Reportagem

Instituto de Petróleos aposta na qualidade

João Dias

O Instituto Nacional dos Petróleos (INP) é até agora o único estabelecimento público dedicado à formação técnica e profissional no ramo do petróleo, gás e recursos minerais. Por isso, sofre assinaláveis mutações nas suas estruturas, tecnologias e recursos humanos, para estar na vanguarda da formação de profissionais para a Indústria, quer para o país, quer para o continente.

Fotografia: Kindala Manuel | Edições novembro

O Jornal de Angola fez uma visita guiada por dentro do INP. O director-geral, Domingos Francisco, e o director pedagógico, Alegria Raul Joaquim, foram os cicerones. Os sinais de evolução estão à vista. Da vastidão dos seus 109 hectares de área de ocupação e dos seus vários  laboratórios, a instituição surpreende. Apesar da grandeza da “cidade INP”, saltam à vista a “organização de orquestra” e a disciplina.
O Plano de Acção 2009-2012 levou a que a escola fizesse um “volte-face”, atingindo a qualidade que tem hoje, nos seus mais diversos aspectos. Está arborizada, asfaltada, mais compacta. Porém, mais do que isso, inovou no seu currículo e na relação com os parceiros de outras partes do mundo.
Depois da certificação, o próximo passo é tornar o INP numa referência na indústria. “Estes objectivos levaram-nos a esforços adicionais, o que resultou na certificação da nossa instituição em 2016 e início de 2017”, refere Domingos Francisco.
Pretende-se que o INP sirva de viveiro para o Instituto Superior dos Petróleos que está a ser construído desde 2014, a escassos metros do INP, e se encontra a 62 por cento de execução física.


Área social


No total, vivem e estudam no INP, em regime de internato, quase mil pessoas, entre elas 700  estudantes. O instituto tem alas separadas para acomodação feminina e uma outra para a masculina, cada uma controlada por sete vigilantes. Do outro lado, estão vivendas com suites, para professores. Salta à vista a organização, segurança, higiene e um rigoroso saneamento.
 Além disso, a escola conta com uma sofisticada cozinha e uma clínica com  todas as especialidades e equipamentos, bem como áreas verdes, campos de futebol, heliporto, diversas áreas de lazer e uma biblioteca com um acervo vasto e Internet banda larga. Para lavar a roupa de cama, uniformes e indumentária de quase mil pessoas, entre professores, estudantes e funcionários a viver em regime de internato, a “pequena cidade INP” conta com duas portentosas máquinas industriais, duas engomadeiras e duas máquinas de secagem.
O INP produz os seus próprios bens. Um exemplo é a água que consome. Tem uma captação, conduta adutora e uma estação de tratamento e de distribuição de água. Quanto à energia, além da que é fornecida por Cambambe, tem grupos geradores alternativos. 
“Até o pão é produzido aqui. Temos que ter todo este nível de qualidade, para manter a estabilidade  e continuar a garantir a certificação que nos foi atribuída”, diz o director-geral, Domingos Francisco.

Laboratórios e oficinas


Com zonas técnicas, ao contrário do que ocorria antes de 2009, a escola tem uma área dedicada à mecânica de manutenção, diversas oficinas didácticas e um laboratório de hidráulica, fundamental para a produção de petróleo e perfuração. 
Segundo o director pedagógico, a esmagadora maioria dos laboratórios tem uma área para a prática adjacente à teórica. Um destes espaços está dedicado à evolução da destreza manual dos alunos, permitindo que aprendam a cerrar, abrir rosca, limar e a lixar.
“Aqui, os estudantes aprendem a sujar as mãos e a lidar com peças e a usar as bancadas e tornos à disposição”, diz o director pedagógico. 
Do lado oposto, está a parte de mecânica de frio, onde se aprendem as técnicas da refrigeração e climatização. A escola tem um simulador de produção de petróleo, que é basicamente uma plataforma em “miniatura”, para fins didácticos. O sistema é completamente digitalizado e permite efectuar simulações de pressão, temperatura e de nível de caudal. O INP conta também com um laboratório de língua inglesa.

Centro tecnológico


Além dos laboratórios de química, geologia, electropneumático, muito bem equipados para ensaios, o INP conta com um centro de Controlo Numérico Computarizado (CNC), onde é possível fazer peças em 3D. O primeiro passo é o desenho, geralmente feito em Autocad, Solidwork ou Master Com.  “As máquinas de CNC fazem tudo. É só saber desenhar”, refere o responsável da área de CNC, Wilson Fernandes, há 18 anos na indústria.  
O INP dispõe de uma sala com 40 estiradores ("pranchetas profissionais"), com todo o equipamento para desenho profissional. No pavilhão contíguo ao da CNC, está o laboratório de mecânica de fluidos, fabricado por medida e oferecido pela alemã Aker Solutions. O objectivo é levar os estudantes a trabalhar a temperatura, o caudal, nível e a pressão dos fluidos. Num outro espaço, está a área da caldeiraria e soldadura, com 36 cabines. Nesta área, é possível fazer soldadura em alta definição, que a indústria exige.

