Reportagem

Incontinência urinária e outros males vão dar à fisioterapeuta pélvica

Edna Cauxeiro

Não passava de uma menina, quando, na brincadeira, começou a dar os primeiros passos para a Medicina, profissão que exerce hoje. Durante anos, Adalgiza Mualubambo, especialista em fisioterapia pélvica, encontrou na irmã mais nova, Sayonara, a sua primeira paciente.

Fotografia: AGOSTINHO NARCISO | edições novembro

Simples, simpática e determinada, qualidades de um doce de pessoa, a médica, primogénita dos três filhos do casal José e Maria Mualubambo, fala com firmeza da sua especialidade e mostra-se satisfeita por conseguir devolver o sorriso a pacientes levados ao seu consultório por problemas que afectam a sexualidade e a auto-estima.
Esposa e mãe dedicada à família e ao lar, Adalgiza dispensa a ajuda de uma secretária do lar. Deu exemplo de que é possível conciliar o lado profissional com a condição de dona de casa, desde que se faça tudo com amor.
Por trás do rosto de menina e do sorriso aberto, que oferece a quem de si se aproxima, esconde-se a primeira e até agora única fisioterapeuta pélvica angolana. Constantemente confundida pelos pacientes com uma "miúda", a médica prova por A+B, aos pacientes, ser a pessoa certa quando o assunto é incontinência urinária, ejaculação precoce, disfunção eréctil ou relaxamento da musculatura vaginal, no pós-parto, entre outras patologias que afectam homens e mulheres.
Formada em fisioterapia no país, pela Universidade Privada de Angola (UPRA), Adalgiza Mualubambo especializou-se no Instituto Inspirar, em Curitiba, São Paulo, Brasil.
A escolha do ramo de Medicina que exerce deveu-se a um episódio que a marcou no início de carreira: a equipa de médicos com que trabalhava atendeu uma gestante, com muitas dores, e precisava da ajuda de um especialista.
"Não sabíamos como fazer o tratamento. Foi quando percebi que precisávamos mesmo dessa especialidade no país. Tínhamos pacientes, mas não tínhamos especialistas", revelou.
Casada com Francisco Manuel Amaro, mãe da pequena Wizana, de oito anos, a médica divide-se entre as tarefas de dona de casa, mãe, esposa e profissional da Saúde. Na lida do lar, critica as jovens que interpretam mal a emancipação da mulher, prejudicando, na maioria das vezes, a convivência com o cônjuge.
"Temos de nos focar no objectivo da relação. Uma pessoa, quando sai da casa da mãe, como a Biblia diz, “deixará o homem pai e mãe e unir-se-á à sua esposa e ambos serão uma só carne”, qual é o objectivo dessa relação? É crescer, manter coesa, forte e firme. É necessário a mulher saber gerir a casa. Gerir a casa não é só adornar as cortinas. É cuidar do marido, principalmente. Notar sempre o que chateia, o que deixa feliz o marido, o que se pode melhorar na nossa casa, como é que posso ajudar a minha filha, o que a deixa chateada, o que a deixa feliz. Isso é necessário", disse.
Filha de um engenheiro de Telecomunicações e Electrónica e de uma professora, cresceu com governanta em casa. Mas cedo aprendeu, com a mãe, a não ficar de braços cruzados.
“Ela fazia questão de trabalhar. E, quando estivéssemos de férias, nós é que cuidávamos da casa, da roupa e da comida. A minha mãe é cozinheira de mãos cheias e eu também, embora não chegue aos pés dela". Chora ao lembrar da morte do pai e da fortaleza que encontrou na postura firme, sábia e carinhosa da mãe.
Nos dias de maior fadiga, conta com a ajuda do marido, que descreve como muito compreensivo e paciente. Apesar da dificuldade que enfrenta no dia-a-dia, não abre mão do papel de mulher.
"A mulher africana foi educada para cuidar da casa e do lar. Muitas estão a entender mal o termo emancipação. Não nos devemos esquecer das nossas tarefas. Trabalhamos, somos doutores, mas quando chegamos a casa temos de deixar essa capa e vestir a de dona de casa. Às vezes, quando estou um bocadinho cansada, o meu marido deixa-me descansar e ajuda-me com as coisas em casa. Mas quem faz a maior parte sou eu".
Em 2012, aos 29 anos, teve a maior perda da sua vida. A morte do pai, por doença, deixou na médica uma ferida aberta. Amigo, conselheiro e protector, tal como o descreveu, o progenitor da Dra. Giza, como é tratada pelos familiares, ensinou-a e aos irmãos mais novos, Sayonara e o economista Pedro Mualubambo, a importância da união, do amor, da amizade e do carinho no seio familiar. Até hoje, é dessa maneira que a médica, a mãe e os irmãos convivem entre si.
"Deus tirou-me o pai muito cedo. Era o meu melhor amigo. Ninguém está preparado para perder um pai. Era o nosso porto seguro, o nosso pilar. A minha mãe é uma bênção. Esteve sempre aí. É uma mulher muito guerreira e batalhadora. Se não fosse a minha mãe...", desatou a médica aos prantos.
Depois de três anos de formação no Brasil, estabelecer-se no país, com uma especialidade nova e completamente desconhecida pelos pacientes, não foi fácil. De acordo com a especialista, as pessoas precisavam, mas não aceitavam ser consultadas.
“Somos ainda um país com um ligeiro tabu em relação a essa especialidade, porque mexe com uma região muito íntima. É difícil às pessoas procurar por um ginecologista, um urologista. Há mulheres que não vão ao médico, por questões religiosas ou tradicional, e homens que não procuram por um urologista. Imagina um fisioterapeuta pélvico! Só procuram quando mexe com o emocional ou com a sua relação amorosa e, muitas vezes, quando vêm procurar ajuda, chegam num estado um pouco avançado da doença”, disse a médica.
Actualmente, embora o seu trabalho já seja conhecido, depara-se com muitos homens portadores de disfunção eréctil ou ejaculação precoce, que não assumem logo o problema.
“É difícil um homem chegar e assumir que tem uma disfunção e precisa de ajuda. Geralmente, só o faz quando o relacionamento em casa, com a esposa, não está bem e ele precisa de mudar de atitude, para salvar a relação, ou porque a mulher o traz, porque ouviu falar da médica”.
Recebe centenas de mensagens via Facebook e muitos telefonemas de homens, que a ouvem falar em programas de rádio e acreditam poder resolver os seus problemas de saúde, via telefone ou a partir das redes sociais.
“Eu evito, porque não posso avaliá-los por telefone. Não vão directo ao assunto, têm vergonha de assumir que estão com ejaculação precoce, por exemplo, e precisam de ajuda. Muitos pacientes entram para a minha página no facebook, Adalgisa Mualubambo Fisioterapeuta Pélvica, querem fazer consultas online, encontro um monte de mensagens, telefonam para mim, querem conversar, fazer consultas por telefone ... Aconselho-os a procurar por mim no consultório para eu poder fazer-lhes a terapia”.
A fisioterapeuta revelou que está muito próxima de realizar o sonho de ter o próprio consultório pélvico e revela que em breve vai fazer outros filhos. No seu entender, já não vai a tempo de ter os sete filhos que idealizou, mas ainda pode chegar a quatro.
Apaixonada por plantas, a médica tem mais de 130 espécimes. Diz saber cuidar de todas e perceber quando alguma coisa não vai bem.
"Gosto de poder chegar a casa, mexer nas plantas, conversar com elas, cumprimentá-las. Procuro saber como estão, se passaram bem o dia, se falta alguma coisa, se estão tristes. É preciso ter alguma coisa que nos faça parar e nos tornar crianças. No meu caso, são as plantas".

