Reportagem

Incêndios,destruiçãoe morte

Osvaldo Gonçalves

A onda de calor na Europa, Estados Unidos e Japão vem reforçar os alertas feitos de forma sucessiva pelas populações e ambientalistas a respeito do grave problema do aquecimento global.

Os incêndios florestais tinham assombrado a Califórnia em Julho último e no ano passado, mas, agora, dois grandes fogos uniram-se num só e lavram no Parque Nacional de Mendocino
Fotografia: DR

Em Portugal, após a tragédia, há pouco mais de um ano, em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria, província da Beira Litoral, onde morreram perto de 70 pessoas e houve uma área queimada de 53 mil hectares, eis que este ano as atenções estão postas em Monchique, no Algarve. Numa semana de incêndios, arderam mais de 23 mil hectares de terrenos, o equivalente a 23 mil campos de futebol, e as autoridades falam em 41 feridos, apenas um dos quais em estado grave.
Na vizinha Espanha, o incêndio florestal de Llutxent, Valência, queimou 2.857 hectares de seis municípios, obrigou a desalojar mais de 2.600 pessoas e afectou 40 vivendas de urbanizações de Gandia. No combate ao fogo, foram utilizados 28 meios aéreos e mais de 700 operacionais, entre guardas florestais da Generalitat, bombeiros das províncias de Valência, Castela e Alicante e do parque de Valência, assim como membros da Unidade Militar de Emergências.
Os incêndios florestais em Portugal e Espanha sucederam-se aos trágicos acontecimentos ocorridos na Grécia, onde o fogo traiçoeiro causou a morte a, pelo menos, 93 pessoas e causou mais de 150 feridos. Outras 25 são ainda dadas como desaparecidas. Mais de 1.500 casas foram destruídas e 2.100 hectares de floresta arderam.
A tragédia na Grécia levou a demissões e substituições no Governo e da polícia, além de colocar as autoridades sob fortes críticas dos partidos da oposição, com estes a defenderem que o Governo não fez o suficiente para prevenir os efeitos dos incêndios e garantir a segurança das populações perante o perigo.
A oposição grega chegou mesmo a afirmar que o governo tentou esconder, por várias horas, a verdadeira dimensão da situação, argumentando que, perante os ventos fortes sentidos na altura, as autoridades não tomaram as medidas suficientes para iniciar uma possível evacuação.
Os graves incêndios florestais nesses três países são as mais dramáticas demonstrações da grande onda de calor que afecta o continente europeu, em geral, e os países do Mediterrâneo e a Península Ibérica, em particular. O recorde europeu em temperaturas elevadas é de 48C, registado em Julho de 1977, em Atenas, Grécia, mas os meteorologistas dizem que o mesmo pode agora ser batido. 
A subida de temperaturas na Espanha e em Portugal está a ser ajudada por uma onda de ar quente ida do Norte de África. Essa onda de calor, também chamada “tempo de canícula”, é um período prolongado de tempo excessivamente quente, que pode ser também húmido em excesso.
Em Portugal, a onda de calor é grave para o ser humano, além da acção directa dos incêndios florestais. O número de mortes em consequência das altas temperaturas é assustador, chegou a 500 em três dias. 

Estados Unidos
Nos Estados Unidos, o estado da Califórnia regista o maior incêndio florestal da história. Em cerca de um mês, 14 mil pessoas foram afectadas na área da Serra Nevada. Mais de 2000 edifícios arrasados pelas chamas. Há pelo menos 17 mortes confirmadas e cerca de 180 pessoas com paradeiro desconhecido.
Os incêndios florestais tinham assombrado a Califórnia em Julho último e no ano passado, mas, agora, dois grandes fogos uniram-se num só e lavram no Parque Nacional de Mendocino. Mais de 114 mil hectares, o equivalente à extensa cidade de Los Angeles, foram arrasados pelas chamas. No total, existem no momento 18 grandes incêndios florestais activos na Califórnia e cerca de 230 mil hectares já arderam.
No Japão, 11 pessoas morreram numa residência para idosos, em Sapporo, no Norte do país. Imagens de televisão mostraram o edifício de três andares em chamas e dezenas de bombeiros a lutarem contra o incêndio. Cinco residentes conseguiram escapar com lesões menores.
 Em situação oposta estão 16 milhões de crianças que, segundo o UNICEF, necessitam de ajuda urgente no Sul da Ásia devido às cheias. Inundações consideradas catastróficas ocorreram no Nepal, Índia e Bangladesh. Pelo menos 1.288 pessoas morreram e mais de 45 milhões foram afectadas.

Monchique dominado depois de 27 mil hectares de devastação

 
O incêndio que lavra há uma semana em Monchique, Algarve, Sul de Portugal, foi  dominado, ontem, confirmaram autoridades da Protecção Civil. No balanço feito em conferência de imprensa, Patrícia Gaspar, segunda comandante operacional da unidade, deu conta de 41 feridos, um em estado grave. Dos restantes, 22 são bombeiros. O número de deslocados diminuiu, entretanto, para 49, precisou.
Patrícia Gaspar garantiu que os operacionais vão manter-se no terreno, para acautelar possíveis reacendimentos. O trabalho dos bombeiros, disse, vai dar lugar progressivamente aos trabalhos de rescaldo e vigilância. 
No terreno, estão 1.371 operacionais, apoiados por 442 viaturas e dois meios aéreos. O fogo já destruiu cerca de 27.000 hectares, mais de metade dos 41 mil que arderam na mesma região em 2003, nos concelhos de Monchique, Portimão, Aljezur e Lagos, segundo. Os dados são os mais recentes disponibilizados pelo Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais (EFFIS), tornando o incêndio o maior este ano, em Portugal, e na Europa, em termos de área ardida. 
Este ano, o maior incêndio, em termos de área ardida, que se tinha verificado em Portugal, era o que deflagrou em Fevereiro, na Guarda, onde arderam 86 hectares. As chamas desse incêndio, que deflagrou na localidade de Perna Negra, provocaram 39 feridos.
No ano passado, as chamas destruíram mais de 440 mil hectares, o pior ano de sempre em Portugal, segundo dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
Quanto aos maiores incêndios em termos de área ardida ocorridos no ano passado, no topo da lista aparece o que teve origem no dia 15 de Outubro, em Seia/Sandomil, no distrito da Guarda, que destruiu 43.191 hectares.
Questionada sobre os prejuízos, Patrícia Gaspar indicou que todas as autarquias afectadas pelos incêndios já têm técnicos no terreno para fazer um levantamento dos danos.

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