Reportagem

H1N1, o vírus dos porcos é a nova ameaça

Vanessa de Sousa

G4 é a nova estirpe do vírus da gripe suína H1N1, que se espalha silenciosamente entre trabalhadores de quintas de criadores de porcos na China. Situação que tem de ser “urgentemente controlada” para se evitar outra pandemia.

O alerta vem da China! Uma nova estirpe do vírus da gripe suína precisa de ser “urgentemente” controlada. Em 2009, a pandemia chegou ao continente africano em Junho, o primeiro caso registou-se no Cairo, Egipto, e em Agosto chegava a Angola.
Fotografia: DR

Um surto de H1N1 foi declarado, em Junho de 2009, pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como pandemia, começou nos Estados Unidos e no México e provocou a morte a 285 mil pessoas. Agora surgiu uma nova estirpe designada como G4 EA H1N1. É uma mutação do vírus relativamente comum em quintas de criação de porcos na China desde 2016, que se replica de forma eficaz nas células humanas e que já afectou dezenas de trabalhadores rurais chineses sem provocar grandes sintomas, mas os especialistas em saúde receiam que a situação não fique por aqui e lançam o alerta.

“Os vírus G4 têm todas as características para se tornarem vírus pandémicos”, disse um especialista a propósito das conclusões de um estudo apresentado no início da semana passada e que basicamente é uma chamada de atenção para um problema, por agora, a agir de forma silenciosa e aparentemente benevolente, com transmissão comprovada dos animais para os homens, mas sem haver a certeza de que a transmissão se faz de humano para humano.
No entanto, o controle da disseminação entre os porcos e o monitoramente atento das populações “deve ser implementado com urgência”.

É o que se pode aferir do estudo publicado no site da PNAS (Proceeding of the National Academy of Sciences), dos Estados Unidos, elaborado por cientistas e especialistas chineses em colaboração com várias agências de saúde pública e universidades do Reino Unido e dos Estados Unidos e que se baseia na observação de porcos em dez províncias chinesas, entre 2011 e 2018.

Em três anos de estudo, os investigadores fizeram mais de 30 mil testes aos suínos e recolheram mais de 300 amostras de sangue de pessoas em 15 quintas de porcos e mais em cerca de 230 pessoas que vivem nas casas próximas dessas quintas. O estudo constatou que 10,4 por cento dos trabalhadores apresentam resultados positivos para os anticorpos, ou seja, de alguma forma tiveram o vírus, e essa incidência é maior entre trabalhadores com idades compreendidas entre os 18 e os 35 anos (20,5 por cento).

"É preocupante que a infecção humana pelo vírus G4 promova a sua adaptação e aumente o risco de uma pandemia", escreveram os autores do estudo e pedem medidas urgentes para monitorar as pessoas que trabalham nas quintas de criação de suínos.  Ian H. Brown, virologista da Agência de Saúde Animal e Vegetal do Reino Unido, que fez a análise do estudo antes de ser publicado, esclareceu que, se o H1N1 continuar a sofrer mutações, “pode tornar-se mais agressivo para as pessoas, tal como aconteceu com o SARS-CoV-2”.

Acredita-se que o novo coronavírus, devastador para o mundo por estes dias, tenha origem nos chamados morcegos-de-ferradura do sudoeste da China e que se teria espalhado para os humanos no mercado de Wuhan, onde o vírus foi identificado pela primeira vez. James Wood, chefe do Departamento de Medicina Veterinária da Universidade de Cambridge, afirmou que o estudo é um alerta “de que estamos constantemente em risco de um novo surgimento de um patógeno zoonótico de animais de criação, com os quais os humanos têm maior contacto” (zoonótico é uma doença infecciosa causada por um agente patogénico que saltou de um animal para um humano).

Carl Bergstrom, biólogo da Universidade de Washington, põe um pouco de travão no alarme, admite que a nova estirpe tem capacidade de infectar humanos, mas considera que não há risco iminente de uma nova pandemia. "Não há evidências de que o G4 esteja a circular entre humanos, apesar de cinco anos de intensa exposição", escreveu no Twitter.

Li-Min Huang, director do Centro de Doenças Infecciosas da Pediatria do Hospital da Universidade Nacional de Taiwan, considerou que o próximo passo é perceber se os trabalhadores das quintas chinesas não transmitiram o vírus para os seus familiares mais próximos. "É um estudo muito importante, e o vírus parece bastante perigoso", disse Huang, que acrescentou, "precisamos de nos preocupar com qualquer doença com potencial de se disseminar de humano para humano".

Questionado sobre a nova estirpe do H1N1, numa audiência no Senado dos EUA, recentemente, o Dr. Anthony Fauci, o principal especialista em doenças infecciosas do país, adiantou que não sendo uma "ameaça imediata" é"algo que é preciso manter debaixo de olho”.  O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, afirmou, em conferência de imprensa, também na semana passada, que a China acompanha de perto o assunto e que "tomaremos todas as medidas necessárias para evitar a propagação e o surto de qualquer vírus".

O estudo destaca os riscos do vírus atravessar a barreira dos animais para os humanos, especialmente nas regiões densamente povoadas da China, onde milhões de pessoas vivem perto de fazendas, instalações de criação de suínos, matadouros e mercados. Este trabalho foi concluído em Dezembro de 2019, uns dias antes do surto do novo coronavírus ser conhecido na cidade chinesa de Wuhan, mas esteve a ser revisto por colégios de especialistas e só agora foi publicado.

O vírus H1N1, que causou uma pandemia em 2009, teve uma taxa de mortalidade relativamente baixa, estimada em 0,02 por cento. Muito distante da taxa de mortalidade de 2,5 por cento da “gripe espanhola”de 1918, que matou entre 40 a 50 milhões de pessoas, ou mesmo do surto pandémico de 1957, que provocou a morte a dois milhões de pessoas em todo o mundo, ou, ainda, o surto de 1968 que registou cerca de um milhão de vítimas mortais.

Uma gripe sazonal pode matar entre 250 a 500 mil pessoas por ano. Por estes dias, a Covid-19 está acima dos 10 milhões de casos confirmados e regista mais de 500 mil mortes.

Forças Armadas chinesas testam vacina

As Forças Armadas da China receberam luz verde para usar a vacina para a Covid-19, desenvolvida pela sua unidade de pesquisa da Academia de Ciências Militares (AMS) e pela CanSino Biologics, após testes clínicos que revelaram ser relativamente seguros e eficazes. A Ad5-nCoV é uma das oito candidatas às vacinas aprovadas para testes em humanos, no país e no exterior, para doenças respiratórias causadas pelo novo coronavírus.

A Comissão Militar Central da China aprovou o uso da vacina pelos militares em 25 de Junho por um período de um ano, disse CanSino, em comunicado.
"Actualmente, a Ad5-nCoV está limitada apenas aos militares e o seu uso não pode ser expandido para uma faixa mais ampla de vacinação sem a aprovação do Departamento de Suporte Logístico (da Comissão Militar Central)", adiantou ainda a CanSino.

Não se sabe se os candidatos militares o são por obrigatoriedade ou por opção.O Governo chinês não dá essa informação, por razões comerciais, dizem, citados pela Reuters. A vacina experimental está também disponível para funcionários de empresas estatais que façam viagens para o exterior. Há uma segunda vacina experimental igualmente em testes em humanos,numa altura em que mais de uma dúzia de vacinas de uma centena de candidatos estão a ser testadas em humanos em todo o mundo.

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