Reportagem

Indústria petrolífera poupa em umbilicais

Edivaldo Cristóvão |

No Lobito, província de Benguela, está localizada a única fábrica de umbilicais para a indústria petrolífera, do continente africano. O projecto veio à luz em 2003, fruto de um investimento total de 60 milhões de dólares, suportado pelas empresas Sonangol, Angoflex e o grupo francês Technip.

Fábrica de umbilicais instalada no Lobito é a única do género no continente africano e vai ajudar as companhias petrolíferas a reduzir os custos de produção
Fotografia: Kindala Manuel

A actividade principal da fábrica é a produção daqueles enormes tubos de aço que permitem as conexões entre os equipamentos submarinos e as plataformas petrolíferas. Resulta daí a expressão umbilical.
A estratégia para a expansão da fábrica começou a ser executada em 2011, permitindo um investimento de 40 milhões de dólares, com o objectivo de acompanhar o desenvolvimento em águas profundas e ultra-profundas dos campos petrolíferos do país, dando origem a dois carrosséis com capacidade de armazenar cada 2.500 toneladas de umbilicais. Fruto disso, a produção duplicou, chegando aos 200 quilómetros de umbilicais por ano.
A matéria-prima utilizada para a produção de umbilicais são tubos de aço, cabos eléctricos, fibra óptica e fillers (plástico).
As novas instalações garantem maior eficiência e competitividade e servem melhor os clientes. A ambição da Angoflex é atingir a excelência, dar início a uma nova etapa e melhorar o ciclo produtivo.
Inaugurada recentemente pela presidente do Conselho de Administração da Sonangol, Isabel dos Santos, a segunda fase da fábrica vai servir de apoio às empresas petrolíferas e, automaticamente, contribuir para a redução dos custos de produção do petróleo no país. Não está posta de parte a sua abertura para outros mercados, já que o produto tem enorme procura noutras regiões do continente africano.
No momento da inauguração, era visível a satisfação de Isabel dos Santos com o resultado do investimento feito. Está ali, pronta e em actividade uma obra de referência em África, que promete revolucionar todos os campos que estão em exploração, não só em Angola mas também no Golfo da Guiné e em países produtores de petróleo como a Nigéria.
Na verdade, e o que é também relevante, é que o país ganha um novo produto de exportação, que se insere perfeitamente na estratégia do Governo de diversificação económica dado que, além de garantir postos de trabalho bem remunerados, é inevitável que os seus proventos resultem em mais divisas no sistema financeiro. Não é por acaso que a presidente da Sonangol fala em "momento de rentabilizar e investir na produção interna e apostar na exportação."
Criada em 2002, a Angoflex, Lda é uma empresa prestadora de serviços no ramo petrolífero. Tem como domínio a fabricação de tubos rígidos, de estruturas submarinas e serviços logísticos na base do Dande e a fabricação de umbilicais de tubos de aço no Lobito.
A empresa tem um total de 425 trabalhadores, dos quais 206 efectivos e 119 colaboradores. Nos últimos anos, fez um grande investimento na formação dos seus quadros, o que permitiu alcançar um nível de 100 por cento de trabalhadores nacionais.
Desde a sua criação, a fábrica tem produzido para as operadoras mais presentes no mercado petrolífero angolano, como a Total, a BP, a Chevron, a Exxon, a ENI e a Sonangol.
O governador de Benguela, Isaac dos Anjos, que também esteve na inauguração da expansão da fábrica, enaltece o investimento, sublinhando que "o mais importante nestes grandes projectos é o potencial e a oportunidade que eles geram. Se temos tecnologia de ponta a ser desenvolvida aqui, mais tarde, outras indústrias vão também investir na província.”
O governador salienta o facto de parte da matéria-prima utilizada na fábrica ser importada, mas acredita que, com o potencial trabalho dos jovens, futuramente, vão passar a ser produzidos localmente.
O presidente do Conselho de Administração da Agência para a Promoção de Investimento e Exportações de Angola (APIEX) releva o facto de ser a primeira na fabricação de umbilicais em África. "A parceria da Technip com a Sonangol demonstra a aposta num compromisso de médio e longo prazo com o nosso país. Sem esquecer os postos de trabalho que vai gerar, o que, necessariamente, implica a distribuição de renda e, por via disso, a distribuição de riqueza.”
António Henriques da Silva olha para o facto de, com investimentos dessa natureza, diminuírem as ­importações de produtos acabados. E observa que as exportações em alta dão lugar a receitas cambiais e trazem ganhos para o país, contribuindo, e de que maneira, para a diversificação da economia.
O número um da Apiex chama atenção por a diversificação da economia não se limitar ao sector não petrolífero, porque o desenvolvimento da indústria petroquímica e o conjunto de subprodutos passíveis de serem produzidos, além da exploração do petróleo, estão num universo de actividades que podem complementar e impulsionar o programa do Executivo para a diversificação da economia.
A indústria petroquímica é ainda embrionária neste país, refere, e o exemplo concreto é a existência desta fábrica de umbilicais, sendo fundamental para reforçar o interesse do mercado, marcando assim um passo significativo que abre caminho para o surgimento de mais investimentos destes no sector.

