Reportagem

Imóveis estão a preços atractivos

Natacha Roberto

A redução significativa dos preços dos imóveis no centro da cidade de Luanda está a transformar o mercado imobiliário. Edifícios e habitações construídas de raiz, com tecnologias mais avançadas, estão disponíveis a preços mais baixos.

Fotografia: Contreiras Pipa | Edições Novembro


O edifício Kilamba é um dos inúmeros exemplos. Inaugurada no ano passado, a torre de alto padrão corresponde bem às expectativas de grandes empresas.
Hoje, face à mudança radical do mercado, a qualidade está para todos as carteiras. A Torre Kilamba segue a regra: oferece oportunidades de arrendamento para pequenas e grandes empresas com necessidade de garantir aos empregados melhores condições de trabalho.
A arquitecta Rosina Inglês dos Santos garante que a nova era do mercado imobiliário é positiva, porque garante mais possibilidades de compra e arrendamento. “Antes da crise que se verificou no mercado imobiliário, as nossas expectativas de vendas e arrendamentos eram apenas para uma alta gama de empresas estrangeiras, como as petrolíferas face à especificidade do edifício e à sua localização”, afirmou.
Para a construção da Torre Kilamba, localizada na zona nobre da Baía de Luanda, o proprietário investiu cerca de 102 milhões de dólares norte-americanos, incluindo os estudos dos solos e a elaboração dos projectos executivos, sendo que parte do orçamento foi obtido através de um financiamento de 74 milhões.
“O projecto obedeceu a várias fases de construção com grande complexidade, por isso, decidimos na altura arrendar ao preço praticado no mercado imobiliário que estava estimado em 200 dólares por cada metro quadrado”, revelou.
O preço corresponde à modernidade do edifício, por ter sido concebido para ser um marco na cidade Luanda, com recurso às novas tecnologias de construção a nível mundial.
Mas hoje, a realidade obrigou a mudanças no preço do metro quadrado dos edifícios localizados na cidade. A procura de imóveis decaiu muito em função da crise que afectou a actividade das empresas multinacionais que eram os maiores clientes. “Desde 2010 que os preços de arrendamento vêm caindo e hoje situam-se abaixo da metade do valor antes praticado”, revelou a arquitecta.
A zona da Baía de Luanda dispõe de grandes infra-estruturas que são arrendadas aos preços mais altos do mercado imobiliário. A Torre Kilamba sobe a fasquia pela sua peculiaridade: possui um sistema de gestão integrada que, de forma automática, faz o controlo dos equipamentos instalados no interior, para garantir o rigor do seu funcionamento. “Os elevadores levam o utilizador até ao 26.º andar, o último do edifício, em pouco menos de seis segundos”, exemplificou. Possui ainda controlo de acesso, sincronismo no funcionamento dos geradores e sistema de combate a incêndio.
Rosina Inglês dos Santos sublinha que estes modernos sistemas estão ao dispor de qualquer empresa interessada em arrendar um espaço no edifício. “O utente pode ocupar um andar de acordo com a sua necessidade. Temos disponíveis escritórios com copas, sala de bastidores e instalações sanitárias de ambos os sexos e para portadores de deficiência”, destacou.
O centro de Luanda congrega as mais importantes empresas e instituições financeiras do país e o edifício Kilamba distingue-se por estar no espaço de maior visibilidade da cidade. No seu interior, os escritórios são do tipo amovível, com a possibilidade de serem alterados em função das necessidades de cada cliente.
Rosina Inglês dos Santos explica que o interior do edifício Kilamba está concluído e tem disponíveis escritórios de 30 a 430 metros quadrados. “O empresário precisa apenas de instalar as comunicações para facilitar o trabalho”, explicou.
As condutas de despejo de lixo, as três caves com 145 lugares de estacionamento e um parque exterior sob gestão do Governo da Província são algumas facilidades disponíveis.
O centro financeiro e a Feira Internacional, que passa a ser realizada na Baixa de Luanda, prestigia ainda mais a Baía, onde estão sediadas inúmeras empresas públicas e privadas.

