Reportagem

Grupo de carnaval na disputa do pódio

Adriana de Melo, Manuel Albano, Mário Cohen e Roque Silva

A partir de amanhã e durante três dias, reis e rainhas, dançarinos e foliões, vão todos à Marginal da Praia do Bispo mostrar o resultado de semanas de preparação, num desfile que se espera renhido, tendo em conta a diversidade de ritmos em competição.

Fotografia: Rogério Tuti | Edições Novembro

Entre os 14 candidatos ao título, alguns defendem o seu favoritismo pelos anos de experiência, outros o fazem pelo que constataram nos ensaios e prepararam para o público este ano. Surpresas, prometeram, a maioria não vão faltar, apesar das  dificuldades financeiras.
O semba, o estilo predominante da maioria dos grupos candidatos, aparece como um dos favoritos, apesar de a cabecinha, dizanda e a kazukuta, pela sua “peculiaridade”, receberem “atenção especial” do público e dos júris da classe A.
Com o apoio financeiro do Ministério da Cultura já em mão, embora, pela opinião de todos os presidentes dos grupos, muito tardiamente, os preparativos aceleraram e após semanas de ensaio e de aprimoramento das coreografias e vestimentas só falta este final de semana e a segunda-feira para vermos quem fica este ano com a “coroa” de melhor do Carnaval de Luanda.
Pelo que mostraram nos ensaios este ano as apostas vão ser altas e favoritos são todos os grupos, desde o momento em que chegarem à pista do desfile até depois de passarem pelo “crivo” dos especialistas e do próprio público, que com vaias ou assobios também consegue influenciar, um pouco, a opinião do júri.
Canção, dança, corte, painel, alegoria, comandante e falange de apoio são os pontos chaves sobre os quais o júri avalia o “desempenho em pista” de cada um dos grupos, que na classe A, como na B e C.
Para muitos este ano é o decisivo para se auto-avaliarem, como é o caso do Kabocomeu, um dos “grandes” do Carnaval de Luanda, que o ano passado desfilou na classe B, mas conseguiu estar entre os três primeiros e obter um lugar para dançar no acto central. Na mesma situação está o 54. Uma das surpresas deste ano é o União Recreativo Kilamba, resultante da saída de alguns dançarinos do Sagrada Esperança e que o ano passado deu provas da sua qualidade na classe B, onde foi o primeiro classificado. Além destes estão de volta ao despique principal o União Twabixila e o Etu Mudietu.
Outros como o Mundo da Ilha, ou o 10 de Dezembro e o Kiela têm de provar de novo o seu mérito na “festa do povo”. Vencedores de mais de três edição, estes grupos vivem actualmente com o sonho de voltarem a ser “grandes” no Carnaval de Luanda. Para isso, os ensaios foram regulares e começaram mais cedo, apesar de viverem problemas de organização, causado pela saída de alguns dos seus dançarinos, ­devido a requalificação urbana da cidade capital, como é o caso do Mundo da Ilha. Mas, como defendem muitos deles, “dançar o Carnaval já está no sangue” e mesmo com a distância, muitos voltaram para ensaiar com os antigos colegas.
O “palco” do desfile já está pronto há semanas. A organização criou condições para os grupos poderem dançar a vontade e o público estar acomodado para assistir o que cada um preparou. A questão da segurança também está garantida pela Polícia Nacional e o corpo de Bombeiros, assim como um serviço de saúde móvel.

