Reportagem

Gás chega ao Moxico pelo caminho-de-ferro

Leonel Kassana |

Ao realizar hoje o terceiro carregamento de gás de cozinha para a cidade do Luena, o Caminho-de-Ferro de Benguela (CFB) confirma o seu envolvimento incontornável no desenvolvimento económico do país, sobretudo das províncias de Benguela, Huambo, Bié e Moxico, todas elas situadas no chamado “Corredor do Lobito”.

Parceria empresarial entre Sonangol e Caminho-de-Ferro de Benguela leva desenvolvimento económico e social ao Leste
Fotografia: Edições Novembro

As anteriores operações aconteceram em Agosto e Setembro desde ano. O recurso da Sonangol ao Caminho-de-Ferro de Benguela para o transporte do gás de cozinha representa também ganhos para esta empresa, cuja reabilitação passou por avultados investimentos, além do produto chegar mais barato aos consumidores. O transporte de gás de cozinha vem juntar-se a outras mercadorias desde que o comboio voltou a ligar o Leste a partir do Lobito.
Por essa ligação ferroviária, restabelecida em 2012, passa actualmente todo o tipo de mercadorias, combustíveis, cimento, bem como importantes meios para a construção e reconstrução de infra-estruturas sociais e económicas. A ligação, pelo CFB, do litoral até ao Luau, assume-se também como  âncora importante para o desenvolvimento dos países da Comunidade de Desenvolvimento dos Países da África Austral, SADC.
Em 2012, foram transportados 4.005 toneladas, cifra que subiu para 17.560 no ano a seguir. De comboio, cerca de 20.000 toneladas foram levadas em 2014, enquanto no ano passado os dados do CFB fixam-se em 29.225 toneladas. Os dados deste ano já vão em 17.576 toneladas.
Do outro lado da fronteira com a República Democrática do Congo, milhares de toneladas de minério aguardam pela conclusão do ramal daquele país para a sua ligação à linha do CFB garantindo, assim, a sua exportação para diferentes partes do Mundo a partir do Porto do Lobito. Na RDC, sobretudo na zona de Dilolo, a expectativa é enorme, com milhares de congoleses a aguardarem pela conclusão do ramal até à ponte sobre o rio Luau, viabilizando a circulação de pessoas e mercadorias.
Responsáveis do Caminho-de-Ferro de Benguela com quem o Jornal de Angola pôde conversar depositam enormes esperanças na celeridade das obras do outro lado da fronteira, para que a empresa recupere o seu papel histórico, que é o transporte do minério das regiões central e oriental de África. Do lado angolano, a reabilitação está praticamente completa, faltando apenas algumas obras para a consolidação da linha, pois o comboio já faz parte do dia-a-dia da população. A ponte transfronteiriça sobre o rio Luau, o último troço da linha férrea de 1.267 quilómetros inaugurada em 2015 pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, é a prova da aposta do Executivo na reabilitação das infra-estruturas ferroviárias do país.
Uma monumental obra de engenharia, essa ponte tem o potencial de vir a tornar-se um instrumento importante para a integração regional impulsionando as trocas comerciais entre vários Estados africanos, sobretudo aqueles que estão situados nas regiões austral e central.
O chamado “Corredor do Lobito” permite ligar pelo CFB, ao Porto do Lobito, importantes regiões mineiras da RDC, como Katanga, e da Zâmbia, com vantagens mútuas, já que a reconstrução dos ramais ferroviários nesses países é uma garantia segura da redução de custos com as importações e exportações de mercadorias.
No Luau termina em território angolano o último ramal do Caminho-de-Ferro de Benguela que está interligado aos sistemas ferroviários da República Democrática do Congo e da Zâmbia, que não têm saída para o mar. Assim, o CFB é alternativa aos portos da Beira, em Moçambique, e Dar es Salam, na Tanzânia.
Os principais beneficiários da ligação ferroviária com Angola são esses países, pois a utilização do “Corredor do Lobito” permite escoar com custos significativamente menores o cobre, níquel, cobalto, manganês e outros minérios. O CFB está pronto para ser usado por estes Estados, evitando milhares de quilómetros até aos portos de Moçambique, África do Sul ou Tanzânia. “É mais vantajoso, mais económico e mesmo do ponto de vista logístico tem menos custos”, diz o ministro dos Transportes, Augusto Tomás.
Entre 2005 e 2015, o programa de reabilitação do CFB representou um investimento de 1.900 milhões de dólares americanos de um total de 3.500 milhões de dólares destinados à reparação da rede dos caminhos-de-ferro de Angola.
Nestes números estão incluídas outras infra-estruturas, umas reabilitadas e outras erguidas de raiz ao longo do traçado do Caminho-de-Ferro de Benguela em todo o seu corredor desde o Atlântico ao Luau e que incluem estradas, aeroportos, portos, escolas e centros de saúde.
A reabilitação e modernização dos ramais do CFB incluem a instalação de redes de fibra óptica e equipamentos de sinalização e segurança em toda a extensão das linhas, construção de pontes, pontões, apeadeiros, passagens de nível e valas de drenagem, além de modernas estações para comodidade dos passageiros, o que explica as somas astronómicas da empreitada.
Localizado numa saída para a RDC e Zâmbia, o município do Luau está definitivamente destinado a ser a “porta de entrada” da desejada integração regional de Angola na África Austral por via de uma área de livre comércio e reforço de uma saudável vizinhança.
À dinâmica do CFB juntam-se outras infra-estruturas no Luau. Ali foi construído um aeroporto internacional com uma pista de 2.600 metros de comprimento e 45 metros de largura, enquanto avançam obras de construção de um porto seco. Trata-se de uma estrutura moderna com capacidade para mais de 140 passageiros, restaurantes, bares e que ocupa uma área de mais de mil metros quadrados. No porto seco, estão a ser erguidos amplos armazéns e outras infra-estruturas de apoio à actividade dos operadores económicos de Angola e dos países vizinhos.

