Reportagem

Indústria metalúrgica impulsiona a economia

Edivaldo Cristóvão |


A aposta na inovação e diversificação das áreas de negócio é também uma preocupação do Executivo que vê nisso uma forma de impulsionar o desenvolvimento económico sustentável.

Empresa angolana da área metalúrgica está a produzir soluções modulares para unidades industriais com recurso à reutilização de contentores marítimos usados
Fotografia: M. Machangongo

É com base nessa filosofia que surge pelas mãos da Angoltec um conjunto de novos produtos que vão fazendo a diferença quer como solução para necessidades específicas de um mercado até então inexplorado, quer como negócio rentável e sólido.
Pertença do Grupo Petrotec, a Angoltec dedica-se a produzir soluções modulares para unidades industriais, comerciais e residenciais, envolvendo a reutilização de contentores marítimos usados. O novo produto tem o selo “Feito em Angola”, criado pelo Ministério da Economia para promover a produção nacional.
Com esta aposta, cujo investimento ronda os quatro milhões de dólares, o país passou a ter capacidade de produzir reservatórios de abastecimento de combustíveis para todo o mercado nacional, estruturas metálicas para postos móveis ou contentorizados. A empresa pretende a partir do próximo ano começar a exportar as primeiras unidades para a África do Sul e Moçambique.
Trata-se de um produto que garante soluções práticas e que ajudam a tornar ainda mais viáveis os investimentos, principalmente no comércio. A inovação resume-se no aproveitamento de contentores de carga marítima, transformando-os em pequenos edifícios que podem servir de escritórios, lojas ou dar lugar a habitações.
As estruturas podem ser provisórias ou definitivas e possuem uma garantia de resistência e durabilidade semelhante à de uma casa construída com materiais convencionais. Para a criação destas estruturas a Angoltec reutiliza contentores marítimos e transforma-os na sua indústria metalomecânica, localizada no município de Cacuaco.
A fábrica tem capacidade para produzir pelo menos dois moldes por semana e o custo de cada um varia de acordo com a necessidade do cliente. Vezes há que surgem clientes que sabem bem o que querem e são exigentes ao ponto de encomendar componentes diferentes. Essa caracterização tem influência no preço final. Todavia, existe um preço inicial para cada moldura que é de um milhão e 750 mil kwanzas.
Num contexto de crise económica e financeira, é de todo interessante o exemplo da Angoltec, justamente pelo perfil do negócio. Fabricar e comercializar postos de abastecimento móveis em contentores, para distribuição de combustíveis líquidos tem sido um dos pontos fortes da carteira de negócios e cobre uma parcela significativa da procura dos serviços da empresa.
Mas os gestores da Angoltec sabem que não basta que o produto seja uma novidade no mercado para que tenha procura. Por isso foi feito um investimento significativo nos padrões de qualidade. A construção dos equipamentos é feita segundo padrões de qualidade internacionais. Além disso, desenvolveu-se a componente da assistência técnica em todo o território nacional, tendo em conta justamente o facto de os produtos Angoltec estarem espalhados por todo o país.
Um dos produtos mais solicitados, e que aparece como uma espécie de coqueluche da fábrica, é o reservatório metálico aéreo, equipado com um posto de abastecimento de combustíveis.
Na verdade, a fábrica tem capacidade de produzir todo o tipo de estruturas metálicas e quem confirma é o director executivo da indústria, Rui Baía. “Em época de desaceleração da economia é importante diversificar as áreas de actividades para criar e manter postos de trabalho, garantir maior oferta e ter a certeza de que criamos soluções sustentáveis à medida das necessidades do mercado”, sublinha.
Rui Baía revela que a capacidade de produção de reservatórios para combustíveis de grandes dimensões é de dois ou três por dia. E pode chegar a 500 unidades por ano. Em relação à construção de soluções modulares, a capacidade instalada actual permite produzir até 100 unidades por ano. Isso numa primeira fase e com apenas um turno de trabalho.
Actualmente a folha de salários da empresa conta com 45 trabalhadores, mas o potencial que existe permite chegar aos 65 funcionários por cada turno, no total. Contas feitas, a empresa pode empregar até 200 colaboradores, todavia a falta de carga ou volume de trabalho tem condicionado a contratação de mais efectivos.