Aposta feminina

Força de vontade, determinação e empenho, são as poucas palavras para descrever a preparação dos grupos, que durante semanas, ensaiaram afincadamente para o acto central do Carnaval de Luanda, que acontece a próxima terça-feira, dia 28.
A participação feminina na festa é um facto real e um motivo de elogio à todas as mulheres angolanas, em especial aquelas que durante anos estão a frente dos grupos e tornam real a festa, com os poucos recursos financeiros a sua disposição.
Como bessanganas, dançarinas, rainhas, médicas da corte, coreografas ou cantoras, estas senhoras têm ajudado a preservar e divulgar certos costumes tradicionais, como o xinguilamento, no Carnaval de Luanda. Uma referência é Maria Luísa José, a tia Neide do Twabixila, que, mesmo sem muito apoio, garante que o grupo vai à Marginal com tudo. “Este ano vamos vencer”, disse. Durante semanas, a responsável, que assim como Milda e Tete, são os “rostos” do único grupo da Caope B, em Viana, procurou apoio, e conseguiu uns poucos dos negociantes do bairro, para fazer as suas roupas especiais. “Dançamos a dizanda. É um estilo muito diferente que requer indumentária apropriada. As saias, por exemplo, são feitas com espelhos e uma armação para dar maior enchimento. Outro problema na sua feitura são os kipaxis (retalhos ou remendos de outros tecidos), porque requerem muito cuidado e tempo da modista e do alfaiate.”
Para suprir as dificuldades financeiras, contou, recorreu aos negociantes de cantina e de padarias locais. “Os empresários levam muito tempo para responder ao pedido e isso cria muitas dificuldades, porque preferimos estar preparados com antecedência”, disse, acrescentando que têm estado preocupado com o legado a ser deixado para a próxima geração de dançarinos. “Queremos construir uma sede condigna para o grupo, onde poderemos assegurar o futuro da dizanda, uma das poucas danças diferentes do Carnaval de Luanda, dominado maioritariamente pelo semba.”
Tia Neide também lamentou o facto de o grupo aos poucos perder boa parte dos seus integrantes, que deixam o bairro em busca de melhores condições e acabam por desistir de dançar o Carnaval.
“Alguns jovens acreditam que o Carnaval seja algo para os mais velhos. É um erro que precisa ser invertido, porque senão, dentro de anos, teremos poucos grupos a fazerem a festa”, perspectivou.

O vencedor

Com o peso de ter de preservar o título em sua posse, o União Njinga Mbandi ensaiou com regularidade. Todos os dias, depois dos Cassules, os adultos colocavam as suas roupas e no campo de futebol da Regedoria davam os últimos acertos, de um ensaio de meses. A semana passada, a ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, visitou o espaço onde estes aprimoram os seus passos para os incentivar e averiguar como decorrem os preparativos.
Sobre a responsabilidade de Toni Mulato, o grupo fez ajustes nos seus ensaios, de forma a ter o máximo possível de dançarinos diariamente. “Depois de meses estamos prontos para revalidar o título”, disse, além de adiantar que é altura de transformar o Carnaval numa festa mais rentável para todos os envolvidos na maior manifestação cultural do país.
A formação e a continuação do legado, voltou a garantir, está assegurado. “Sempre foi uma das preocupações do grupo, para que a cabecinha seja sempre parte da história do Carnaval de Luanda.”


Tudo a postos para o "assalto" à Praia do Bispo


Provenientes dos vários municípios e distritos de Luanda, os grupos carnavalescos intensificam os ensaios e aumentam os preparativos com a aproximação da data do desfile central do Carnaval de Luanda na classe de adultos. A grande festa é já na terça-feira, às 15h00, na Marginal da Praia do Bispo.
Apesar das dificuldades técnicas ou financeiras, os grupos querem fazer da festa um momento singular e capricham nos detalhes, com destaque para as alegorias, um dos elementos de avaliação que mais pontos retirou aos grupos em desfiles anteriores. Fazem-se pequenos acertos e acréscimos. Vencer ou estar entre os melhores é o lema da maioria dos grupos, cujos integrantes estão engajados para atingir tais objectivos. Alguns foliões mostram-se mais confiantes na conquista do primeiro lugar, enquanto outros se revelam preocupados apenas em representar o respectivo município de forma condigna.
A acertar os últimos detalhes está o União Kazukuta do Sambizanga, grupo histórico e emblemático, que amanhã dá o pontapé de saída no desfile infantil. Na classe A, é o segundo grupo a desfilar na Marginal da Praia do Bispo.

