Reportagem

Fertilizantes para agricultura

Yara Simão |

A produção de fertilizantes em dois projectos de exploração e beneficiação de rocha fosfática tem início em 2019, com uma estimativa de 1.130.000  toneladas por ano e uma receita bruta anual de 171 milhões de dólares.

Com a exploração de fosfatos em Cabinda e Zaire o país deixa de importar fertilizantes
Fotografia: Paulo Mulaza

A estratégia do Executivo para o sector da Geologia e Minas a curto e médio prazos tem como principais objectivos contribuir para criação de emprego, transferência de “know how”, diversificar as fontes de receitas fiscais e aumentar as receitas cambiais.
Para atingir estes objectivos, foi decidido acelerar a implementação dos projectos de exploração mineira constantes da carteira de investimento, mediante um maior envolvimento do Estado, bem como criar pólos de desenvolvimento mineiro nas zonas em que a investigação do Planageo revelar grande potencial geológico-mineiro.
A exploração de rocha fosfática e a sua transformação em fertilizantes fosfatados é um objectivo do Ministério da Geologia e Minas para aumentar as receitas cambiais do país.
A construção de infra-estruturas nas minas de fosfato do Projecto Integrado de Exploração e Transformação de Fosfato do Lucunga, na província do Zaire, e do Projecto de Exploração e Beneficiamento de Fosfato de Cácata, na província de Cabinda, começa em 2017, prevendo-se que a exploração tenha início no princípio de 2019.

Fosfato no Zaire

O Projecto Integrado de Exploração e Transformação de Fosfato do Lucunga abrange duas áreas na província do Zaire, estando a concessão localizada no município do Tomboco, área de Lucunga-Quidonacaxa. A unidade fabril fica localizada no Pólo de Desenvolvimento Industrial do Soyo. O projecto será implementado gradualmente com a produção inicial de farinha fosfatada e de fertilizante granulado para o mercado interno, e de concentrado fosfatado calcinado para exportação.
O fosfato foi descoberto na província do Zaire há mais de 100 anos. Os depósitos no rio Lucunga foram descobertos pelos serviços de geologia e minas de Angola nos anos 50 do século XX, usando os dados de um levantamento geofísico aéreo radiométrico realizado pela Hunting Geophysics. No início dos anos 70, foram efectuadas escavações.
Em 1979, a Bulgargeomin foi contratada pelo Governo angolano para elaborar um estudo de viabilidade da área e efectuou nos dois anos seguintes perfurações e estudos tecnológicos. Foram recolhidas 1798 amostras, das quais 1290  provenientes da campanha de sondagem por AirCore e 508 por Trado, que foram enviadas para laboratórios sul-africanos, que efectuaram ensaios sobre os principais óxidos e os elementos residuais de interesse.
Os resultados das perfurações, incluindo registos e recuperação de amostras, foram incorporados numa base de dados, que foi utilizada para gerar um modelo informático de filões e uma estimativa dos recursos.
Em termos de época geológica, os depósitos de fosfatos na concessão do Lucunga são sedimentares do Eocénico, entre 34 a 56 milhões de anos, que foram desgastados no Pleistocénico (0,012-2,58 milhões de anos) e transportados a pequenas distâncias pelos ribeiros locais e posteriormente moldados por processos cársicos. O processo natural forma um filão relativamente pouco profundo, coberto por areias e sedimentos não consolidados do Pleistocénico tardio (1,8-2,58 milhões de anos).
 A exploração vai ser a céu aberto em duas frentes. A frente Norte, com uma extracção estimada de 584.000 toneladas por ano de minério de alto teor, e a Frente Sul com uma extracção de 2.274.000 toneladas por ano de minério de baixo teor. Em conjunto, vão produzir cerca de 330 mil toneladas de fertilizante fosfatado por ano.

Desminagem

Actualmente, decorrem trabalhos de desminagem das estradas de acesso à área de exploração e da própria concessão. Até ao momento, já foram inspeccionados 27.400 m2, sendo 20.000 do acampamento, 5.000.00 da unidade fabril e 2.400 do corredor de acesso aos blocos a explorar, sob a responsabilidade da Sala Operativa da Comissão Executiva de Desminagem.

