Reportagem

Há 63 anos Angola entrou na “idade do petróleo”

Xavier de Figueiredo

O estatuto de país produtor de petróleo (grande, à escala de África), que Angola passou a ostentar nas últimas décadas, foi o ponto culminante de uma história iniciada há 63 anos, quando na noite de 12 para 13 de Abril de 1955 jorrou finalmente crude em abundância de um jazigo furado no campo de Benfica, às portas de Luanda.

Petróleo, em África, era recurso exclusivo de países do Magrebe, como a Argélia ou Líbia; do Egipto talvez
Fotografia: Francisco Bernardo | Edições Novembro

A importância do acontecimento ultrapassava as fronteiras estritas de Angola, pelo simples facto de se tratar da primeira descoberta de petróleo com interesse comercial em toda a África Subsariana. A Nigéria e os outros produtores só vieram depois. O IV Congresso Mundial do Petróleo – naquele ano de 1955 realizado numa Roma ainda a recompor-se da guerra – seguia a liturgia dos anteriores, mais ou menos à mercê de sensaboronas comunicações, sobre temas do costume e concentrados nos lugares  de sempre (o Médio Oriente), quando algo de invulgar aconteceu. O homem ao qual é dada a palavra, está a sessão daquele dia 7 de Junho quase a terminar, é o engenheiro belga Georges Brognon.
A comunicação que apresenta só não é uma novidade absoluta porque retoma o que, em substância, ele próprio anunciara numa conferência de imprensa, em Luanda, no dia 14 de Abril, logo após ter ido ao Palácio dar a boa nova ao Governador-Geral, Agapito da Silva Carvalho: fora efectuada uma descoberta comercial de petróleo em Angola.
 Por esse tempo, a ciência e a técnica não davam como certa a existência de petróleo na parte da África situada para lá do Grande Deserto. Petróleo, em África, era recurso exclusivo de países do Magrebe, como a Argélia ou Líbia; do Egipto talvez. Para baixo não! E essa foi a verdadeira razão pela qual as reacções à comunicação de Brognon, deixavam transparecer espanto e incredulidade. Mesmo apesar da minúcia científica e técnica usada a seguir por um outro engenheiro, George Verrier, este francês, para enunciar o resultados das pesquisas que ele próprio dirigira, numa área que ficou a saber chamar-se Bacia do Cuanza (300 kms ao longo da costa Atlântica, com uma profundidade para o interior do território de 140 kms).
 Foi à Petrofina, uma companhia petrolífera belga, que couberam os méritos da descoberta. Andava desde 1952 pela Bacia do Cuanza, em campanhas de prospecção, que ela própria financiava. Mas se o feito da Petrofina podia ser atribuído a alguém, em especial, era a Georges Brognon, sujeito activo de todas as etapas até se chegar àquele momento. Devem ter sido para ele as mais estridentes palmas que terão de certeza estalado quando naquele momento o petróleo finalmente jorrou em Angola. Dirigira aquelas campanhas desde o seu começo. Trabalhava como geólogo no antigo Congo Belga quando a Petrofina o contratou para a missão na Bacia do Cuanza. 
 Todos os que com ele trabalharam, incluindo o seu braço-direito, George Verrier, o identificam como um técnico de grande competência e aplicação – atributos que associados à sua crença nos resultados do que fazia explicam em grande parte a descoberta. Morreu em França, em 1993 (fora em Portugal, porém, que, no pós-Angola se instalara), depois de uma vida longa de 78 anos. A justa fama que tinha de “nez du pétrol” (nariz do petróleo), que era aquele que cheirava o ouro negro nas profundezas da terra, fez com que até ao fim da vida fosse solicitado para pesquisas em muitos outros lugares, da Guiné-Bissau à Austrália.
 
Primeiros furos em 1910

 Para trás da descoberta de 1955 está ainda outra história, cujos primórdios longínquos, com mais de duzentos anos, não merecem ser contados, pela sua escassa importância. Apenas conta o seu primeiro momento alto, em 1910, quando uma firma com o pomposo nome Canha & Formigal, da praça de Luanda, obtém a primeira licença para pesquisar hidrocarbonetos (asfaltos e carvões), na Bacia do Cuanza. Até 1920 foram efectuados 16 furos, mas sem resultados. A seguir foi a vez de uma tal Companhia de Petróleo de Angola, associada à Cinclair Oil, dos EUA. Até 1935 efectuou 30 furos na área da Quiçama, a maior parte dos quais apresentando indícios de existência de petróleo e gás.
 Só na década de 50 – tinha, entretanto, ocorrido a II Guerra Mundial e ainda estavam vivas as suas piores sequelas - voltaria a prestar-se atenção ao petróleo que se “pressentia” existir em Angola. Agora, finalmente pela mão da Petrofina, associada à então Carbonang (Companhia de Combustíveis do Lobito), que detinha os direitos de concessão. Ainda o ano de 1952 não tinha acabado e já se passara aos trabalhos geofísicos (furos). A comunicação feita ao Congresso de Roma pelo engenheiro Verrier é o balanço de mais de dois anos de pesquisas, desta feita bem sucedidas.
 Nos tempos que viriam imediatamente a seguir a 1955 há mais duas datas marcantes. Em Julho de 1961 foi descoberto o primeiro jazigo de dimensão importante – o Tobias – que garantiu a auto-suficiência de Angola em ramas petrolíferas. Em fins de 1966 a Cabinda Gulf Oil descobriu petróleo no offshore de Cabinda (campo B). Angola entrou então definitivamente no clube dos produtores de petróleo. Em 1974, a produção era de 150.000 bpd (125.000 em Cabinda).
 A grande riqueza do território continuava, porém, a ser a agricultura (mais de 50% das exportações). Já tinha passado há muito o tempo da borracha (trazida dos Luchazes). Agora era a vez do café, do algodão, do sisal e do milho.

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