Reportagem

Fim da odisseia de pescadores

Alberto Coelho | Cabinda

Acompanhados pelo vice- cônsul geral de Angola em Ponta Negra (República do Congo Brazzaville), Celestino Fernandes, e pelo segundo secretário da Embaixada de Angola no Gabão, Laércio David, os pescadores angolanos cruzaram o posto fronteiriço de Massabi, que separa Cabinda e Ponta Negra, as 11 horas e 40 minutos e foram recebidos pela administradora municipal de Cacongo, Margarida Issaco Barros.

Pescadores relatam momentos de medo e muita ansiedade
Fotografia: Rafael Tati | Edições Novembro

Depois de receberem as boas vindas, no Massabi, "os homens do mar" percorram 90 quilómetros de estrada até a sede do Governo Provincial, onde foram recebidos pelo vice-governador para a área  Política e Social, Alberto Paca, em representação do governador provincial.
Perante os representantes das missões diplomáticas angolanas no Gabão e em Ponta-Negra, o vice-governador desejou aos pescadores bom regresso à terra natal e ao convívio dos seus familiares e amigos que ficaram preocupados com o seu desaparecimento.
Alberto Paca disse que a população da província ficou consternada com a situação mas, "também esperançosa que alguma sorte nos batesse a porta  e que estivessem vivos, aguentando todas as adversidades que o mar oferece."
"As autoridades angolanas preocuparam-se bastante com o vosso desaparecimento. O vosso regresso representa uma grande satisfação, um alívio e uma alegria para todos. O importantes é estarem vivos  e retomarem as vossas vidas juntos das famílias que também sofreram muito com o vosso desaparecimento", relaçou o governante. Alberto Paca animou os pescadores e incentivou-os a praticar com mais responsabilidade as suas tarefas, sobretudo no que se refere as condições técnicas das embarcações e aos meios indispensáveis à actividade de pesca.
"São ossos do ofício, cada um com a sua profissão há-de encontrar sempre um acidente e agora têm de ter um pouco mais de cuidado. É  um susto grave que tiveram para a vossa vida, para a família e para o país, que, felizmente, terminou bem e estamos todos satisfeitos," referiu.
Alberto Paca garantiu apoio do Governo Provincial de Cabinda em relação  à situação de saúde dos mesmos, devido ao longo período que ficaram privados de alimentação e de água e que viveram uma situação dramática.

Os dias da  odisseia
Passavam já das doze horas do dia 30 de Outubro do presente ano quando Emílio Mavungo, 48 anos, Sebastião Simba, 54, Mateus Buéia, 37, Tomás Ndongui, 32, Casimiro Luemba, 33, e António Púcuta, 37,  embarcaram para mais uma jornada de pesca como era habitual.
 Zarparam da baía de Cabinda numa pequena embarcação do tipo chata, de fabrico artesanal denominada Ismael e registada na Capitania do Porto de Cabinda com a matrícula CPC-1054.
Percorreram milhas e milhas cerca de 14 horas até chegar ao destino próximo do município do Soyo, província do Zaire. Passavam já das duas horas de madrugada do dia seguinte.
Foram cinco dias de intensa pesca. O peixe "picou" bem, na linguagem dos pescadores e as quantidades eram já satisfatórias. Assim, na tarde de sábado, 4 de Novembro, havia que empreender  o processo de regresso.
Os pescadores contaram a história na primeira pessoa à reportagem do Jornal de Angola. Disseram que, as 23 horas do dia 4 de Novembro, quando já preparavam a viagem de regresso, o motor de popa de 40 cavalos recusou a responder aos impulsos dados a partir da alavanca de ligação. Todas as manobras foram feitas para pôr a máquina a trabalhar, mas nada. O esforço feito para superar a avaria do motor foi em vão até a manhã do dia seguinte, domingo. Como o azar nunca vem só, as 22 horas de domingo começou a chover com alguma intensidade. A chuva era  acompanhada de uma forte ventania. A força do vento e a correnteza das águas, em grande medida por culpa da corrente fria de Benguela e do rio Zaire, a pequena embarcação de madeira foi arrastada para o alto mar, sem que os seus ocupantes dessem por tal.
Na manhã de segunda-feira, os "homens do mar" aperceberam-se de que estavam distante do local onde haviam ancorado a embarcação. Fizeram subir a âncora e esticaram a lona à frente da embarcação para que o vento os arrastasse para a beira. "Essa manobra não deu certo", explicaram.
Remaram durante dias sem sucesso. À medida em que os dias iam passando, a esperança de verem terra firme se esfumava. Foram perdendo forças para continuarem a remar. Deixaram-se levar a belo prazer do vento e da corrente das águas. A embarcação foi derivando no sentido Sul/Norte, sem parar.
Depois de uma semana à deriva, os mantimentos que levavam acabaram, restando apenas cinco quilos de fuba. "Economizamos a fuba ao máximo que pudemos. Cozinhávamos um quilo por dia, o que deu para enganar o estômago durante mais alguns dias", disse
Na segunda semana, a odisseia no alto mar parecia não ter fim. Quer a comida, quer a água acabaram. Alguns elementos começaram a padecer de anemia. Ficaram desidratados devido à falta de água. Daí começaram a consumir a própria urina. Foram dias tristes, perderam a esperança de voltar a ver os seus familiares e os amigos. A morte estava diante deles. Na terceira semana, a chata continuava à  deriva, acompanhando o sentido da correnteza das águas.

                                                                      A esperança renasceu

No dia 22 de Novembro, segundo nos contou Mateus Buéia, o porta-voz do grupo, a esperança dos pescadores renasceu porque a sorte quase lhes bateu à porta.
"Eram 16 horas. Estávamos a dormir e quando me despertei vejo um navio a passar. Acordei os demais. Gritamos e acenamos tudo quanto tínhamos, pedindo auxílio. O barco aproximou-se, explicamos a nossa situação ao capitão e pedimos clemência para que nos ajudasse. Infelizmente recusou, manobrou o navio e zarpou."
A frustração voltou a tomar conta dos pescadores. Derivaram mais algumas milhas e, para o seu espanto e alento, as 15 horas do dia 23 de Novembro: "terra à vista". Depois de quase um mês a flutuar no alto mar, outro azar para os pescadores. A  80/100 metros da costa uma onda gigante embate contra a embarcação, destroçando-a por completo. Para não morrerem na praia, como se costuma dizer, ganharam coragem, retemperaram energias e com as poucas forças que ainda tinham nadaram para a costa. "Por sorte estávamos com os salva-vidas e com as forças que Deus nos deu, nadamos até a costa", contou emocionado ao JA Mateus Buéia.
Já em terra firme,  os seis pescadores foram logo interpelados pelos guardas do Parque Nacional do Loango que os informaram que se encontravam na região de Ogooué, Gabão.
Os pescadores agradeceram o apoio que receberam das autoridades do Parque do Loango que se resumiu, numa primeira fase, em alimentos e roupas. De Ogooué, os pescadores foram levados a Porto-Gentil de onde seguiram de navio para Libreville.

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