Reportagem

Igreja da Nazaré nas raízes do povo

Mazarino da Cunha |

Três séculos e meio de existência da Igreja de Nossa Senhora da Nazaré em Luanda. Joana Guerreiro, 91 anos, 87 dos quais devota à Nazaré. Ela afirma ser “filha mais velha” daquela Padroeira. 

Num ambiente de emoção e de esperança dos três séculos e meio de crença os cristãos vindos de várias paróquias de Luanda rezaram e entoaram louvores nas diferentes línguas nacionais
Fotografia: Dombele Bernardo

Severino Kulivela, natural do Huambo, dedica a sua vida à Nazaré desde 1979. A proximidade da igreja ao mar faz Severino Kulivela reflectir todos os dias sobre a relação que existe entre Deus, o homem e a natureza.
A devota Joana Guerreiro disse ao Jornal de Angola que tem uma afinidade muito forte e antiga para com a Igreja da Nazaré. Acompanhada antes pelos seus pais, a devota Joana recebeu todos os seus sacramentos naquela igreja da Baixa de Luanda.
Num ambiente de emoção e de esperança dos três séculos e meio de crença, os cristãos, vindos de várias paróquias de Luanda, rezaram e entoaram louvores nas diferentes línguas nacionais. Para os presentes na cerimónia, cantar, rezar e venerar em diferentes línguas demonstra quanto valor tem a Igreja de Nossa Senhora da Nazaré na fé dos angolanos.
Construída em 1664, a pedido do governador português, André Vidal de Negreiros de em agradecimento a Deus por ter sobrevivido a um naufrágio, durante a viagem do Brasil para Angola, naquele mesmo ano, é frequentada por milhares de devotos vindos de outras terras.
Quem tem fé em Deus, frisou Severino Kulivela, recebe graças por intersecção à devoção à Nossa Senhora da Nazaré. “A minha vida, pessoal e familiar tem sentido por eu ter conhecido há 37 anos essa padroeira”, realçou.
Visivelmente feliz pela celebração eucarística, em agradecimento aos 352 anos de permanência na devoção em Luanda, Severino Kulivela rematou, dizendo que deixou a sua terra natal por causa da aparição de Nossa Senhora da Nazaré. O mesmo disse que se os jovens amarem e tiverem esperança em Deus, tudo de bom nas suas vidas vai acontecer ao seu devido tempo.

Missa de acção de graças

A missa de acção de graças em alusão aos 352 anos de existência da Igreja de Nossa Senhora da Nazaré, construída em 1664, na Baixa da cidade de Luanda, foi celebrada domingo, pelo bispo auxiliar de Luanda, Dom Zeferino Zeca Martins.
A cerimónia eucarística juntou fiéis e devotos vindos de várias paróquias de Luanda, para, num só propósito, agradecerem pelas graças alcançadas ao longo de três séculos e pedirem também a intercessão de Maria Mãe de Deus pela paz, amor e solidariedade entre as nações.
Na homília, o bispo auxiliar de Luanda pediu aos cristãos para não terem medo de acolher alguém que esteja a sofrer e a precisar de ajuda. "O mendigo, o viajante, o migrante, dentre outros que estão espalhados no mundo, esses devem ter um tratamento mais cuidadoso", frisou. O prelado católico recordou que o povo de Angola foi evangelizado por outros povos, vindos de culturas diferentes, o que nos permitiu deixar algumas práticas ancestrais que feriam a fé cristã. Por isso, frisou Dom Zeca Martins, a igreja cristã defende o casamento monogâmico e indissolúvel, o direito pelo respeito às autoridades civis e à sua hierarquia máxima.
Dom Zeca Martins solicitou os crentes a serem mais solidários para com os outros e, em particular, nesses momentos mais difíceis que o país atravessa. O bispo em comunhão com os devotos da Nazaré, presentes na festa, agradeceu à Nossa Senhora da Nazaré pelo alcance da paz, pelo dom da unidade nas famílias angolanas e pelo crescimento da igreja em Luanda. Luanda, frisou o bispo auxiliar, com o alcance da paz, tornou-se numa cidade multicultural, que acolhe povos com culturas, ideologias, origens, crenças e perspectivas muito diferentes das nossas.
Na visão do bispo, esta realidade não interessa a um cristão que tem como centro da sua devoção Nossa Senhor da Nazaré. Para o prelado, o que vale é "termos o mesmo coração", aquele que Maria Mãe de Deus nos ensina a ter todos os dias.
Dom Zeca Martins apelou aos homens para deixarem de olhar a mulher apenas como uma escrava, uma explorada, um objecto de satisfação carnal e uma doméstica para simplesmente gerar filhos. O bispo disse que Deus já ensinou a humanidade a considerar a mulher como "companheira da vida que deve merecer a confiança absoluta."
Edificada em 1664, a Igreja de Nossa Senhora da Nazaré está localizada junto ao Oceano Atlântico, o que reflecte a sua importante ligação com os povos que entravam e saíam de Luanda. Hoje, 352 anos depois, a igreja encontra-se rodeada de vários edifícios novos e jardins, com realce para os mais recentes: o jardim do Ambiente e o da Marginal.
O pequeno templo de Deus tem uma decoração medieval repleta de azulejos, que demonstram as estórias e milagres dos anos passados, em particular dos viajantes. No seu interior, além da imagem da Nossa Senhora da Nazaré, existem igualmente outras imagens de santas.
A Igreja de Nossa Senhora da Nazaré de Luanda é uma réplica daquela que existe em Portugal. Para a história de Luanda, a igreja passa a ser um Monumento Histórico Nacional. Hoje, aquela igreja é uma paróquia da Baixa da capital e um santuário por onde passam diariamente centenas de fiéis com crença na Mãe de Deus.

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