Contentores

A Angoltec tem as fábricas e armazéns instalados em seis pavilhões de 1.250 metros quadrados cada. A matéria-prima para construção modular depende da quantidade de contentores disponível. Os depósitos ou tanques de combustíveis são feitos através de chapas de ferro que normalmente são importadas da Europa e África do Sul ou por vezes adquiridas no mercado nacional.
Rui Baía considera o negócio “rentável e sustentável”. Em 2015, a Angoltec teve uma facturação de 500 milhões de kwanzas. Este ano tem conseguido manter o volume dos negócios, fruto da diversificação das actividades, que podem fazer atingir a mesma cifra ou mais.
O facto de em dez anos a empresa continuar a investir e desenvolver novas soluções é demonstrativo de que o projecto tem pernas para andar. E o responsável associa a isso o facto de, com maior ou menor esforço, manter os postos de trabalho.
Todo o processo de diversificação das actividades visa manter o nível dos postos de trabalho, como melhorar as suas condições, a qualidade de produtos e manter uma tecnologia de ponta. Para o próximo ano, a empresa prevê a construção de mais um pavilhão para aumentar a capacidade de produção da indústria.
Vitorino Dala, de 44 anos, vive no município de Cacuaco e trabalha há mais de oito anos na Angoltec como serralheiro e soldador. Disse à reportagem do Jornal de Angola que gosta de fazer parte deste projecto e o que ganha dá para sustentar a sua família.
Albano João, de 51 anos, reside no bairro da Petrangol e diz que a sua vida mudou desde que obteve este emprego, há seis anos. O serralheiro diz que o bom ambiente de trabalho é um dos grandes incentivos profissionais, além do facto de o emprego em si garantir a renda que lhe permite sustentar a sua família. “Dá para pagar os estudos e satisfazer outras necessidades. Há seis anos foi-me dada essa oportunidade e todos os dias demonstro a minha gratidão por isso”, assinala.
 
Solução modular

A nova solução modular vai satisfazer as necessidades industriais, comerciais e até residenciais do mercado angolano. Contentores marítimos dão lugar a imóveis para um número infinito de utilidades. Este novo conceito pode ser aplicado a escritórios, lojas e até à habitação, permitindo aumentar a estrutura sempre que for conveniente, acrescentando, para tal, novos espaços.
As estruturas são criadas a partir da reutilização de contentores marítimos e cada unidade é personalizada, quer nos acabamentos interiores e exteriores, quer na combinação de tipologias, podendo evoluir para áreas de maior dimensão de acordo com as necessidades. Através de soluções de isolamento térmico, climatização passiva, orientação solar, entre outras tecnologias, os módulos conseguem manter conforto térmico, para garantir a eficiência energética e diminuir consumos de ar condicionado.
A aposta da Angoltec na inovação, sustentabilidade e diversificação das áreas de negócio estiveram na base da criação deste produto, que não só acrescenta valor ao mercado e à economia nacional mas também garante soluções práticas, viáveis e sustentáveis para os empreendedores.
As novas estruturas já estão disponíveis no mercado e prevê-se a produção de 100 unidades até final de 2017. A unidade fabril já tem capacidade para produzir duas unidades por semana e garantir a entrega entre uma a quatro semanas.
A Angoltec executa o processo completo de transformação desde a matéria-prima à fabricação e aplicação no cliente, centrando a sua actividade no fabrico de equipamentos e estruturas metálicas, bem como no desenvolvimento de soluções tecnológicas adequadas às necessidades de todos os sectores do mercado: da distribuição e retalho da indústria petrolífera, construção, alimentar, entre outros.
Pertencente ao grupo Petrotec, no mercado angolano desde 1997, trabalha nos sectores de desenvolvimento e implementação de soluções tecnológicas inovadoras, funcionais e sustentáveis. É uma das melhores na construção de postos de abastecimento, assistência técnica, desenvolvimento de soluções para o armazenamento e distribuição de combustíveis, fabrico de reservatórios e estruturas metálicas e prospecção, captação, tratamento e distribuição de água.

