Reportagem

Garantido o betão para obras

Kumuênho da Rosa |

Com o fim da guerra, em Abril de 2002, a recuperação de infra-estruturas para o relançamento da economia era uma necessidade incontornável. O acordo de financiamento com a China permitiu reconstruir grande parte dos edifícios, escolas e hospitais, estradas e pontes.

 

Assegurado o fornecimento regular de materiais de constução de qualidade às grandes obras de engenharia civil
Fotografia: Santos Pedro

A rede ferroviária foi recuperada, portos e aeroportos reconstruídos ou construídos de raiz, enfim, o país voltou a contar com muito mais do que as infra-estruturas que não haviam escapado ao manto destruidor da guerra.
Praticamente sem indústria e com uma economia estagnada, a reconstrução envolveu não só a importação de mão de obra, mas também de materiais de construção. Em praticamente toda a extensão do território havia obras de construção civil. Os registos do Conselho Nacional de Carregadores confirmam que durante longo período chegou-se a importar tanto de alimentos e de medicamentos, como de materiais de construção.
Para suportar a dinâmica do canteiro de obras em que o país se transformou após a guerra, houve necessidade de se importar praticamente tudo. Desde o parafuso ao saco de cimento. Boa parte das obras que temos hoje, fruto das circunstâncias, tem um elevado percentual estrangeiro. Nalguns casos a participação nacional chegou a resumir-se à mão de obra.
Mas hoje o quadro é bem diferente. Muitos dos investimentos feitos nessa altura começaram a dar resultados e hoje algum material usado na construção civil foi riscado da lista de necessidades de importação. O cimento é um exemplo. A indústria cimenteira funciona  e há produção suficiente. Só em casos muito limitados é que se admite a importação desse produto.
Mas as necessidades do construção civil não se resumem ao cimento. A nossa reportagem constatou isso mesmo na zona da Caop Velha, município de Cacuaco, numa zona afastada onde emerge um gigantesco complexo industrial, que se lança no desafio de economizar tempo e reduzir custos nas grandes obras públicas, mas também em projectos privados de menor dimensão.
O pólo industrial de construção e cerâmica, que ocupa uma área de cerca de 200 mil metros quadrados, recebeu o nome de Concera. O projecto começou em 2007, mas levou anos até dar o ar da sua graça ao produzir blocos de betão e outros materiais com as características exigidas para a construção de edifícios públicos e grandes obras de engenharia, como pontes, lancis e estradas.
Na Concera são produzidos mais de 13.000 blocos por dia com dimensões de 12x20 centímetros, recomendáveis para a construção de residências e betão destinado à separação de diferentes superfícies ou execução de paredes simples e duplas, exteriores ou interiores, de edifícios industriais, zonas comerciais, naves, caves, armazéns e muros. A construção de pontes e viadutos com tabuleiros de pré-moldadas e lajes concretas no local completam a oferta.
Fruto de grandes investimentos em tecnologia e infra-estrutura, a Concera tornou-se fonte de referência das grandes obras e projectos de construção civil. Daqui parte, em camiões, betão pronto para qualquer zona da província de Luanda, Bengo e arredores.
O administrador da Concera, Pércio dos Reis, diz que o projecto está ainda em expansão. Em rigor, afirma, é um conglomerado de empresas privadas, situadas num único espaço industrial, o que é absolutamente inovador.
Para a construção do pólo industrial, aquisição e montagem dos equipamentos foram investidos até agora cerca de 25 milhões de dólares. Os gestores do projecto esmeram-se para que o valor do investimento se reflicta no rigor do serviço prestado e na qualidade do material produzido.
Pércio dos Reis garante “disponibilidade total” para atender a demanda em Luanda, Bengo e outras províncias periféricas, num país em que o volume de obras não pára de crescer, a despeito dos constrangimentos financeiros.
Quando tomou a sua forma empresarial, a Concera, S.A. contava com 24 trabalhadores, um número que passou para 268, como resultado da sua progressão e forte expansão no mercado angolano. A maior parte dos trabalhores são oriundos da área da Caop Velha, a confirmar, claramente, a integração plena da empresa com a comunidade onde está implantada.

Diversidade

É difícil ficar indiferente, a quem vai pela primeira vez a essa unidade, muito por causa da diversidade de materiais disponíveis, a começar pelas classes de betão correntes e específicadas  e estrutural, que é aplicado em edifícios, pontes e viadutos. Um técnico  da empresa explica que a construção de armazéns, fundamentalmente, parques de estacionamento e outras infra-estruturas encontram na Concera betão específico para acabamentos com talocha mecânica.
Mas é na área de pré-fabricados de betão onde o mercado de construção está melhor servido. Aqui, como pôde apurar o Jornal de Angola,  está disponível uma linha de produção de elevada capacidade técnica, tornando os blocos mais resistentes quer à compressão, ao fogo e baixo poder de absorção. E isso faz toda a diferença em relação ao bloco cerâmico. Desde um simples muro de vedação, passando por edifícios, até obras de engenharia civil de diferentes tipologias, a presença do bloco de betão feito na Caop Velha é incontornável, como se pode ver em diferentes obras de construção espalhadas um pouco pela cidade de Luanda e arredores.
Num claro desafio aos empreiteiros, indica a vantagem do lancil de betão, muito visível aos olhos dos transeuntes, na utilização em arranjos exteriores, zonas de transição entre diversos tipos de pavimentos, ou delimitação de espaço, arruamentos ou passeios.
O gestores da Concera, S.A. destacam a rapidez e eficácia na aplicação do lancil de betão, aliadas à qualidade no acabamento das superfícies à vista.

