Reportagem

“Gigantesco passo para a humanidade” foi dado há 50 anos na Lua

Osvaldo Gonçalves

Hoje completa-se 50 anos desde que o homem pisou pela primeira vez na Lua. Foi a 20 de Julho de 1969, um domingo, que o módulo lunar Eagle alunou e Neil Armstrong e Edwin Aldrin, ambos na altura dom 38 anos de idade, pisaram o solo do único satélite natural da Terra, o quinto maior do sistema solar. O voo espacial denominou-se Apolo 11.

Fotografia: DR

Com 3474,8 km no seu diâmetro equatorial, a Lua tem 27 por cento do diâmetro da Terra e 60 por cento da sua densidade. Armstrong, o comandante da missão e primeiro a caminhar no satélite, pois Michael Collins permaneceu sozinho no módulo de comando e serviço Columbia, na órbita da Lua, proferiu na ocasião a célebre frase: “um pequeno passo de um homem, um gigantesco passo para a humanidade”.Tudo foi transmitido ao vivo pela televisão, para 100 milhões de pessoas. A caminhada na Lua demorou, ao todo, duas horas e 45 minutos.
Os dois estiveram na Lua durante 21 horas e aproveitaram a caminahada para fincar a bandeira dos Estados Unidos, recolher cerca de 22 kg de material e fazer fotos. O pouso do módulo lunar Eagle ocorreu numa região chamada Mar da Tranquilidade.
A missão começou a 16 de Julho, com o lançamento do foguete Saturno V, a partir do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, transportando a espaçonave Columbia, com uma tripulação formada pelo comandante Neil Armstrong, Michael Collins (piloto do módulo de comando) e Edwin “Buzz”Aldrin (piloto do módulo lunar).
A 24 de Julho, Apollo 11 voltou à Terra e pousou no Oceano Pacífico. Os três astronautas ficaram em quarentena, para evitar complicações, no caso de terem trazido algum tipo de micróbios do espaço. Após isso, tornaram-se famosos e deixaram o seu nome marcado na História.


Cépticos duvidam da façanha

Meio século após a viagem à Lua, ainda há quem não acredite que tenha mesmo acontecido. Nos Estados Unidos, há até quem se dedique a tentar desmontar a façanha. As teorias da conspiração são as mais diversas e, para alguns, o pequeno passo de Neil Armstrong foi, na verdade, “gigantesco salto de falsidade.”
Uma das teorias é que, tendo a União Soviética colocado em órbita o primeiro satélite, em 1957, e colocado no espaço o primeiro homem, Iuri Gagarim, a 12 de Abril de 1961, a bordo da nave Vostok 1, os EUA lançaram-se numa corrida desenfreada. Quem seria o primeiro a chegar à Lua? Esse era o principal desafio daquele período da Guerra Fria. Era um repto não apenas tecnológico, mas também político.Os cépticos empenham-se em demonstrar que o filme, que dizem ser o mais caro de sempre, foi montado pela NASA, para enganar todo o mundo.
Bill Kaysing, engenheiro e analista da Rocketdyne, a companhia que projectou os foguetes Apollo, não tem dúvidas. Famoso por alegar que os seis pousos lunares do projecto, entre Julho de 1969 e Dezembro de 1972, foram fraudes, afirmou, em 2001, num programa transmitido pela cadeia de televisão Fox, chamado “Teoria da Conspiração: Nós Pousamos Mesmo na Lua?”, “nunca enviámos homens à Lua”,No programa, Kaysing explicou-se: “acho que foi uma intuição”; “tudo aquilo pareceu-me falso.” Disse ainda ter ficado “chocado com inconsistências”, porque “não havia estrelas no céu lunar”, a bandeira americana tremulou, “sabendo que não existe ar na Lua”, e “não havia nenhuma cratera debaixo do módulo, que deveria ser provocada pelo forte motor” no momento em que a nave pousou.
Outro defensor da tese, Bart Sibrel, garante que o homem não chegou à Lua e afirma que a viagem ao satélite foi um engodo. No filme, com argumentistas cuja capacidade foi posta em causa, Kaysing e Sibrel alinham meia dúzia de dúvidas retóricas sem rigor científico.Kaysing diz que “o lançamento do foguete Saturno 5 com a Apollo foi real”, mas não levou astronautas à Lua. Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins ficaram em órbita oito dias “e ao oitavo dia a cápsula separou-se e voltou à Terra.”O engenheiro afirma que as filmagens foram feitas na Área 51, uma base supersecreta na extensa região desértica do Nevada, onde tudo pode acontecer.
O filme, dizem os cépticos, tratou-se de uma ficção dirigida por Stanley Kubrick, o que é contestado por Vivian Kubrick, filha do mítico realizador de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, falecido em 1999.

