Reportagem

Humpata já transforma o mármore

Arão Martins | Humpata

A transformação das rochas ornamentais em produto acabado no país, uma acção inserida no programa do Executivo de diversificação a economia, tem, doravante, o contributo da primeira fábrica de mármore, instalada no município da Humpata, província da Huíla.

Fotografia: Arão Martins | Edições Novembro | Humpata


O Executivo angolano deseja o aumento gradual da capacidade de produção, do consumo interno, do incremento das exportações e a valorização do produto final, mediante o investimento na base tecnológica de produção e comercialização. A fábrica da Humpata responde a esse desafio.
Vocacionada para a transformação de granito negro em mármore, a fábrica do consórcio Edson Yuan Mármore produz chapas polidas, não polidas, mosaicos, parquet, bancadas, escadas, soleiras, janelas, portas, campas, mesas de lazer, secretárias, bancos, mesas de chá e lancis. A timbragem de diversos tipos de imagens e escrita na pedra são outras das actividades que a fábrica efectua no seu dia-a-dia.
Apesar de ser um investimento privado, a fábrica encaixa-se na estratégia do Executivo de criar valor acrescentado aos recursos que abundam no subsolo angolano, de modo a evitar a exportação em forma de matéria-prima.
Esta é uma razão pela qual a fábrica está inserida no programa do Executivo, que visa assegurar uma oferta nacional básica, que garanta uma produção significativa e reduzir de forma substancial as importações destes bens.
O investimento na instalação de uma fábrica de transformação de granito, na actual fase, contribui para a robustez do Orçamento Geral do Estado (OGE), através do pagamento de impostos e prestação de serviços. A indústria de mármore apresenta uma variada linha de produção que inclui, além dos materiais utilizados na construção civil, outros que são empregados em diversas actividades produtivas.
Trata-se de um posto intermédio na cadeia de valor do mármore que é explorado e transportado em blocos a partir de outras empresas nos municípios da Chibia e Gambos, a 45 e 150 quilómetros a Sul da cidade do Lubango. A exploração de mármore na Humpata permitiu criar 70 empregos directos a jovens.
Cruz da Silva, responsável pela área comercial, realça a qualidade do produto, comparando-o ao melhor que existe no Mundo. A notoriedade é conseguida com a conjugação do ‘design’ do produto e a qualidade da pedra natural explorada pelas empresas Angostone e Cariango.
O mármore e o granito que antes saíam do Caraculo, Namibe, Benguela e Huíla para mercados no exterior em forma de matéria-prima, são hoje encaminhados para  transformação na Humpata, de onde saem placas decorativas em tons negros, esmeralda, rosa, branco, cinzento escuro e claro, vermelho e castanho.

Complexo industrial
No perímetro da fábrica foram instalados o escritório, armazéns e área logística, resultantes de um investimento total de 6 milhões de dólares norte-americanos.
O grupo empresarial tem-se adaptado aos novos tempos, antecipando o futuro, com inovação nos métodos e produtos. Assim, posiciona-se no mercado nacional de forma a responder às exigências do sector e do Executivo, na apostar em factores de competitividade e valor acrescentado no mercado da construção civil.
A fábrica tem capacidade de cortar 300 metros cúbicos de blocos, o que corresponde a mais de 10 mil metros cúbicos de placas por mês, mas pode transformar mais, em função das solicitações.
Segundo Cruz da Silva, para o sucesso da sua actividade, a fábrica instalada numa zona rural dispõe das mais avançadas tecnologias do sector da transformação das pedras ornamentais, o que lhe permite executar os mais complexos trabalhos de forma precisa e competitiva. Apesar de ser relativamente nova no mercado, a Edson Yuan Mármore é já uma referência nacional e internacional na industrialização e comercialização de mármores e compra de granito.
A exploração está na fase inicial e em função da novidade no mercado os preços estão em promoção no caso das campas, escadas, mesas, mosaicos e soleiras, entre outros. Cruz da Silva considera os preços imbatíveis, tendo em conta o que se verifica noutros mercados.

Emprego no meio rural
A instalação da fábrica de transformação da matéria-prima nacional em produto acabado no município da Humpata permitiu a criação de 70 empregos directos para jovens angolanos. Na folha de salários constam apenas os nomes de três estrangeiros. Muitos jovens que trabalham na fábrica são oriundos dos municípios da Chibia, Caluquembe, Matala, Cacula e Quilengues, mas a maioria nasceu no município da Humpata, havendo outros oriundos das províncias de Benguela e Cuanza Sul.
Nelson é oriundo da Canjala, município do Lobito. Para ele, a entrada em funcionamento da empresa foi uma oportunidade de obter emprego e, assim, sustentar a família. Outro trabalhador, José Xavier, é natural do bairro Tamana, arredores da sede municipal da Humpata. A implantação da fábrica na sua terra natal, disse, beneficiou as condições de vida locais, além de diversificar a economia.
Carlitos Domingos, natural do município da Humpata, utiliza os conhecimentos adquiridos em sessões formativas na empresa para construir lajes funerárias.
Outro jovem que ganhou emprego na fábrica da Humpata é José Bento.
Natural da Missão Católica do Tchivinguiro, o técnico de máquina polidora confessa que no princípio foi difícil aprender o ofício, mas com o tempo e depois das acções formativas de que beneficiou na fábrica, consegue fazer com perfeição o trabalho.
“Trabalhar com técnicos chineses é salutar, porque aprende-se muito. Se tiver uma cabeça dura, eles motivam o trabalhador, o que é positivo”, afirmou.
Por sua vez, António Ferreira, natural do município da Gambela, província do Cuanza Sul, tem a missão de acolher os jovens trabalhadores de outras províncias e fornecer as condições adequadas. Além do salário auferido, os trabalhadores recebem três refeições diárias e desfrutam de alojamento.