Betão para condutas


Numa cidade onde as preocupações com o transporte de águas residuais, pluviais e superficiais estão muito presentes, a Concera não podia avançar com melhor solução: manilhas e tubos, que são elementos de betão simples ou armado, de secção circular, que possuem nas suas extremidades encaixes abocardados, permitindo o encaixe dos vários elementos.
As manilhas e tubos de betão armado têm incorporado uma armadura circular em aço, soldada por equipamento automatizado e com uma produção rigorosamente controlada, o que realça a aposta da empresa em tecnologia de ponta, como se diz noutro espaço desta peça.
Muito ligados às águas pluviais, colectores de esgoto ou outras redes, geralmente instalados em zonas de tráfego de veículos pesados estão os  cones, ulitizados na execução da cobertura das chamadas “caixas de visita” a estas infra-estruturas. Aqui, entra o  betão simples com espessura de parede uniforme.
Um especialista explica que as “caixas de visita” facilitam a inspecção, passagem e visita às infra-estruturas enterradas e permitem realizar tubagens com “inegáveis vantagens” e, em situações de escavação, substituindo o tradicional processo de betonagem no local de toda a estrutura. “Este tipo de caixas pré-fabricadas é também utilizada em infra-estruturas eléctricas e de telecomunicações, sendo de destacar a maior rapidez na execução da obra”, acrescenta.

Aposta na qualidade

A Concera foi criada a pensar na melhoria da qualidade dos produtos para o mercado angolano e satisfazer o grande volume de obras em várias províncias do país, refere o administrador Pércio Reis.
O responsável sublinha que a intenção foi criar formas de construção com a maior qualidade possível, pois havia um grande défice neste domínio. É já significativo o número de obras em curso e cujo andamento atinge um certo grau de estabilidade devido à garantia de regularidade no fornecimento dos materiais de construção a partir da Concera. Pércio Reis citou o caso da fábrica de embalagem de cartão da Packgem, no Quikuxi, e as obras que estão a ser executadas por empresas como a MCA, Casais, Omatapalo, Socoliro, Matra e outras de grande dimensão em Luanda.

Matéria-prima

Para garantir que nada falte à operacionalidade da empresa, foi criada uma unidade  para atender especificamente às necessidades da produção de madeira e de inertes: a CAMEX,  SA. Com 56 trabalhadores, a CAMEX está situada na localidade do Piri, província do Bengo. Foi ali montada uma serração de madeira que é extraída numa concessão com mais de 10 mil metros quadrados.  E é dessa serração que, dependendo da variedade e qualidade da madeira, saem diariamente perto de 20 a 30 metros cúbicos de madeira para a produção de paletes.
A exploração da madeira é acompanhada de uma rigorosa observância das normas de protecção ambiental e de uma política de repovoamento florestal. Pérsio dos Reis adianta que na área  da política ambiental há sempre o cuidado de não cortar as árvores na totalidade, deixando sempre grandes distâncias entre elas e fazer um desbaste que não prejudica as flores, em paralelo com a reflorestação onde for ncessário.
Também na província do Bengo, concretamente em Caxito,  foi montada uma pedreira que, entre diferentes produções na vertente do calcário e granito atinge a cifra de mil toneladas por dia, o que garante o funcionamento sem significativos  sobressaltos.


Espírito de  compromisso

Desde finais de 2014 que os vários agentes económicos começaram a ressentir-se dos efeitos da crise económica. O sector imobiliário foi afectado e por arrasto o da construção, quer do sector público quer do privado. A dificuldade para honrar os pagamentos de forma regular passou a atingir até os clientes que à partida eram tidos como exemplares.
Mas segundo Pércio dos Reis, administrador da Concera, os constragimentos ligados à conjuntura económica do país só vieram reforçar o espírito de compromisso da empresa que, apesar de não estar imune às limitações, procura corresponder às exigências do mercado, especialmente na província de Luanda. “Estamos a entrar e a ganhar mercado diriamente”, sublinha.
Animado com a expansão da empresa e sempre a olhar para o elevado volume de obras no país, a Concera avança já para a montagem de uma fábrica destinada só às estruturas de betão pesadas para a aplicação em obras de grande dimensão. Da nova unidade, cujo investimento ronda os cinco milhões de dólares, espera-se a produção de vigas para pontes, galerias de grande dimensão e outros pré-fabricados.

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