Postos de trabalho

Com um total de 425 trabalhadores, dos quais 206 efectivos e 119 ­colaboradores, a Angoflex tem feito um grande investimento na formação dos seus quadros, o que permitiu alcançar um nível de100 por cento de trabalhadores nacionais.
O programa de formação da Angoflex é feito no exterior, nas empresas do grupo Technip, dedicadas ao fabrico de umbilicais, mas algumas formações são feitas no país por formadores especializados.
O exemplo da aposta na qualificação da força de trabalho nacional é contado à nossa reportagem por João Dissingue, há quatro anos trabalhador da Fábrica de Umbilicais do Lobito. João trabalha como supervisor na área de produção, onde são feitos os testes e a montagem de embalagens.
Feliz com o seu trabalho, este jovem luandense, que foi recrutado em Portugal, após concluir a sua formação académica, diz que já ultrapassou a fase de adaptação à situação de trabalhar longe da família. “O que ganho chega para sustentar a minha família é isso para mim é fundamental.”
A área específica de trabalho  de João é a que trata da produção do umbilical, que é um equipamento utilizado na indústria petrolífera para o controlo dos poços do petróleo e a conexão entre os equipamentos submarinos através da plataforma.
O umbilical tem a função de facilitar a comunicação entre os equipamentos submarinos e o poço, durante a injecção de fluidos e a potência eléctrica dos equipamentos.
Mércia Melo, uma das funcionárias da fábrica, residente do Lobito, trabalha na área de gestão de projectos e está na Angolfex desde 2010. Ela é casada e mãe de dois filhos.
Gosta de trabalhar na empresa e encara o seu trabalho todos os dias como um “grande” desafio. “Sinto-me orgulhosa por fazer parte de um dos maiores projectos da empresa.”
Mércia revela que nunca teve problemas de descriminação na empresa, pelo facto de ser mulher e trabalhar numa fábrica. Os colegas sempre a apoiaram no que precisou, por isso não teve problemas de adaptação.
A Fábrica de Umbilicais do Lobito, a única em África, tem uma área total de 53.200 metros quadrados. Na grelha dos projectos da Angoflex, constam também acções de solidariedade, como apoio à população local, principalmente vítimas de desastres, desde a entrega de alimentos, vestuário, electrodomésticos a material de construção civil.
A fábrica possui áreas de fabricação, aplicações, armazenamento da matéria-prima e de produtos acabados (carrosséis e bobines).
A Fábrica de Umbilicais do Lobito tem um record de saúde e segurança no trabalho, tendo alcançado operações desde 2003, sem afastar nenhum trabalhador por acidente de trabalho, o que perfaz num total de 4.700 dias, representando 3.800.000 horas de trabalho.
Uma série de factores contribuiu para este sucesso, principalmente a disciplina operacional exibida em toda a fábrica pelas equipas de trabalho e o seu uso eficaz do programa de segurança (stop for safety).

As maiores indústrias

A Nexans é líder mundial na indústria de umbilicais. O grupo traz soluções avançadas de cabos de cobre, alumínio e de fibra óptica para os mercados. Os cabos e sistemas de cabeamento da Nexans podem ser encontrados em todas as áreas, desde redes de telecomunicações e energia, aplicações aeroespaciais, automotivas, ferroviárias, de edifícios a indústrias petroquímicas e médicas.
Com uma presença industrial em 30 países e actividades comerciais em todo o mundo, a Nexans emprega 22.000 pessoas. A indústria de petróleo e gás continua a reduzir custos, com melhor eficiência e a explorar novos campos.
Os produtores de petróleo e gás esperam de um fabricante de cabos tecnologias de exploração avançadas, linha completa de cabos para energia, controlo e dados.
A Nexans está presente em todos os estágios da produção de petróleo e gás, fornecendo uma ampla gama de cabos de energia e telecomunicações para exploração, produção e distribuição on e offshore, bem como para infra-estrutura de refinarias e petroquímicas.