Tecnologia sustentada


Além das características anteriormente apresentadas, a produção e transformação de soluções modulares com base em contentores marítimos, deve dar resposta não só às exigências programáticas de cada tipificação (comercial, residencial, personalizada), mas também proporcionar a utilização de meios tecnológicos autónomos que possam responder aos desafios presentes e futuros no campo da sustentabilidade ambiental.
Como exemplo disso, é a possibilidade de incorporar sistemas autónomos para produção de energia eléctrica, recorrendo à instalação de painéis fotovoltaicos, que pelas suas características podem auxiliar na produção de parte, senão na totalidade, da energia necessária para alimentar diariamente um ou mais módulos.
Actualmente existem sistemas fotovoltaicos autónomos, de alta fiabilidade e eficiência. A sua simples montagem torna os mesmos adaptáveis em função das necessidades específicas. Com custo reduzido e manutenção quase inexistente, não necessitam de recorrer aos combustíveis fósseis para o apoio à produção eléctrica.
Outra possibilidade no tratamento da climatização é o recurso a sistemas construtivos que aproveitem os recursos naturais do local, tal como a ventilação natural dos módulos, proporcionada pelo efeito de convecção (tecnologia que consiste na criação de uma caixa de ar na base do edifício que obriga o ar mais fresco a subir e a refrigerar o local), a utilização de elementos de sombreamento na cobertura e nas fachadas (tal com tiras de madeira ou de outro material, dispostas a uma determinada distância, permitindo entrar a luz mas não o sol), o aproveitamento de águas pluviais e a cobertura verde/ajardinada.

Valor ambiental

Todos estes sistemas visam dar resposta às necessidades de conforto e exigências actuais, sempre equacionando a racionalização de meios e de recursos, criando autonomia de cada construção e respeitando o ambiente. É importante referir que há um efeito nocivo no ambiente quando os contentores em “fim de vida” ficam abandonados em portos secos. Com um grande impacto visual, ficam expostos a possíveis contaminações do solo.
Estima-se que anualmente sejam abatidos 2,4 milhões de contentores marítimos em todo o mundo, que na maioria dos casos estão em boas condições. Uma vez que é mais barato adquirir um novo contentor na Ásia do que repatriar um contentor, os contentores acabam por ser abatidos no local de descarga.
A vida útil de um contentor para o mercado náutico é de aproximadamente oito anos tendo uma vida real de 100 anos, o que gera em média 92 anos de “inutilidade forçada”. Estes locais de armazenamento criam impacto visual negativo. Um contentor é em 99 por cento constituído por aço patinável, comercialmente designado por Corten, cuja durabilidade é considerada de 100 anos.
A camada patinável da superfície do Corten impede a sua corrosão, apenas em casos excepcionais de má drenagem leva a contaminações localizadas. A concentração do processo de construção num só local permite evitar a multiplicidade de estaleiros e de entulhos de construção. Esta solução leva ainda à economia de recursos, tal como, areia, tijolo, cimento e ferro. Permite também manter a permeabilidade do solo.

Aplicabilidade

Os módulos têm uma aplicação residencial e comercial passando por habitação familiar, sanitários, refeitórios, lojas, cafés, postos de turismo, geladarias, bungalows, postos de venda, hotéis, hostels, motel, postos de combustíveis, lojas de conveniência, escritórios, entre outros. O peso de um módulo varia entre dois mil e quatro mil quilogramas. As dimensões dos módulos podem variar em 30 e 45 metros quadrados,  o que corresponde a tipologias T1 e T2.
Os módulos são estruturalmente robustos se as suas características permitem uma elevada mobilidade, uma vez que o transporte é feito com recurso a meios convencionais de transporte de carga e descarga. Para garantir a climatização é possível dispor de soluções de painéis fotovoltaicos (que tornam o módulo independente energeticamente), sistemas de ventilação passiva (sem recurso a meios mecânicos como por exemplo ventoinhas ou ar condicionado), aproveitamento de águas pluviais (aproveitamento das águas da chuva para sanitários), isolamentos térmicos e palas/persianas sombreadoras, devidamente dimensionados, isolamento acústico, entre outros.
A Angoltec dá prioridade à reciclagem e reutilização de contentores marítimos, retirando do ambiente estruturas abandonadas ou em “fim de vida”. Desta forma, o “lixo” visual de contentores diminui, garantindo a sua reciclagem e preços mais competitivos na venda dos módulos. Paralelamente é também privilegiada a utilização de materiais e produtos biodegradáveis.
O equipamento sai da fábrica concluído, sendo transportado e posicionado no local/área definido previamente. Uma vez posicionado, são feitos os testes de funcionalidade. Para garantir a sustentabilidade ambiental é possível incorporar sistemas autónomos para produção de energia eléctrica, recorrendo à instalação de painéis fotovoltaicos que podem auxiliar na produção de parte, ou na totalidade, da energia necessária para alimentar diariamente um ou mais módulos.
Outra possibilidade no tratamento da climatização é o recurso a sistemas construtivos que aproveitem os recursos naturais do local, tal como a ventilação natural dos módulos, proporcionada pelo efeito de convecção (tecnologia que consiste na criação de uma caixa de ar na base do edifício que obriga o ar mais fresco a subir e a refrigerar o local), a utilização de elementos de sombreamento na cobertura e nas fachadas (tal com tiras de madeira ou de outro material, dispostas a uma determinada distância, que permitem entrar a luz mas não o Sol), o aproveitamento de águas pluviais (para utilização no saneamento), a cobertura verde/ajardinada.
O processo de tratamento de resíduos sólidos e líquidos passa pela utilização de fossa séptica ou ligação à rede. Os materiais utilizados dependem da customização pretendida pelo cliente (ferrosos, inox, alumínios, madeiras, vinis, vidros, entre outros de menor expressão).
A Angoltec – Metalomecânica de Angola executa o processo completo de transformação desde a matéria-prima à fabricação e aplicação no cliente, centrando a sua actividade no fabrico de equipamentos e estruturas metálicas, bem como no desenvolvimento de soluções tecnológicas adequadas às necessidades de todos os sectores de mercado, da distribuição e retalho da indústria petrolífera e da construção, à indústria alimentar.
O posicionamento da empresa potencia a diferenciação pelo rigoroso cumprimento dos compromissos em tempo e forma, assumindo-se como fabricante nacional que produz de acordo com as mais exigentes normas internacionais. Todos os produtos Angoltec são certificados pelo Programa “Feito em Angola”, através do Ministério da Economia de Angola.