Benefícios para o município
A administradora municipal, Paula Nassone, fala com regozijo sobre os benefícios da fábrica de transformação de granito e mármore na Humpata. Segundo ela, existem na região condições para o surgimento de novas actividades económicas no município. Paula Nassone define a Humpata como uma região próspera, com destaque para a pecuária e agricultura, com realce para a produção de fruta, em especial maçã e pêra. Por isso, considera que a indústria transformadora tem um grande potencial de investimento económico.
Um dos exemplos citados pela administradora municipal é a instalação da fábrica de mármores e de granito. “A partir da Humpata também já é possível produzir mosaico e outros materiais essenciais para a construção civil”, apontou a administradora, que coloca entre os principais beneficiários do investimento o próprio Estado, que vê reduzido, em parte, a factura dos programas de auto-construção dirigida e do fomento habitacional.

Duas fábricas
O consórcio Edson Yuan Mármores anunciou também o investimento em duas fábricas, uma de blocos e outra de plástico, que entram em actividade, segundo o gestor comercial, dentro de alguns meses.
As duas unidades fabris vão gerar 200 postos de trabalho  directos. “Os processos de implantação das fábricas de blocos e de plásticos estão bem avançados”, garantiu Cruz da Silva.
A iniciativa privada tem ainda a contribuição do Estado no papel de coordenação e regulação, através da criação de um quadro favorável à sua operação nos diversos sectores.

  Centro de processamento de rochas ornamentais

Recentemente, a cidade do Lubango acolheu um seminário metodológico regional sobre a classe das rochas ornamentais, orientado pelo ministro da Geologia e Minas, Francisco Queiroz.
O objectivo do seminário foi doptar os operadores de informação sobre o programa de aumento de exportações de rochas ornamentais, assinalar a necessidade da observância das obrigações contratuais e o cumprimento da Lei, levar à sensibilidade dos operadores a aplicação do Decreto Presidencial sobre transgressões administrativas no sector da Geologia e Minas, recentemente aprovado.
Durante o seminário foram debatidos temas como “Programa de aumento da produção e exportação de rochas ornamentais”, “Obrigações contratuais dos titulares de direitos minérios na classe das rochas ornamentais”, “Acompanhamento da actividade de exploração de rochas ornamentais” e “Aplicações da Lei sobre as transgressões administrativas no sector da Geologia e Minas”.

Alinhamento de objectivos
Pretendeu-se ainda estabelecer o alinhamento entre as empresas que actuam no subsector das rochas ornamentais e o Executivo, no que se refere ao apuramento de dados fiáveis para produzir informação de qualidade sobre o potencial de produção, transformação e comercialização de rochas ornamentais.

Investimentos
O ministro da Geologia e Minas, Francisco Queiroz garantiu, na ocasião, que o Executivo procura investir forte na melhoria do ambiente institucional e no processo de moralização do sector, visando a consolidação de um clima de confiança e segurança em toda a cadeia administrativa do investimento minério.
O ministro referiu-se aos dados produzidos pelo Planageo, que através de métodos cientificamente apurados, revelou estruturas geológicas com grande potencial minério, onde se destaca o complexo gabro-anortesítico do Cunene, que se estende da província da Huíla, passando pelo Cunene e penetra em território namibiano.
Segundo Francisco Queiroz, na legislatura 2017/2022, vão entrar em funcionamento novas pedreiras, o que vai permitir elevar a produção no país, que tem um grande potencial no domínio de rochas ornamentais e um quadro regulador, assente no Código Minério, à altura das necessidades regulatórias do sector dos investidores.
As projecções apontam para que na legislatura de 2017/2022, Angola atinja uma produção global de cerca de 357 mil metros cúbicos, das quais se prevê exportar cerca de 286 mil metros cúbicos, no valor máximo de 66 milhões de dólares, com a entrada em produção de 10 novas pedreiras e de outras que já solicitaram licenças.
O governante explicou que por se tratar de um recurso mineral com procura no mercado global, o Executivo elegeu as rochas ornamentais como um dos produtos para exportação e fonte de arrecadação de receitas para o país.

Projectos de rochas

Existem projectos de rochas ornamentais em actividade nas províncias da Huíla, Namibe, Cuanza- Sul e Zaire, anunciou Francisco Queiroz. “O nosso propósito é, no âmbito da execução dos indicadores do Plano Nacional de Desenvolvimento, reunir sinergias para realizarmos o Programa do Executivo para o aumento da exploração e exportação de rochas ornamentais”, referiu.
O programa assenta no crescimento da produção das 16 pedreiras já em fase de exploração e na entrada em exploração de 10 novas pedreiras, actualmente em etapa de desenvolvimento, nas províncias da Huíla, Namibe e Cuanza-Sul, o que vai totalizar 26 pedreiras na fase de arranque deste programa.
Às pedreiras em actividade juntam-se 12 fábricas de corte, polimento e beneficiamento de rochas ornamentais.

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