Funcionalidade dos umbilicais

Um dos elementos fundamentais para a exploração de petróleo em poços submersos é chamado umbilical de controlo, caracterizado por um conjunto de mangueiras e cabos eléctricos ou ópticos, agrupados sob camadas de polietileno e armaduras de aço e responsáveis pela ligação entre a unidade de produção (plataformas fixas, semi-submersíveis ou navios).
Dada a importância dos umbilicais nos sistemas de produção de petróleo, é fundamental garantir o seu funcionamento adequado. Este requisito está directamente ligado à garantia da confiabilidade do umbilical (probabilidade de um item realizar satisfatoriamente a tarefa para a qual foi projectado, durante o tempo esperado, estando sujeito às condições operacionais especificadas).
A partir do conhecimento e análise destes quatro factores, nomeadamente probabilidade de ocorrência de falhas, funcionamento satisfatório do componente, tempo de vida útil requerido e condições operacionais a que o componente estará sujeito, a confiabilidade de cada componente e do sistema pode ser calculada.
O conhecimento do comportamento de cada componente e o modo como estes se relacionam é fundamental para análise da confiabilidade de equipamentos e sistemas. Utilizam-se diagramas de blocos para facilitar a compreensão das relações de confiabilidade e funcionalidade dos diversos componentes de um sistema. Os diagramas de bloco permitem a construção dos de confiabilidade e estes traduzem as relações entre os componentes, do ponto de vista do seu impacto na confiabilidade do sistema.
Um exemplo da utilização de modelos de confiabilidade para umbilicais de controlo de produção é a determinação da quantidade de elementos funcionais a serem incluídos no projecto. Os tipos e as quantidades dos elementos (mangueiras e cabos) utilizados no umbilical são, normalmente, especificados pelo cliente ou usuário final.
Por precaução, é, normalmente, prevista uma quantidade de elementos superior à quantidade mínima necessária ao funcionamento do sistema. No caso de falha de ­alguns dos elementos em funcionamento, o umbilical pode continuar em uso simplesmente, descartando-se o elemento defeituoso ou inutilizado e substituindo-o por um elemento redundante, já incluído no umbilical.
Esta prática é recomendada, visto que a interrupção do funcionamento de um umbilical, seja para a substituição completa, seja para manutenção é uma operação que envolve profissionais e equipamentos especializados e pode resultar na interrupção da produção do poço de petróleo ao qual o umbilical está conectado, causando prejuízos elevados.

Análises de dados

Para ilustrar esta aplicação, é importante utilizar os relativos ao modo de falha “queda do enrijecedor de curvatura”, identificado durante a análise realizada para umbilicais de controlo, como sendo a de maior criticidade no sistema.
O enrijecedor de curvatura é uma peça que envolve o umbilical na sua extremidade superior (superfície) e é fixo à unidade de produção. A sua função é, precisamente, enrijecer o umbilical na região mais afectada pelo dobramento, reduzindo os níveis de tensão que actuam no conjunto.
A metodologia utilizada para a estimação da confiabilidade, neste exemplo, e sugerida para análise dos demais componentes do sistema é a análise de Weibull (Abernethy, 2001). É o principal método para o tratamento de informações relativas a ciclos e tempo de vida, que pode ser utilizado para a previsão de ocorrência de falhas, avaliação de planos de acção correctiva, avaliação de mudanças de projecto, planeamento da manutenção e estratégias de substituição, determinação de sobressalentes necessários, análise de garantia e custo de suporte, calibração de ferramentas de projecto, tais como análises por elementos finitos, definição de recomendações à gerência em resposta a problemas encontrados em serviço.
Uma das vantagens da análise de Weibull é que permite a realização de estudos com amostras pequenas, ou até mesmo em casos onde não tenha havido ainda qualquer falha. Esta característica torna-se muito importante em áreas de trabalho, onde a ocorrência de falhas é dispendiosa ou envolve riscos à segurança, como por exemplo na indústria aeronáutica e na própria extracção de petróleo em alto mar.
Através da análise de Weibull, não é preciso esperar a ocorrência ou simular muitas falhas para a realização de um estudo conclusivo. Algumas ocorrências de queda deste componente (consideradas como falha) foram registadas, mas, durante a realização do estudo, identificou-se a deficiência dos registos de falhas em operação disponíveis para umbilicais.

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