Reportagem

Governo pode ceder na guerra com os “Coletes Amarelos”

No dia seguinte à manifestação de “uma gravidade sem precedentes” e de uma "violência extrema e inédita", como disse o chefe da polícia de Paris, Michel Delpuech, o momento foi de limpeza. A autarca Anne Hidalgo disse que a fatura vai surpreender, porque os estragos “foram imensos”. Só incêndios foram 250.

Fotografia: DR

O Diário de Notícias conta que Emmanuel Macron regressou da Argentina e dirigiu-se para o vandalizado Arco do Triunfo, símbolo da República. Não fez declarações, mas, depois de se reunir com o Governo, deu indicações ao Primeiro-Ministro para receber os líderes partidários e uma de-
legação de Coletes Amarelos. Sábado último, foi o dia mais violento de um protesto que tem raízes no mês de Outubro.
Atormentados pela crise dos Coletes Amarelos, os deputados da República em marcha (LRM) têm saído a terreiro defender soluções para a crise. E se isso já era uma realidade antes da violência de sábado - comparável à de Maio de 68 - mais correligionários do partido de Emmanuel Macron exigem uma moratória sobre os aumentos do imposto sobre o combustível.
Entre a maioria parlamentar, há quem defenda que o executivo, com o Primeiro-Ministro Edouard Philippe à cabeça, não mostrou abertura.
“A violência de ontem (sá-bado) é inaceitável. Nós não podemos deixar o nosso país entrar no caos. Os deputados da LRM deram os alertas e propostas, o Primeiro-Ministro deve ouvi-las. É urgente abrir o diálogo e propor soluções imediatas”, escreveu, no seu Tweet, a deputada da ala esquerda do partido, Emilie Cariou.
No canal LCI, o deputa-do Sylvain Maillard defendeu não só a suspensão da aplicação do aumento da carga fiscal, mas também o aumento do salário mínimo nacional.
“O que os Coletes Amarelos nos dizem é ‘eu não posso fazer face às despesas’.” Mostrou-se agradado pelo facto de representantes dos Coletes Amarelos se mostrarem re-ceptivos a falar com o Gover-no. “Tudo deve estar em aber-
to”, defendeu.
O deputado Florent Boudié também defende a suspensão do aumento dos impostos. “Partilho a ideia de vários dos meus colegas de uma moratória fiscal, em especial o imposto do carbono”, disse ao Le Monde, para depois defender mais do que isso.
“Desde sábado, o movimento dos Coletes Amarelos entrou numa nova dimensão. Há urgência em responder à violência, mas a resposta não pode ser limitada à segurança pública. A questão não é apenas de tributação ecológica, mas mais amplamente a da relação entre os concidadãos e os seus representantes”, defende.
O jornal Le Monde também deu conta de que o deputado ecologista da LRM, Matthieu Orphelin, tinha chamado a atenção do Primeiro-Ministro para a introdução de medidas sociais relacionadas com a transição energética. E propôs a criação de um bónus a título excepcional e transitório para os cidadãos das áreas rurais e suburbanas. Esse bónus seria pago nos anos em que o preço do barril de petróleo estivesse elevado.

Ameaças de moção
de censura

A convergência da oposição contra o Executivo começou antes do sábado de caos e destruição. O Senado votou pela suspensão do imposto de consumo sobre produtos energéticos, o que pode abrir espaço a que a Assembleia Nacional siga o exemplo dos senadores, quando a proposta de lei for discutida em meados do mês.
À direita, o presidente republicano Laurent Wauquiez pediu para “dar a palavra aos franceses” e reiterou a sua ideia de um referendo sobre a política económica e fiscal de Emmanuel Macron.
Já a extrema-direita, através de Marine Le Pen, e a extrema-esquerda, através de Jean-Luc Mélenchon, defenderam a dissolução da Assembleia Nacional através de moções de censura.
“Há que introduzir a proporcionalidade e dissolver a Assembleia Nacional para organizar novas eleições legislativas”, escreveu Le Pen.
“A solução em democracia é sempre a democracia: dissolução da Assembleia Nacional”, escreveu Mélenchon, que pouco depois lembrou que todas as revoluções francesas começam por revoltas de natureza fiscal.
Ao centro-esquerda, o líder do PS, Olivier Faure, propôs a suspensão do im-posto e a realização de uns Estados Gerais sobre o poder de compra.
Horas depois, Faure escreveu a Macron a pedir uma concertação nacional, um diálogo que envolvesse partidos, sindicatos, associações e Organizações Não-Governamentais, além de um debate parlamentar e a ideia anteriormente apresentada dos Estados Gerais.
A primeira resposta do executivo foi a manutenção do rumo. No domingo, segundo o Eliseu, Emmanuel Macron insistiu na necessidade “de que nenhum dos actos” ocorrido no sábado “ficasse sem resposta judicial”.
“Dissemos que não mu-daríamos o rumo, porque é o correcto”, disse o porta-voz do Governo, Benjamin Griveaux. No entanto, abriu a porta ao diálogo. “Por outro lado, estamos mais abertos ao diálogo”, revelou, para acrescentar que o executivo estava pronto para discutir com representantes dos Coletes Amarelos, que assinaram um texto no Journal de Dimanche a defender o diálogo .
Por fim, o Presidente Em-manuel Macron deu indicações para o chefe do Governo, Edouard Philippe, começar, ainda ontem, a receber os líderes dos partidos, além dos representantes dos Coletes Amarelos.