Adalgiza Mualubambo responde

Como é o dia a dia de uma médica que é, também, esposa e mãe?
É agitado. O tempo é curto, acho que 24 horas não são suficientes. Mas temos de saber gerir o tempo, de modo a que haja tempo para tudo. Tempo para acordar e para se deitar, para dormir. De manhã, deixo a minha filha na escola, às 8h, e entro às 9h numa clínica em que trabalho. Estou no Centro Ortopédico de Viana das 12 às 17h. Depois daí é só cuidar da família.

Uma médica jovem tem tempo para divertir-se; consegue ter amigas?
Sim! Tenho uma amiga de infância; é minha irmã espiritual, afilhada da minha mãe, a irmã Lorena, a Solange Filemon e a Indira Canga. São as minha "bros". Divirto-me muito, gosto de passear na Ilha de Luanda, ver o mar, dar uma voltinha, parar o carro, descer para ficar nas pedras a conversar com o marido. Gosto de viajar pelo país, estar em contacto com a natureza e conhecer as outras províncias.

Nas suas viagens pelo país o que mais salta à vista?
Temos pontos turísticos muito bonitos. Gosto da paisagem, de apreciar o que é belo na natureza, ver as plantas, rios, mares. Se eu pudesse mudar algo, mudava a questão da higiene. Nós podemos fazer diferente, criar políticas de limpeza, tornar o nosso país mais limpo, mais agradável, mais cheiroso.

O que sonha para Angola?
O nosso país precisa de ser mais e melhor explorado. Temos muito para dar. O índice de desemprego é muito grande. O que me deixa triste é a miséria que o país vive. Devia-se fazer mais pela população. Criar mais escolas, mais hospitais, distribuir mais merendas escolares. Muitas vezes, as crianças não assistem às aulas até ao fim e não estudam em condições, porque estão com fome. Saco vazio não pára em pé e as crianças têm de comer para poderem aprender e reter alguma coisa.

Qual foi a sua experiência mais marcante?
Foi ser mãe. Momento único e bom. Foi uma gravidez de risco, nada fácil, tive de ficar em casa, de repouso, deitada, não podia fazer muitos movimentos. A pessoa aprendem a respeitar a mãe. O médico dizia-me que estava tudo bem, mas eu sentia umas dores estranhas. Hoje, poder olhar para a Wizana faz-me ver que foi uma experiência boa, um presente divino.

 

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