Reportagem

Homenagem aos heróis da Pátria

Victorino Joaquim |

Mais de 180 militantes do MPLA foram homenageados ontem, no complexo Futungo II, em Luanda, com a outorga de medalhas e certificados, como reconhecimento do contributo prestado em prol do partido e do país.

Vice-presidente do MPLA João Lourenço durante a cerimónia de distinção dos combatentes da luta pela independência
Fotografia: Vigas da Purificação

Numa cerimónia testemunhada pelo secretário para as Relações Internacionais do partido maioritário, Dino Matross,  e outros membros como Roberto de Almeida, Joana Lina e Paulo Kassoma, a entrega das medalhas foi feita pelo vice-presidente do MPLA, João Lourenço.
O vice-presidente do MPLA, João Lourenço, ao proceder à entrega das medalhas, sublinhou a importância desse acto de reconhecimento a militantes de várias gerações do partido.
De acordo com o dirigente, parte da história do MPLA, que hoje comemora 60 anos de existência, está representada pelas entidades homenageadas e que representam as várias gerações, desde os combatentes da luta de libertação nacional, até os que continuam a servir o partido hoje.
Ao brindar à saúde de todos os homenageados e aos falecidos, João Lourenço disse que o reconhecimento pelos feitos protagonizados nem sempre chega a tempo.
“Sempre que for possível, o reconhecimento deve ser feito em vida”, pontualizou.
O acto de outorga de medalhas aos militantes do MPLA, pelo seu contributo em prol do partido e da independência de Angola, vai prosseguir nos próximos dias, em todo o país.
As medalhas outorgadas foram divididas em cinco categorias, nomeadamente 10 de Dezembro, 17 de Setembro, Hoji-ya-Henda, Deolinda Rodrigues e Militante de Vanguarda.
A medalha 10 de Dezembro é a de maior hierarquia no subsistema de Medalhas e constitui a mais alta distinção do Partido. É de ouro e é atribuída a personalidades singulares e colectivas que, de forma abnegada e reiterada, contribuíram, durante mais de 40 anos, para a prossecução dos objectivos defendidos pelo MPLA.
A medalha 17 de Setembro é de ouro e prata, sendo atribuída a personalidades singulares e colectivas que, de forma abnegada e reiterada tenham contribuído, durante mais de 30 anos, para a prossecução dos objectivos defendidos pelo MPLA. A medalha Deolinda Rodrigues é atribuída às mulheres da OMA que tenham contribuído exemplarmente, com reiterada dedicação, durante mais de dez anos, para os objectivos do MPLA.
A medalha Hoji Ya Henda é atribuída aos militantes da JMPLA, que contribuíram exemplarmente com dedicação, durante mais de dez anos.
O mais velho Tchiteta Kajimoto Tchaila foi contemplado com a medalha 17 de Setembro. Ao Jornal de Angola disse que entrou para o MPLA há mais de 30 anos, foi guerrilheiro na quarta região, que na altura correspondia à província da Lunda. Pelo seu  empenho foi chefe de grupo e mais tarde chefe de reconhecimento e informação da região. Quando partiu para a guerrilha deixou a família. Para ele, a medalha que recebeu representa um dos maiores reconhecimentos da sua vida.
Ricardina Machado recebeu a medalha de Militante de Vanguarda de Primeiro Grau. Entrou nas fileiras do MPLA com 16 anos, em Ponta Negra, onde fez treinos militares e posteriormente foi enquadrada nas zonas libertadas de Cabinda, sua terra natal, como professora. Os seus familiares foram apanhados de surpresa com a sua integração, quando tomaram conhecimento que tinha abandonado a escola e partido para a guerrilha do MPLA.
O general na reserva e deputado Roberto Leal Monteiro “Ngongo”, com 21 anos, como estudante universitário, em Lisboa e Coimbra, começou a ter contacto directo com o MPLA, em 1967, numa altura em que estudava engenharia de minas. Teve de sair do Porto para Coimbra. Apesar de não viver directamente a humilhação que muitos angolanos viveram, visto que o seu pai era o director das Finanças da então Província de Angola, Roberto Leal Monteiro “Ngongo” sabia do sofrimento e humilhação que muitos angolanos passavam. Em 1971 foi expulso da Universidade, por se ter dedicado ao Movimento Estudantil Anti-colonialista.
