Reportagem

Fragilidade na luta contra as drogas aumenta o número de consumidores

Roque Silva

Petra Joaquim, moradora da cidade do Sequele, queixa-se, com frequência, do cheiro forte de liamba que invade, sobretudo à noite, o seu apartamento. O problema não é de hoje.

Fotografia: Edições Novembro

Quando não consegue suportar o cheiro, que chega com mais intensidade ao seu quarto, refugia-se no quarto de um dos filhos, onde, às vezes, dorme até ao dia seguinte.

Petra Joaquim, de 47 anos, pensava que a queima de capim estivesse na origem do cheiro que invade o seu apartamento, porque não conhecia o cheiro característico da liamba, a droga mais consumida no país devido à facilidade com que é obtida.
A mulher ficou apavorada quando soube de vizinhos que o cheiro é, afinal, resultante do consumo de liamba, por adolescentes e jovens da cidade do Sequele, uma nova urbanização do município de Cacuaco habitada desde 2013.
“Não tenho sossego porque se fuma em direcção à janela da minha suite”, lamenta Petra Joaquim, que alerta para a necessidade de reforço do combate ao consumo e tráfico de drogas na cidade do Sequele, onde, na sua opinião, existe um “mercado de droga a céu aberto.”
O relato de Petra Joaquim é parecido ao de mais moradores com quem o Jornal de Angola chegou à fala, um dos quais, um senhor da terceira idade, que bateu, por coincidência, à porta do Jornal de Angola, para pedir que se denuncie o consumo desenfreado de drogas na cidade do Sequele, um problema que considera grave e que precisa de uma resposta inteligente das autoridades administrativas e policiais do Distrito Urbano do Sequele.
No Sequele, a droga nunca esteve escondida. O acesso à liamba está à mão de semear e o consumo é feito totalmente a céu aberto, mesmo ao lado de vigilantes de empresas privadas de segurança.
Operações policiais são realizadas, mas acabam por não resolver o problema, razão pela qual habitantes defendem a instalação de câmaras de videovigilância na cidade do Sequele, para inibir condutas criminosas.
“Se não houver um esforço conjugado, os traficantes de droga vão tomar conta da cidade do Sequele”, admite o morador João de Sousa, perplexo por saber que “até miúdos já fumam.”

Vigilância policial
Os pontos de venda são vários, alguns dos quais conhecidos da Polícia, na sequência do trabalho de inteligência policial e de denúncias de moradores. Porém, a esperteza de alguns vendedores de drogas na cidade do Sequele tem “contornos cinematográficos”, por alguns fazerem posição de “vigia”, com o objectivo de alertar sobre uma eventual presença policial, um facto que está também na origem do reduzido número de apreensões de droga e de detenções de supostos traficantes.
Uma fonte policial, vinculada a uma das esquadras do Distrito Urbano do Sequele, reconhece a gravidade do problema e confirma que a liamba é a droga mais consumida na cidade do Sequele, onde entra em pequenas quantidades, uma táctica que visa enganar a vigilância da Polícia, que não consegue ter um controlo eficiente de todo o espaço geográfico da cidade do Sequele por limitações de meios técnicos e humanos.
A fonte não confirma se o comércio de drogas na cidade do Sequele é resultante da existência de uma estrutura organizada, possibilidade que não descarta e que está dentro da linha de investigação das autoridades locais.
Embora não tenham sido feitas até hoje apreensões de drogas e detenções de grande envergadura na cidade do Sequele, a fonte admite, com recurso a informações de que dispõe, a presença, entre os traficantes, de moradores, alguns dos quais monitorizados, há já algum tempo, por forte suspeita de envolvimento no comércio de drogas.
O único caso relevante recordado pela fonte é a detenção, este ano, de uma mulher que, a partir da sua moradia, no bairro Vila Verde Cativa, controlava o tráfico de droga na cidade do Sequele, por via do recrutamento de “passadores de drogas”, entre os quais menores, que faziam inclusive a venda de pequenos sacos de liamba junto a escolas existentes na nova urbanização do município de Cacuaco.
A fonte ligada à Polícia Nacional assegura que, depois da detenção da mulher, a venda de liamba junto a estabelecimentos escolares desapareceu, uma vitória que se procura consolidar com a presença regular de agentes à paisana.

Flagrante delito
Uma fonte do Serviço de Investigação Criminal (SIC) revela que os indivíduos que mais se envolvem com droga, no Distrito Urbano do Sequele, cuja sede é a cidade do Sequele, são da faixa etária dos 15 aos 27 anos, de ambos os sexos.
De acordo com a fonte, indivíduos da faixa etária mencionada têm passagem regular por esquadras policiais por posse, consumo e tráfico de drogas, no Distrito Urbano do Sequele, sobretudo na sede distrital.
A fonte vinculada ao SIC adianta que indivíduos da faixa etária dos 15 aos 19 anos são os mais problemáticos, por serem reincidentes, encontrando-se na mesma condição também raparigas.
Os casos que chegam às duas esquadras da cidade do Sequele são de indivíduos detidos, em flagrante delito, por consumo ou posse de droga, alguns dos quais resultantes de denúncias de moradores.
A maioria dos detidos é colocada em liberdade, pelo Ministério Público, por ser inimputável, refere a fonte do Serviço de Investigação Criminal, que critica a atitude proteccionista de pais e encarregados de educação por acobertarem educandos que entram em conflito com a lei.
“Todos os adolescentes do Sequele com problemas com a justiça, por conta do uso de drogas, têm família. Alguns vivem com os pais e outros com tios, avós ou irmãos, mas estes muito pouco têm feito para inverter o quadro”, acentua a fonte do SIC, que diz haver familiares que se dirigem com arrogância às esquadras depois de serem informados da retenção de educandos por terem entrado em conflito com a lei.

Consumo de liamba é feito a qualquer hora

Joaquim Nataniel, morador do Bloco 8, confirma que o cheiro da liamba, às vezes, o impede de dormir, por ser muito forte, sendo este apenas um pormenor da preocupação que tem manifestado, derivada da certeza de que os traficantes e os consumidores são uma má influência.
“O que mais me preocupa é a segurança das crianças”, acentua Joaquim Nataniel, que confirma a veracidade do relato de Petra Joaquim, apesar de viverem em blocos diferentes, de que o “consumo de liamba é feito a qualquer hora do dia.”
Carlos Leitão, um outro morador abordado pelo Jornal de Angola, critica a Polícia Nacional, por, no seu entender, ser fraco o patrulhamento policial, na cidade do Sequele e nos bairros desordenados circunvizinhos.
Carlos Leitão, que é membro de uma das comissões de moradores da cidade do Sequele, afirma que o combate ao tráfico e consumo de drogas é insuficiente, daí temer por um aumento do número de assaltos ou de outros tipos de crimes, porque o “consumo de drogas eleva o índice de criminalidade.”
Júlia Camata é incisiva quando faz alusão ao comportamento de alguns pais e encarregados de educação, aos quais lança uma crítica: “parece-me que alguns pais desistiram dos filhos, porque estes ficam mais tempo na rua a aprender a cometer actos ilícitos.”
A moradora acrescenta: “eu e algumas vizinhas fizemos várias participações à Polícia, mas, até hoje, há meninos a fumar debaixo dos edifícios, sendo, por isso, uma má influência para as nossas crianças”, lamenta Júlia Camata.

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