Novo ambiente económico
O presidente da Associação dos Profissionais Imobiliários de Angola (APIMA), Cleber Correa, considera esta fase como um “novo momento económico”. “Esta baixa na compra de imóveis é para mim um novo momento económico que de forma positiva amplia o universo de pessoas a ter acesso às habitações”, disse.
Cleber Correa garante que, conforme os preços baixam, mais pessoas podem ter acesso às habitações ou aos edifícios de escritórios, que na sua opinião precisam do apoio incondicional do Estado. “Como um jovem empreendedor vai conseguir pagar mil dólares mensais num dos novos edifícios?”, questiona.
Para o empresário, esta situação obriga muito empreendedores a arrendarem na periferia, onde os preços são mais baixos. Mas, o novo momento económico está a mudar todo a forma de comercializar. Em Talatona, por exemplo, o preço do arrendamento e venda das habitações caiu quatro vezes. Neste zona nobre, o preço do metro quadrado para escritórios baixou de oito mil para quatro mil kwanzas.
“Em função da grande mudança, os empresários são hoje obrigados a diversificar os seus produtos para todo o tipo de classe. Administrar a documentação dos imóveis do comprador, gerir os condomínios e outros serviços devem fazer parte da nova era”, realçou.
Recentemente, numa reunião com a ministra do Urbanismo e Construção, a APIMA propôs para a zona de Icolo e Bengo a construção de um loteamento de 23 hectares, com ruas, passeios, sistemas de drenagem, redes de distribuição de luz e água canalizada e postos médicos.
O responsável da Pro-Imóveis acredita que a proposta, além de garantir acesso a habitações para todas as classes sociais, proporciona também maior qualidade de vida. “Os beneficiários podem ter acesso aos lotes onde vão construir as suas residências, com financiamento cedido pelo banco, descontado em taxas mensais”, esclareceu.
Na sua óptica, a promoção de uma construção dirigida com lotes urbanizados é a melhor opção. “Estas construções ajudam a manter o ambiente agradável e o morador a sentir-se inserido na sociedade”, realçou.
Para os próximos anos, o empresário prevê mais oportunidades de acesso à habitação, com a redução dos preços dos materiais de construção civil que hoje são adquiridos a custos mais baixos em relação ao passado. “As empresas ficaram muito numa zona de conforto, vendiam para a gama alta, mas agora, em função do momento, os preços das casas desceram e ainda vão reduzir mais”, defendeu.
A APIMA quer contribuir para um mercado mais abrangente em consonância com as instituições que intervêm no ramo habitacional. Cleber Correra revelou que a direcção quer propor ao Governo uma lei que regula os imóveis e rever os prazos de licença de obra para agilizar a construção.
“O que condiciona os investimentos das empresas do sector da construção são as licenças que demoram a ser autorizadas. Este condicionalismo atrasa o início das obras e a entregas das casas”, explicou.
Além de Luanda, a Associação dos Profissionais Imobiliários de Angola (APIMA) está representada nas províncias de Benguela, Huambo e Lubango.

Espaços com qualidade
Com a crise económica provocada pela queda do preço do petróleo, a instabilidade cambial causou um abrandamento em vários sectores da actividade produtiva e financeira.
A arquitecta Rosina Inglês dos Santos realçou ainda o abrandamento na execução dos planos de investimento das empresas estrangeiras e a retirada de algumas do país, deixando disponíveis áreas imobiliárias no centro da cidade.

 

  Especialista fala de dificuldades e desafios

O especialista em investimento imobiliário, João Mainsel, acredita que o mercado ficou abalado devido às restrições de crédito às empresas. Face aos riscos que a economia apresenta hoje, a taxa de 25 por cento ao ano condicionou o investimento de muitas imobiliárias.  “Apesar de ter sido realizado um trabalho árduo de investimento nos materiais de construção como o cimento, aço e tijolo, os rendimentos médios dos funcionários deixou de seguir as mudanças do mercado”, referiu. “Há todo um esforço para fazer um imóvel e ainda precisamos de recorrer à importação para o acabamento das habitações”, acrescentou.
Para João Mainsel, a presença chinesa trouxe uma nova dinâmica e forma de construir.  “As obras chinesas trouxeram novas fórmulas e sistemas de construção, e investiram em profissionais nacionais que hoje têm capacidade para gerir obras de construção”, disse o especialista.
A crescente oferta pública nas novas centralidades e bairros sociais minimizou a carência de habitações. João Mainsel garante que essas urbanizações reduziram a especulação imobiliária.

Banco de Fomento
João Mainsel considera crucial a criação de um Banco de Fomento Habitacional que apoie a indústria de construção e permita que todas as classes sociais tenham acesso às habitações. Um banco de capitais públicos amplia a oferta de imóveis de forma sustentável através dos financiamentos. Para o especialista, o fomento à indústria de construção civil e ao ramo imobiliário é a chave para as soluções financeiras de financiamento à habitação.
Na sua visão, a intervenção do Estado deve cingir-se à criação de um banco que estimule determinados projectos como a auto-construção dirigida e de grandes urbanizações, e actue como promotor e regulador do mercado.
João Mainsel, além de especialista em investimento imobiliário, dirige o projecto Atlantic City com 719 lotes disponíveis na zona dos Ramiros. Outro empreendimento na mesma zona é o Sun City, com 840 lotes. “Queremos fazer de Ramiros um novo eixo de desenvolvimento urbano. É a entrada de Luanda na parte Sul e tem menos construções desorganizadas do que outras regiões de Luanda”, acentuou. “Estão em vista mais quatro empreendimentos nesta via onde a paisagem é mais atractiva”, realçou. De 2014 a 2017, em parceria com sócios, construiu seis empreendimentos e 17 edifícios residenciais.

A visão do Estado
A  ministra do Urbanismo e Habitação reconheceu, recentemente, que os investimentos no sector imobiliário sofreram uma redução considerável, devido a dificuldades de acesso a divisas, para a importação da matéria-prima e recomendou aos agentes económicos, a procurarem fontes alternativas e inovadoras de financiamento, bem como a utilização de matérias de construção nacionais.
Branca do Espírito Santo afirmou mercado deixou de ser dinâmico, numa altura em que falta crédito para a promoção imobiliária e habitação e um quadro legal que potencie o surgimento de um mercado de arrendamento atractivo para os investidores.
A ministra aconselhou os agentes imobiliários a  trabalharem em união e maior participação de todos os associados, no mercado imobiliário, ao invés de optarem pelo individualismo. “É um acto de coragem e dignidade humana o papel, que assumem os dirigentes associativos, que pelo seu trabalho voluntário contribui para manter vivos estes espaços de solidariedade profissional e social”, frisou. 
O ministro da Construção, Artur Fortunato, falou numa nova visão de desenvolvimento urbano, que permite um menor investimento do Estado, ao mesmo tempo que alavanca e potencia o sector privado e garante também o retorno do valor aplicado, disse, no acto de consignação.

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