Simulador Drilling SIM 5000


O INP conta com vários simuladores para controlo de poço, - um deles é o “Drilling SIM 5000”-, que permitiu que se tornasse num dos membros do IADC e do Fórum Internacional de Controlo de Poços.
“O que queremos é, através do IWCF, acreditar o laboratório, para que a escola seja o centro de certificação em Controlo de Poço no país". Actualmente, a escola conta com três simuladores. O Drilling SIM 5000, o Drilling SIM 500 e o Drilling SIM 50, que é portátil.
 “Estes simuladores servem para preparar as pessoas para a verificação, controlo da perfuração e até a compactação do poço”, explicou o responsável do laboratório, André Nkuti, há 6 anos no INP.


Director geral do INP  “Queremos ser referência a nível da indústria no continente”


O  director geral do Instituto Nacional dos Petróleos, Domingos Francisco, disse, ao Jornal de Angola, que projecta um maior crescimento do nível da qualidade, no plano da formação de quadros angolanos, no domínios dos petróleos, gás e recursos minerais.  
Para tal, entende que é necessário conferir qualidade aos recursos humanos, infra-estruturas e tecnologias de última geração no processo de formação. 
“Pensamos nas empresas do sector e no mercado, sendo nossa intenção que o profissional que saia do INP para o mercado não se depare com um mundo diverso do mundo em que esteve durante a formação”, sublinhou o responsável. “Vamos continuar, a par disso, a instalar condições de formação, alojamento e criar mecanismos que atraiam professores e estudantes”, vaticinou.
Localizado a 13 quilómetros do centro da cidade, o INP reúne o máximo de condições de infra-estruturas, laboratórios e espaços oficinais. Em 2009, começou a ser implementado um plano de acção que se estendeu até 2012, abarcando quatro eixos. O primeiro, tocou o domínio pedagógico, para corrigir o currículo desajustado da altura. O segundo eixo baseou-se na gestão, para correcção dos estatuto, regulamentos e manuais, que estavam desajustados.
O terceiro eixo esteve ligado à questão das infra-estruturas, na altura, completamente degradadas, o que exigiu novo ordenamento e urbanização, alinhamento dos edifícios, recuperação, construção de novos edifícios e resolução do problema de água e energia. O quarto eixo teve a ver com a necessidade de internacionalização do INP. 
“Tudo isso levou à assinatura de acordos de cooperação, estabelecimento de parcerias e protocolos com escolas da Argélia, França e Egipto e Portugal”, disse.

Centenas de formados


Além do INP, no Sumbe, a direcção da escola decidiu instalar também um centro de formação no Patriota, município de Talatona, em Luanda, para assegurar às empresas uma formação à medida das suas necessidades.
Desde a sua criação, formou cerca de 4 mil técnicos médios, a nível da formação profissional, numa média anual de 150 a 200 profissionais. Na formação profissional, atingiu a cifra dos 10 mil. O INP tem capacidade para 700 estudantes anuais, distribuídos pelas diversas classes. No ano passado, foram formados 146 técnicos médios de petróleos. Nos anos de pico, podem sair  250 técnicos. O sistema de ensino funciona na base de 60 por cento de aulas práticas e 40 de teóricas. O estudante comparticipa com 600 mil kwanzas por ano.
Até 2010, o INP tinha no ensino médio três cursos: Perfuração e Produção, Geologia e Minas e o curso de Mecânica. Em Março de 2010, foi realizada uma conferência Internacional sobre o tema  “INP e os Desafios do Futuro”, que produziu recomendações relacionadas ao currículo do curso de Geologia e Minas, separando-o em Técnico de Minas e Técnico de Geologia. Hoje, há mais cursos, num total de oito no ensino médio.

“ Capacidade para  operar na indústria em Moçambique”


No INP, estão jovens de outras nacionalidades, com realce para moçambicanos, são-tomenses, equato-guinenses e de outros países vizinhos.  A jovem moçambicana Mónica Matias, do curso de Perfuração e Produção, fala da competência que está a ganhar, por via da formação, e já pensa em aplicar os conhecimentos e capacidades técnicas na exigente indústria dos hidrocarbonetos no seu país.
Yuri Anualtanhoni, que está no INP desde o ano passado, é outro jovem moçambicano encantado com o curso de operador de Produção de Petróleo e Gás.
“O curso está a correr bem e estamos a aprender valências que nos vão permitir trabalhar no sector. Temos muitas cadeiras e não é fácil, pois as exigências e o rigor têm sido enormes”, diz o estudante. Acrescenta: “com o ensino que estamos a ter no INP vai ser possível vencer os desafios da indústria”.
Yuri Anualtanhoni lembra que Moçambique não tem pessoal técnico profissional dotado para responder às exigências do mercado. Sublinha que, “mesmo a faculdade que temos lá, não é de petróleos, fala apenas de Direito de Petróleo. Seremos os primeiros moçambicanos dotados de capacidade técnica para operar no mercado petrolífero no país”.    
O estudante não tem dúvidas quanto ao nível da instituição, pois que atribui nota 1000 aos professores, tanto angolanos, como estrangeiros. “O modo como transmitem os conhecimentos é bastante fluido e eficaz. E o nível de interacção com os angolanos é bom e aproveito para agradecer a todos, professores, colegas e direcção do INP”.

Tempo

Multimédia