Progresso nas comunidades

Em todas as povoações atravessadas pelo Caminho-de-Ferro de Benguela nas regiões Centro e Leste de Angola a mudança é notável. Populações inteiras mudaram-se para as proximidades da linha férrea garantindo o escoamento da produção agrícola, que se deteriorava.
Estações ferroviárias invariavelmente apinhadas de gente a vender todo o tipo de cereais, hortícolas, fruta, animais, farinha de milho e outros produtos é o cenário que nos é dado a ver, a fazer renascer a esperança de uma vida melhor e esquecer os tempos de penúria alimentar.
Foi assim em Cangona, Cangumbe, Cachipoque e Chicala, a caminho do Luena, última escala na subida para a vila do Luau, último ponto do CFB em território angolano. De zonas inóspitas num passado recente, essas comunas do Moxico devem ser destacadas pelos sinais de progresso que registam depois da chegada do comboio.
Erguer escolas, centros e postos de saúde, sistemas de captação e distribuição de água potável e ­outros serviços sociais básicos para a população nestas localidades tornou-se mais fácil com a chegada do comboio. De uma agricultura de subsistência, a população aposta agora no aumento da produção a pensar na comercialização, já que mercado não falta.
Isso é visível nas estações do CFB, com centenas de mulheres, jovens e mesmo crianças a atraírem os passageiros para comprarem todos os produtos. Em grandes quantidades e para todos os bolsos, para revender noutras paragens.