Um pouco de História

Após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se fundamental a racionalização de custos e meios para dar resposta à crescente procura de bens a serem transportados. Neste contexto, surge em 1956 uma nova abordagem ao transporte de mercadorias. O seu inventor foi o norte-americano Malcon McLean, a sua invenção ficou conhecida por “Shipping Container”, em português significa Contentor Marítimo.
Partindo de uma tipificação de “caixas”, onde de uma forma prática podem se acomodar quase todo o tipo de bens, para posteriormente serem expedidos tanto por rotas terrestres como marítimas, este novo conceito acabou por revolucionar permanentemente o comércio mundial, afirmando-se desde 1970 como a principal forma de transporte, sendo a sua vertente marítima a que melhor espelha todo o conceito, quer pela sua optimização de custos, como pela sua capacidade de volume de carga.
A construção do contentor marítimo tem como principal objectivo responder à necessidade de proteger de forma eficiente a carga nele contida, tanto nas viagens marítimas em que tem de resistir às grandes adversidades meteorológicas, assim como no seu transporte terrestre e armazenamento em portos de cargas, onde por vezes têm de permanecer largos períodos de tempo e resistir às intempéries que possam ocorrer.
Como tal, caracteriza-se pela sua robustez e estabilidade estrutural (podem suportar o empilhamento de até dez unidades), formada por um “frame” resistente em perfis de aço, completada pelo revestimento em chapa de aço canelada, a qual vem reforçar a resistência de todo o conjunto.
É de assinalar a longevidade que estas construções podem atingir, resistindo com facilidade aos impactos que ocorrem em função da movimentação das mesmas. Também e provavelmente uma das suas maiores valias é o facto de se tratar de um módulo uniformizado (as versões mais correntes são os contentores de 20 e 40 pés), o que permite o seu armazenamento com uma racionalização muito alta do espaço necessário para o mesmo, tanto em terra como no porão de um navio.

Nas últimas duas décadas temos assistido a uma grande diversificação de possíveis usos para estes módulos estruturais. Inicialmente eram utilizados apenas por causa da sua resistência a facilidade de  transporte, e serviam como módulos de apoio a diversas actividades. Sem grandes transformações, servem de local de armazenagem (mais ou menos provisória), ou simplesmente de instalações de apoio improvisadas.
Posteriormente, além das suas características estruturais, passam a ser valorizados pelas suas características estéticas e de versatilidade arquitectónica, sendo parte integrante no desenvolvimento de projectos e obras da arquitectura contemporânea.
Temos actualmente vários exemplos de construções em várias regiões do mundo, com programas de reutilização distintos. Eles vão desde a utilização como pequenas unidades comerciais ou habitacionais, como são exemplo lojas e stands de vendas, quiosques de rua e de turismo, bares e apoios de praia, bungalows para alojamentos privados e turísticos.

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