital a vários ramos de negócio e classes de activos, em conformidade com a sua política de investimento.
Ao privilegiar investimentos financeiros de longo prazo, esta instituição desempenha um papel importante na promoção do desenvolvimento.
O Fundo investiu no primeiro trimestre de 2016 um total de 4,56 mil milhões de dólares. Até Março desse ano, tinha quase 60 por cento do portfólio alocado a fundos de “private equity” (equidade privada), que se dedicam a investimentos nacionais e regionais.
Os destaques da actividade de investimento no fim do primeiro trimestre de 2016 foram: o valor total dos activos presentes no portfólio é de 4,56 mil milhões; as alocações em activos de “private equity” totalizam 59 por cento do portfólio e destinam-se a investimentos directos em Angola e nos países da África Subsariana; os títulos e valores mobiliários presentes no portfólio consistem em obrigações, acções e fundos de cobertura, avaliados em 1,84 mil milhões de dólares.
O investimento na actividade agrícola dá receitas estáveis e de longo prazo e diversifica as alocações em activos tradicionais do portfólio. A concessão de 250 milhões de dólares, prevista para este ramo pelo FSDEA, deve-se a este propósito.
A crescente classe média dos países de economia emergente, a subida dos níveis de rendimento e a expansão das zonas urbanizadas tende a aumentar a procura de alimentos e os preços das “soft commodities”.
A longo prazo, o FSDEA e outros investidores deste ramo vão alcançar elevadas receitas líquidas.
O Ministério das Finanças autorizou o FSDEA a adoptar as normas internacionais de relato financeiro (IFRS) nos seus registos contabilísticos e demonstrações financeiras até 2017.
À luz do seu compromisso com as boas práticas e a transparência, o FSDEA sublinha que se serve desta oportunidade para efectuar uma adopção célere, que visa permitir que as demonstrações financeiras do exercício de 2015 estejam compatíveis com as IFRS.
As normas internacionais de relato financeiro são consideradas as mais rigorosas na apresentação de resultados financeiros a nível mundial. A transição do Plano Contabilístico das Instituições Financeiras (CONTIF) para o IFRS vai permitir ao FSDEA expor os dados relativos às suas operações e investimentos com mais detalhe e rigor do que anteriormente.
O FSDEA pretende juntar-se aos primeiros aderentes das IFRS em Angola. O facto de o CONTIF e o Plano Geral de Contabilidade (PGC) limitarem a demonstração do escopo da estratégia, investimento e receitas da instituição é uma preocupação, porque o Fundo pertence a todos os angolanos e a sua administração deve comprometer-se com os níveis mais elevados de transparência e boa governação.
Em 2014, o Fundo concluiu a constituição de organismos de investimento colectivo, dedicados à “private equity” em ramos de elevado crescimento, das infra-estruturas, imobiliário, agricultura, silvicultura, saúde, mineração e capital estruturado na região Subsaariana.
Os investimentos do Fundo Soberano permanecem inactivos pela volatilidade dos mercados internacionais e visam apoiar a estratégia de diversificação da economia nacional. O FSDEA é um dos instrumentos do Executivo dedicado à catalisação do crescimento, desenvolvimento sustentável e redução da dependência da economia ao sector petrolífero.
Actualmente, a alocação de 2,7 mil milhões de dólares à actividade de “private equity” consiste em capital social realizado nos sete organismos de investimento colectivo, certificados e regulados pela Comissão de Serviços Financeiros das Maurícias, para desenvolver oportunidades de negócio em ramos estratégicos para o desenvolvimento de Angola e da região envolvente.
Estes sete organismos de investimento colectivo (fundos) reflectem o objectivo de gerar rendimentos para Angola a longo prazo e beneficiar os habitantes através da preservação e criação de património público para as gerações actuais e futuras.

Carteira de investimento

Apesar da auditoria anual independente das demonstrações financeiras do FSDEA de 2015 estar em curso, destacam-se os principais desenvolvimentos da sua carteira de investimento durante o ano transacto:
n 19% dos 1,1 mil milhões de dólares do Fundo de Infra-estrutura estão investidos em projectos localizados em Angola e no Quénia.
n 23% dos 500 milhões de dólares do Fundo Imobiliário estão investidos em projectos hoteleiros localizados em Angola e na Zâmbia.
n 10% dos 220 milhões de dólares do Fundo de Silvicultura estão investidos numa concessão de larga escala de eucaliptos em Angola.
n 2% dos 245 milhões do Fundo de Mineração estão investidos num projecto mineiro na Mauritânia.
n 12% dos 190 milhões de dólares do fundo de capital estruturado estão investidos num activo localizado na África do Sul.
As grandes alocações em Angola, previstas para os fundos da Agricultura e Saúde, com um capital total de 465 milhões, começaram em 2016.
Dos 2,7 mil milhões de dólares de património líquido alocado aos fundos de capital de risco, 407 milhões já foram aplicados em investimentos directos no país e na região Subsaariana de África.O período de investimento do património líquido destes fundos de capital de risco é de três a cinco anos, ao passo que a duração da alocação pode ascender a dez anos.
O FSDEA prevê que a alocação prevista de três mil milhões de dólares de património líquido para os sete fundos de capital de risco vai estar totalmente investida em 2020.
O Fundo dedica até 7,5 por cento do seu capital a projectos de desenvolvimento social que têm sido fundamentais para o apoio sócio-económico de angolanos. A Missão Social do FSDEA apoia o trabalho de várias organizações não governamentais nas áreas da formação profissional, auto-sustento, acesso a água e a serviços de saúde.
O FSDEA dedica 156 milhões de dólares a 16 projectos que abrangem dez das 18 províncias do país. Este apoio é essencial para o trabalho de organizações como a World Vision, People in Need, Medici con l’Africa, Globethics, African Innovation Foundation e muitas outras nas zonas rurais e suburbanas do país.

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