Rivalidade saudável

Homenageado em 2016, O União Kazukuta esteve fora do concurso. Eterno candidato ao título, é o maior rival do União Operário Kabocomeu, do mesmo distrito, no estilo de dança. Sempre dedicado à preservação e à valorização do Carnaval ao longo dos 33 anos de existência, o União Kazukuta do Sambizanga é um dos grupos veteranos da maior manifestação cultural do país. De acordo com o comandante, vão fazer do asfalto da Marginal a pista ideal para mostrar a força da kazukuta, ao som da canção  “Abuso de poder”.

Empenho na alegoria

A construção da alegoria do União Kiela envolve artistas plásticos, carpinteiros e serralheiros, dançarinos e apoiantes, alguns dos quais fornecem material para a execução da obra. Todo o incentivo conta para o grupo. A alegoria, um dos principais elementos de avaliação, é a principal preocupação da comandante do grupo, Maravilha Dias dos Santos.

Nova dinâmica


Apostar na criatividade e na singularidade é um dos principais recursos do União Recreativo do Kilamba para atrair o interesse dos foliões. O grupo participa no Carnaval, concentrado na conquista do título, diz o comandante Poly Rocha, que pretende levar à Marginal 800 elementos, entre bailarinos, corte, bessanganas e falange de apoio. Para hoje, está agendada, às 14h00, a realização do Carnaval de rua, bailes e concurso, em recintos de espectáculos de todos os municípios.


Dançar com motores afinados

O União 10 de Dezembro, do distrito urbano da Maianga, quer recuperar a glória de outros tempos e continuar no grupo de principais vencedores do Carnaval de Luanda. Crónico candidato ao título, a par do União Mundo da Ilha e do Kiela.
Há 10 anos sem vencer, o que demonstra estar a passar uma prolongada fase má, o grupo pretende repetir os feitos da sua última conquista, alcançada em 2006. Desde então e apesar das muitas oscilações, tem-se mantido entre os cinco primeiros da classe A. Pedro Vidal, o comandante, disse que o 10 de Dezembro tem a alegoria por concluir e referiu que sem este o grupo perde 120 pontos. Porém, se os problemas financeiros continuarem, o grupo vai apenas participar na festa.  O tema escolhido para o desfile baseia-se na sua trajectória no Carnaval.
É, conforme informou, a sua despedida da função de comandante. “Mas continuarei ainda a liderar o grupo”, acrescentou.
Quando decidiu participar na festa das multidões, o União Jovem da Cacimba inscreveu o seu nome com letras de ouro na história do Carnaval de Luanda e venceu a edição de 2012, quebrando a ambição de alguns dos crónicos candidatos ao título. Este ano, a pretensão é a mesma: disputar para vencer.
O União Povo da Samba é um dos grupos mais antigos do Carnaval de Luanda. Formado por elementos, cuja principal actividade económica é o comércio do peixe, o grupo participa com o objectivo de permanecer na classe A, mas prometem uma boa exibição, pelos apoiantes, o público e os membros do corpo de jurado. Os ensaios do grupo são todos os dias, apesar das várias dificuldades financeiras.