Teve treino militar, na especialidade de rangers, em Lamego, e decidiu fugir de Portugal  para França, e de lá para a Argélia, com a ajuda do antigo comandante Nelito Soares.
Marcou-o na altura, o facto de se encontrar no meio de colegas militares que não podiam comunicar-se na língua portuguesa, porque o português não era dominado pelos angolanos que estavam na Frente Leste. Falavam apenas línguas nacionais. Teve que, aos poucos, integrar-se. “Na trincheira somos todos iguais, o nosso combate era o mesmo”, lembrou.
Para a PIDE foi um grande paradoxo, saber que o filho de um director de Fazenda, Jaime Monteiro, tornar-se um “terrorista”, conforme eram apelidados os militantes do MPLA.  O director da PIDE, São José Lopes, pediu ao pai do general Ngongo para o convencer a abandonar o “terrorismo”. Mas o general Ngongo manteve-se firme e garantiu ao pai que tinha de lutar para garantir a independência de Angola, desafiando o director da PIDE, que achava a intenção do general Ngongo errada e que no momento certo havia de ver a derrota dos angolanos.
A deputada Luísa Damião recebeu a medalha Deolinda Rodrigues. Luísa Damião enquadrou-se nas fileiras do MPLA ainda muito jovem, com 14 anos, na província de Benguela. Começou a fazer parte da JPMLA e só mais tarde passou a pertencer ao partido. Desde sempre comungou os ideais do MPLA. Para ela, a medalha recebida significa mais trabalho, mais responsabilidade para continuar a defender as causas do MPLA.
Para Luísa Damião, o que mais a marcou foi o facto de que desde muito cedo, o MPLA sempre defendeu os interesses do povo angolano, e teve no seu seio camponeses, operários, intelectuais, unindo de Cabinda ao Cunene todo o povo angolano.
O secretário para as Relações Internacionais do MPLA, Dino Matross, conta que o MPLA, apesar das vitórias, conheceu momentos baixos e altos. Houve muitos inimigos, muitos conflitos. “Um dos momentos baixos foi quando o partido teve a primeira crise interna, em 1963. Mas depois, o partido alargou-se para as diversas regiões do país. Hoje temos um MPLA mais activo, mais forte, que está a trabalhar pela manutenção da paz em Angola, o desenvolvimento sócio-económico do país, e aposta no futuro para o bem do povo angolano.”
Dino Matross entrou para as fileiras do MPLA com 18 anos. Na altura, o seu pai estava preso. Foi em Março de 1961. Eram jovens estudantes e conheciam a realidade angolana, que estava a viver sob pressão colonial. “Os nossos pais e outros bravos combatentes pela independência nacional sentiam-se escravizados. Com todo o risco, que sabiam que podiam correr, foram à luta.”
Um dos factores que também o influenciou foi o facto de, na altura, muitos países africanos se tornarem independentes, como é o caso do Congo Kinshasa, isto em 1960. “Este facto capitalizou os nossos sentimentos patrióticos”, disse.
A partir de 1962 teve de abandonar o país, a família e os amigos para ir estudar na Bulgária. Foi um momento que muito o marcou, por ficar muito tempo sem comunicação. Depois de completar os estudos, partiu para a região Leste, juntamente com Afonso Van-Dúnem Mbinda e muitos outros, fazendo a abertura daquela região.

Documentos

Muitos dos jovens dirigentes ligados ao partido no poder admirar-se-iam ao ler documentos antigos do MPLA, ao inteirarem-se dos seus autores e idade à data de concepção de tais escritos, a sua abrangência dentro da definição do amplo Movimento Popular de Libertação de Angola.
O contacto com tais documentos, fosse na forma de panfletos, fosse em reuniões clandestinas mantidas, sobretudo, nos musseques de Luanda, deram a muitos dos nacionalistas de então, ampla visão do que se pretendia de facto empreender.
Uma leitura pausada seguida de discussão sobre documentos do MPLA-Movimento, como o Programa Mínimo, sem falarmos do Máximo – ainda por cumprir – dariam a muitos visões diferentes da realidade actual. O importante será não apenas escrever mais, mas ler o pouco que já está escrito.
É verdade que, hoje, fruto da História recente, de tudo o que aconteceu e mudou a correlação de forças na sub-região, no continente e, de forma geral, no Mundo, o MPLA teve de adaptar estratégias, plasmadas, sobretudo, no seu Programa Máximo.

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