Cronologia dos acontecimentos

O último sábado foi o dia mais violento de um protesto que tem raízes no mês de Outubro, como sugere a cronologia dos eventos protagonizados pelos Coletes Amarelos..

18 de Outubro
Um vídeo de uma até então desconhecida francesa, Jacline Mouraud, interpela o presidente Emmanuel Macron devido à política de "caça aos automobilistas": aumento do preço de combustíveis, portagens para entrar nas grandes cidades, radares por todo o lado. "O que você faz à massa dos franceses?", questiona. O vídeo é um sucesso nas redes sociais, visto e partilhado por milhões de franceses. Aliado a uma petição online que hoje já leva mais de 1,1 milhões de assinaturas a favor da descida dos preços do gasóleo e da gasolina, cria o caldo para os apelos à ação, em particular pelo corte de estradas.

17 de Novembro
O primeiro dia de mobilização nacional contra a política do governo junta uns 290 mil manifestantes de colete amarelo, uma manifestação sem precedentes tendo em conta que foi organizado sem apoio de partidos ou sindicatos.
As primeiras perturbações ocorrem na A84 e na nacional 175 entre Villedieu-les-Poëles e Avranches; na nacional 13, em Cherburgo; e na nacional 814 em Caen. Na periferia de Paris, um forte contingente policial conversa logo ao início do dia com pequenos grupos de manifestantes para evitar o bloqueio total da capital. Ao todo, são bloqueados em todo o país mais de dois mil locais. Uma manifestante do movimento morre em Saboia, no Sudeste do país, atropelada por uma condutora em pânico.
Registam-se ainda 227 feridos, dos quais sete graves.

20 de Novembro

O ministro do Interior, Christophe Castaner, denuncia a "deriva total" e a radicalização do movimento. Em quatro dias, os bloqueios de estradas e protestos fazem 530 feridos, incluindo 17 graves, e resulta numa segunda morte acidental. A onda de violência atravessa milhares de quilómetros e chega a Reunião. Na ilha situada no Índico as autoridades respondem com o recolher obrigatório durante cinco dias.

21 de Novembro
O presidente francês, Emmanuel Macron, admite "medidas severas" contra "comportamentos inaceitáveis" nas manifestações dos "coletes amarelos", diz o porta-voz do Governo Benjamin Griveaux após uma reunião do conselho de ministros. "Existem sofrimentos legítimos que é preciso entender, mas também comportamentos inaceitáveis. Devemos ser intransigentes com a ordem pública. Não podemos aceitar as duas pessoas que morreram, os feridos entre os manifestantes e as forças da ordem, nem os propósitos racistas, antissemitas e homofóbicos", acrescentou, em declarações aos média. "A resposta do Estado foi firme e a severidade será aplicada como tem sido aplicada desde o primeiro dia", sublinha.

24 Novembro
A segunda manifestação reúne 106 mil pessoas, das quais umas 8 mil em Paris, nos Campos Elísios. Se a maior parte das concentrações são pacíficas, na capital os manifestantes entram em confronto com a polícia. Esta recorre à força para tentar controlar os manifestantes, usando gás lacrimogéneo e canhões de água. O número de manifestantes vai, contudo, aumentando e descem a avenida para tentar chegar ao Eliseu. Há 24 feridos, cinco deles das forças da ordem, e 101 detidos.
O ministro do Interior aponta o dedo aos "sediciosos" de "ultradireita", que "responderam à chamada de Marine Le Pen". Já os partidos de oposição criticam o governo por querer reduzir o movimento à violência e não ouvir os cidadãos.
Em Toulouse e Béziers, vários jornalistas são vítimas da violência de coletes amarelos.

26 de Novembro
Os coletes amarelos designam uma delegação de oito porta-vozes. Mas a ideia sofre contestação e a delegação é dissolvida.

27 de Novembro
O presidente gaulês propõe a revisão do imposto sobre os combustíveis de três em três meses, consoante o preço do barril de petróleo. E diz que haverá um debate nacional sobre a denominada transição ecológica, a taxa que determina o aumento dos combustíveis, mas sem renunciar à sua estratégia sobre o ambiente e a energia nuclear. “Fim do mundo” ou “fim do mês” não são uma escolha, diz. “Vamos tratar dos dois”, garante Macron.
Após uma reunião com o ministro da transição ecológica, François de Rugy, os coletes amarelos marcam uma nova manifestação para 1 de Dezembro nos Campos Elísios.
O primeiro-ministro Edouard Philippe confirma o aumento do imposto sobre os combustíveis a partir de 1 de Janeiro.
Um camionista português é detido em França, na zona de Toulon, por abalroar um motard que participava numa marcha lenta dos coletes amarelos.

29 de Novembro
Na quinta-feira, o primeiro-ministro recebe discretamente um colete amarelo. Na sexta-feira, outros dois, mas um deles foi embora quase de imediato, ao ver que a reunião não era filmada.

Tempo

Multimédia