União Kabocomeu
com sede de vitória


O União Operário Kabocomeu quer voltar a dar alegria ao Sambizanga, aos foliões e aos apreciadores da kazukuta, dança que caracteriza o grupo desde 1953, quando desfilou na antiga avenida Paulo Dias de Novais.
Vencedor da primeira edição do Carnaval da Vitória, em 1978, o histórico grupo quer fazer esquecer a prestação de 2015, que custou a sua permanência entre os grandes, na classe principal (A).
O grupo foi o segundo classificado da classe B, no ano passado, com 726 pontos, superado apenas pelo estreante Unidos Recreativo do Kilamba, com 793 pontos. Cair para a segunda classe foi um dos momentos mais infelizes e uma lição ao União Operário Kabocomeu.
A homenagem ao músico Bangão contribuiu para o seu regresso ao nível do qual jamais devia ter saído, pois a canção e a falange de apoio obtiveram as maiores pontuações.
O grupo volta dois anos depois com sede de vencer e promete convencer o júri com a banga e alegria que lhe são características.
Lutar pelos lugares cimeiros e superar o quarto lugar obtido em 2013 são os objectivos do Kabocomeu. Nem a falta de iluminação no período nocturno durante aquele que é o segundo ensaio do dia (até às 22h00) e os atrasos na entrega dos apoios inibem a histórica agremiação de lutar pelo título.
O grupo tem tudo preparado, desde a coreografia, canção e os dois principais símbolos do grupo, as sombrinhas e bengalas. Os dançarinos continuam com a energia de sempre e prometem dar o seu melhor. A canção está no segredo dos deuses até ao Dia D. “É um dos trunfos a usar para surpreender o júri”, disse Manuel António.
O branco e o preto, com faixas amarelas, são as cores predominantes nos mais de 400 integrantes do grupo, incluindo a falange de apoio. Homenageado na edição de 2003 pela sua contribuição ao engrandecimento da cultura nacional, o grupo pretende estar ao mais alto nível. O responsável deixa um recado: “esperem para ver o Kabocomeu no seu melhor, apesar das dificuldades...”

Vencido pelo desânimo

O Etu Mudietu afasta a possibilidade de lutar pela permanência na classe A do Carnaval de Luanda, no acto central agendado para a próxima terça-feira, na Marginal do Praia do Bispo.
O comandante do grupo do distrito urbano do Sambizanga crê na sua despromoção por concluir que o mesmo não reúne as condições materiais e pontuáveis exigidas pelo júri.
Arnaldo Catadi disse ao Jornal de Angola que a direcção do Etu Mudietu está preparada para o pior devido às inúmeras dificuldades que o grupo enfrenta. A redução dos apoios e o atraso na cedência pela Comissão Preparatória do Entrudo de Luanda afasta-o definitivamente da luta pelo título. O Etu Mudietu, afirmou, não tem alegoria e bandeira, por serem muito caro. “Os capacetes da edição passada estão a ser reciclados para serem usados.”
Segundo o comandante, o grupo está em dívida para com os alfaiates que confeccionaram os trajes dos 480 elementos que vão à “Marginal”, apesar de já ter sido paga uma parte com os 700 mil kwanzas que recebeu como apoio. O desânimo que paira nas hostes do Etu Mudietu não convence os seus integrantes a darem o melhor nos ensaios.


A passagem de testemunho


Os dançarinos mais velhos, parte da primeira geração do grupo União 54 do Prenda, transmitem os conhecimentos aos mais novos integrantes durante os ensaios para o Entrudo deste ano. O objectivo é garantir uma renovação do elenco e a conquista de um lugar no pódio, afirmou o seu presidente e comandante.
Desde Setembro do ano passado, o grupo afina as baterias, com ensaios diários de segunda à sexta-feira, realizados à noite na sua sede, na Rua das Acácias, no Bairro Prenda. Aos sábados e domingos, aproveitam o largo areal junto ao Cudimuenha, na mesma zona, para ensaiar durante o dia todo com um número maior de integrantes. O semba é o estilo que o grupo leva à pista da Marginal da Praia do Bispo, com dançarinas, bessanganas e passistas confiantes numa boa classificação. Joaquim Manuel, comandante e vice-presidente do grupo, disse ao Jornal de Angola que o União 54 procura passar, através da dança e da música, mensagens relativas aos hábitos e costumes da zona, o que já vem da primeira geração.
Muitos dos primeiros passistas ainda vivem e constituem a imagem original do grupo. Para preservar a tradição, foram escolhidos para passarem os ensinamentos aos mais jovens e garantirem a originalidade do grupo. “Estamos numa fase de renovação e os mais velhos dançam este ano em jeito de despedida para darem lugar aos mais novos devido ao avançar da idade de muitos”, referiu.
A maioria dos novos integrantes são filhos, netos e familiares de antigos dançarinos. O grupo, que exibe o semba, enfrenta problemas financeiros para atender boa parte das suas necessidades de logística. A verba disponibilizada pelo Ministério da Cultura é insuficiente para cobrir as despesas com a indumentária das classes C e A.

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