Benefícios do comboio

O Cuemba e o Munhango são zonas agrícolas com um historial de grandes batalhas. Depois do calar das armas, a população regressou à produção de alimentos para abastecer diferentes mercados, sobretudo das cidades do Cuito, Luena e Benguela.
Os camponeses, individuais ou associados em cooperativas, cultivam arroz, mandioca, milho, feijão, batata-rena, batata-doce, cereais e hortícolas, comercializados em grandes superfícies.
Localidades como Luculo, Leua, Sandando, Cameia, Cassai, Caifuche, Luacano e  Mucussueje, na província do Moxico, podem não significar nada para muita gente. Na verdade, essas áreas saíram do anonimato para passarem a ser responsáveis pelo peixe do rio que é consumido em grandes quantidades e em largas parcelas do país. Com o comboio, a aparente letargia provocada pelas dificuldades de escoamento cedeu lugar a uma dinâmica actividade comercial, hoje responsável pelo sustento de centenas de famílias.
No Luacano, a cerca de 217 quilómetros do Luena, para citar apenas uma das muitas zonas ricas em peixe do rio no Moxico, os pescadores contam com pequenas e novas embarcações a motor, o que permite o aumento das capturas em vários rios e lagoas. Com essas embarcações, os níveis de produção podem ultrapassar largamente as 20 toneladas por ano, segundo responsáveis das pescas no Luacano.
De comboio, o escoamento está garantido, enquanto postos de venda foram montados na vila e outras localidades, permitindo a expansão do negócio. Animados, pescadores artesanais de diferentes municípios constroem abrigos próximos das estações do CFB, aguardando a passagem do comboio. O mel é um dos principais produtos vendidos nas estações do Caminho-de-Ferro de Benguela, sobretudo a partir do Bié, calculando-se que só dos municípios dos Bundas, a 356 quilómetros do Luena, saiam anualmente cerca de 1.600 litros. Numa altura em que há uma aposta clara para o uso de métodos modernos, ­apicultores de outros municípios têm vindo a aumentar os níveis de produção de mel.
Entre bidões de cinco ou 20 litros impressiona, na verdade, ver nas estações do Caminho-de-Ferro de Benguela uma enorme quantidade de recipientes de mel a serem vendidos ou a embarcarem nos vagões para outras paragens do país, onde o produto é, certamente, sobrevalorizado.
Um bidão de cinco litros é vendido a cerca de três mil kwanzas, enquanto em mercados como Benguela, Lobito ou Luanda chega ao dobro. O mel tornou-se um grande negócio para muita gente que, de comboio, chega ao Moxico, num momento em que as autoridades fazem uma aposta na sua industrialização, no âmbito da diversificação da economia.

A satisfação do governador

O governador provincial do Moxico, João Ernesto dos Santos, manifestou satisfação pelo impacto da circulação dos comboios do Caminho-de-Ferro de Benguela no aumento da qualidade de vida das pessoas e movimento de mercadorias e equipamentos essenciais para a construção e reconstrução de infra-estruturas sociais e económicas.
João Ernesto dos Santos disse ao Jornal de Angola que o CFB contribui significativamente para o desenvolvimento da sua província, pois “o comboio é barato e leva todo o tipo de carga e com mais segurança até à fronteira e vice-versa”.
Os benefícios são “absolutamente incalculáveis” para a população do Moxico e das províncias vizinhas atravessadas pelo caminho-de-ferro desde o litoral até à fronteira com a República Democrática do Congo.
Além do transporte de passageiros, os custos dos bens que chegam por via férrea são significativamente mais baixos em comparação com os que entram e saem da província por estrada. “Quando passamos pelas regiões localizadas ao longo da linha férrea, notamos claramente que os produtos são transaccionados com mais facilidade e isso cria riqueza e incentiva o aumento da produtividade”, sublinha o governador.
Com o recomeço da circulação do comboio, a população olha para o futuro com mais realismo e esperança, pois acredita que as promessas do Executivo quanto à reabilitação do CFB são hoje uma realidade inquestionável, refere.
O governador João Ernesto dos Santos garante todo o apoio à administração da empresa para a preservação das várias infra-estruturas construídas ao longo do traçado do Caminho-de-Ferro de Benguela.

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