Manifesto

Num manifesto, publicado em Julho de 2016, Vivian Kubrick enalteceu a integridade artística e a consciência social e política do pai e afirmou que a ideia deste ter conspirado com o Governo dos EUA é uma “mentira grotesca.”
Ainda assim, os cépticos insistem na sua teoria. Segundo eles, “O Iluminado” (The Shining), filme considerado enigmático, lançado pelo realizador, em Maio de 1980, com Jack Nicholson, é a forma encontrada por Kubrick para contar ao mundo que participou nas filmagens do pouso na Lua, mais do que uma adaptação do livro homónimo de Stephen King.
O escritor Jay Weidner, pesquisador de Stanley Kubrick, diz que o colapso mental do personagem de Jack Nicholson representa o estresse e a pressão sobre Kubrick, ao fazer a peça de ficção.


A caminho de Marte

Numa altura em que se assinala 50 anos desde que o homem pisou na Lua pela primeira vez e várias críticas são feitas às administrações norte-americanas que estiveram à frente do país nesse período, nomeadamente, de Aldrin, que, com Neil Armstrong, caminhou na superfície lunar em Julho de 1969, eis que notícias dão conta de novos esforços para retomar o programa espacial norte-americano, desta vez com a intenção de ir mais longe. O satélite natural da Terra serviria de trampolim para se chegar à Marte, em 2038.
A NASA, Agência Espacial Norte-Americana, está a construir um novo foguete que vai levar homens e mulheres para o satélite da Terra, com o objectivo de lá ficarem. A ideia é usar a Lua como base de futuras expedições a outros planetas.
O Vice-Presidente norte-americano, Mike Pence, anunciou, em Março deste ano, que os EUA vão enviar astronautas ao satélite da Terra, em 2024, na nave Oríon, no contexto do programa Artemis. Dois meses depois, o Presidente americano, Donald Trump, anunciou um reforço do orçamento da NASA em 1.600 milhões de dólares, com vista a preparar o regresso dos astronautas, incluindo a primeira mulher.
Cheryl Warner, um porta-voz da NASA, reiterou ao jornal espanhol “La Razón” que a ideia é enviar astronautas à Lua “nos próximos cinco anos”, como já tinha anunciado a própria agência. Por se tratar de um projeco ambicioso, este “obrigou a acelerar processos e a abrir novos contratos para que as empresas privadas apoiem a iniciativa.”
A Blue Origin, empresa de Jess Bezos, dono da Amazon, é uma das envolvidas, além da SpaceX, de Elon Musk. Warner disse que o primeiro passo “é criar uma estação na órbita lunar, para servir de base para futuras expedições sobre a superfície lunar e para depois ser utilizada para outras missões”, nomeadamente em Marte.
O porta-voz acrescentou que, se tudo correr bem aos norte-americanos, a Lua servirá “como base de operações para experimentar novas tecnologias, treinar astronautas e desenvolver a indústria espacial.”

Atrasos e concorrência

O projecto tem enfrentado alguns entraves, a começar pelos atrasos no novo lançador da NASA, o Space Launch System (SLS), encomendado à Boeing. Após sucessivos adiamentos, o primeiro voo está agora programado para 2021.
O SLS vai transportar a nave Oríon, dentro da qual vão estar os astronautas escolhidos para a missão de chegar de novo à Lua. Warner referiu que vai ser tudo testado de forma gradual e que serão feitos dois voos de teste, sendo o pimeiro não tripulado. O segundo, já com tripulação, deverá chegar à Lua em 2024.
“Este é o nosso principal desafio e é nele que temos concentrado todos os nossos esforços. Estamos a desenvolver tanto o sistema de alunagem, como uma cabine que seja minimamente habitável”, afirmou.
A corrida à Lua conta com a concorrência da China, que conseguiu fazer pousar uma sonda, em 2013, com um “rover” a bordo. Em Janeiro deste ano, o gigante asiático pousou uma nova sonda no lado oculto e totalmente inexplorado do satélite. Outro concorrente é Israel, que lançou este ano uma sonda a partir do Cabo Canaveral. Mas esta acabaria por se despenhar na superfície da Lua, a 11 de Abril.
Para os mais optimistas, conhecendo melhor a Lua e recolhendo amostras de água, metais, hélio e pó, a atenção voltar-se-á para Marte, onde haverá astronautas a cravar a bandeira norte-americana, em 2038.
Até hoje, 12 pessoas já caminharam sobre a Lua. O primeiro foi Neil Armstrong e o último Eugene Cernan. Todas as viagens ocorreram entre Julho de 1969 e Dezembro de 1972, como parte do Programa Apollo, um conjunto de missões espaciais coordenadas pela NASA.
O objectivo de explorar a Lua foi abandonado em Dezembro de 1972, por falta de verbas, cortadas pelo Congresso, e o desinteresse da opinião pública norte-americana pelo projecto.

Tempo

Multimédia