Infra-estruturas

Na concessão, existe  uma área de 36.000 m2 destinada a infra-estruturas de armazenagem de matérias-primas para exportação e uma área adicional de 1.600 m2 para a instalação de equipamentos no Porto Comercial do Soyo.
Está prevista a assinatura de um acordo comercial com a Angola LNG  para o desenvolvimento de operações de transbordo dos navios ancorados no Canal Pululu, no âmbito das actividades do projecto.
A mina de Lucunga e a área consignada no Pólo de Desenvolvimento Industrial do Soyo vão receber energia eléctrica a partir do Nzeto.
A mina vai consumir 10.450 m3 de água por dia,  no processo industrial, e receber 300 m3 de água potável por dia. O Pólo de Desenvolvimento Industrial do Soyo receberá  305 m3 de água por dia para a indústria e 41 m3 de água potável por dia.
Para a abertura de estradas e dos acessos aos blocos, vão ser utilizados buldozers e moto-niveladoras. Estes equipamentos serão utilizados também na remoção de material sem interesse comercial a ser depositado em paióis apropriados para a reabilitação ambiental.
A remoção de material estéril, bem como o seu depósito, serão feitos com retro-escavadoras.
O minério extraído será transportado para as lavarias em camiões. Lucunga terá uma capacidade de processamento anual de 2.856.061 toneladas de minério empolado, sendo 80 por cento extraído e transportado da frente Sul e o restante 20 por cento da frente Norte.
A unidade fabril de calcinação com gás natural liquefeito vai receber anualmente 580 mil toneladas de concentrado de fosfato, sendo 480 mil destinadas ao mercado externo.
As restantes 100 mil toneladas vão alimentar a unidade fabril de granulação. A sua mistura com ureia e KCl origina o fertilizante NPK, para comercialização interna. As quantidades podem ser aumentadas em função das necessidades do mercado nacional.
O projecto tem grande impacto no PIB (Produto Interno Bruto), com o fim da importação de fertilizantes, a criação de um mercado interno de fertilizantes e a exportação desse produto.
O investimento industrial tem ainda efeito em áreas geográficas localizadas fora dos centros urbanos, com a criação de emprego e a implantação do Pólo de Desenvolvimento Mineiro do Lucunga.

Postos de trabalho

A primeira fase de implementação do projecto vai criar 250 postos de trabalho e mais 50 posteriormente. Empresas locais de prestação de serviços serão contratadas para apoiar as actividades que não estão ligadas directamente à exploração industrial. A contratação de serviços no exterior do país só vai acontecer quando não houver oferta local.
No tocante aos recursos humanos, existe o compromisso de garantir a progressiva substituição da mão-de-obra estrangeira por trabalhadores nacionais, através de programas de formação profissional e transmissão de “know-how”.

Investimento

O investimento inicial do projecto para despesas de capital e encargos financeiros é de 132.500.000 dólares norte-americanos, para ser aplicado em dois anos. Em  2017, a primeira tranche ascende a 64.211.538 e o remanescente é disponibilizado em 2018.
Do total do investimento, 67,7 por cento será com recurso a financiamento e 33,3 por cento representa capital próprio a ser aplicado na implementação do projecto.
Estima-se que serão arrecadados já em 2018 perto de 76 milhões de dólares, estimando-se um incremento médio anual de receitas na ordem de 40 por cento.

O fosfato em Cabinda


O Projecto de Exploração e Beneficiamento de Fosfato de Cabinda está localizado em Cácata, a 80 quilómetros da capital da província, e envolve a pesquisa, exploração e comercialização de fertilizante fosfatado para o mercado nacional e exportação.
Actualmente, amostras de rochas de Cácata estão a ser examinadas em laboratórios no Canadá, com vista à elaboração de um estudo de viabilidade técnica, económica e financeira, e de impacto ambiental.
O investimento previsto para a exploração do projecto Cácata está calculado em 114 milhões de dólares norte-americanos e deve criar 200 novos postos de trabalho.
A actividade industrial terá uma contribuição positiva na balança de pagamentos e na criação de emprego em áreas geográficas localizadas fora de centros urbanos.
A mina de fosfato de Cácata possui um potencial de 393 MT, das quais 129,40 MT indicadas, 263,70 MT inferidas, com teores de 9,2 por cento de P2O5, com valor limite de 5 por cento de P2O5 e reservas provadas de 16,70 M, com um teor de aproximadamente 24,6 por cento de P2O5, e vai produzir cerca de 800.000 toneladas de fertilizantes por ano.
O arranque da construção da mina está previsto para 2017, depois de estarem concluídos os estudos de viabilidade técnica, económica e financeira, e de impacto ambiental. Antes da construção do empreendimento mineiro, prevista para dois anos, vai ser necessário realizar a desminagem da área envolvente.
A apresentação do projecto de exploração de fosfatos em Cácata, a 80 quilómetros a Nordeste de Cabinda, foi feita recentemente na presença do ministro da Geologia e Minas. A fase de exploração começa em 2019.
Para a implantação do projecto vão ser executadas obras de reabilitação das vias rodoviárias, de modo a facilitar a circulação dos meios de transporte do fosfato até ao porto de águas profundas do Caio Litoral para exportação.

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