Reportagem

Instituto de saúde limita novos cursos

José Bule | Uíge

João Muampa Pedro é finalista do curso de análises clínicas e vive com ansiedade os seus últimos dias de aulas na instituição. O jovem de 22 anos afirma que os quatro anos de formação não foram nada fáceis.

Fotografia: Edições Novembro

Foi preciso muito empenho, determinação, força de vontade e dedicação para vencer as dificuldades na aprendizagem de algumas técnicas, devido a falta de alguns materiais de apoio e de reagentes durante as aulas práticas. “Houve dificuldades na aprendizagem e execução de algumas técnicas hematológicas por falta de materiais, reagentes e equipamentos, por exemplo na determinação de hemoglobinas por método de electroforese”, explicou.
Próximo de realizar o sonho de criança, de um dia trabalhar com o microscópio, o jovem estudante valoriza o apoio que recebeu dos pais durante toda a formação. “Já consigo fazer vários exames hematológicos, parasitológicos e bioquímicos. Os estágios que frequentei no Hospital Geral do Uíge e no Sanatório foram muito proveitosos. Também passei pelo Departamento da Saúde Pública. Neste momento aguardo apenas pelo deferimento para se determinar os dias de defesa do meu trabalho de fim de curso”, disse.
João Pedro elogiou a qualidade dos professores. Segundo ele, do ponto de vista técnico estão bem preparados para o exercício da profissão. Mas referiu que o grande problema reside apenas na sobrecarga a que muitos deles são submetidos. “Há professores que leccionam mais de duas cadeiras. Penso que isso não é bom”, aferiu.
O professor Isidório Kitoco, que há três anos lecciona algumas disciplinas nos cursos de análises clínicas e de farmácia, fez avaliação positiva dos alunos que passam pela instituição. Mas lamenta as dificuldades observadas no campo de estágio e a falta de alguns materiais essenciais para que o laboratório de análises clínicas funcione cada vez melhor.
Bibiana Martins José, 20 anos, assistia atentamente a aula do professor Jonas Bota, no laboratório de anatomia. A aluna do curso de enfermagem está na 12ª classe e revela que foi incentivada pela mãe. “A minha mãe é apaixonada pela medicina. Mas como ela já não teve tempo de o fazer incentivou-me a frequentar o curso de enfermagem”, contou.
Estando no penúltimo ano da formação, Bibiana já aprendeu a cuidar melhor de uma pessoa doente. Sabe canalizar uma veia, dar injecções e tratar várias enfermidades. Ela também já sonha com o ensino superior e conseguir um emprego no sector da saúde.
“Depois de concluir o ensino médio vou directo para a Faculdade e concorrer no funcionalismo público”, disse, acrescentando de seguida que todas as condições estão criadas para finalizar o curso no próximo ano lectivo. “Vou transitar de classe para justificar o esforço que empreendi na aprendizagem dos conteúdos transmitidos pelos professores nas várias disciplinas”, justificou.
Ainda no laboratório de anatomia, Francisco Muila, 27 anos, que também realiza o sonho de ser enfermeiro, confessa que os pais exercem um  papel fundamental na sua formação. “Os meus pais têm grande influência na minha formação. Eles são os principais impulsionadores. Dão-me os apoios necessários para que eu termine a formação com êxito”, precisou. “Estou quase pronto para assumir as minhas responsabilidades nesta profissão de enfermeiro. Neste momento já consigo fazer o controlo dos sinais vitais, canalizar uma veia, dar injecções ou aplicar o soro a um paciente. Depois do ensino médio vou para a faculdade. Mas não vou deixar de concorrer por uma vaga para que seja eu mesmo a assumir os custos do ensino superior”, disse o jovem estudante da 12ª classe.
Na aula prática de anatomia humana, o professor Jonas Bota usa a vara para indicar na gravura o órgão respiratório. Explica aos alunos quais os problemas que podem afectar negativamente no seu funcionamento, e fala sobre as doenças mais comuns.
Com mais de 10 anos ao serviço da instituição, o professor garante que nas suas aulas o nível de aproveitamento dos alunos fica acima dos 80 por centos. “O nível de compreensão ou aproveitamento dos meus alunos é bastante satisfatório. Eles percebem bem o que digo e por isso tiram boas notas nas provas”, disse.
Silvia Maquiesse Kanga terminou o primeiro trimestre com notas baixas, mas recuperou no segundo. Agora tem a certeza absoluta que vai transitar de classe. Com 20 anos de idade, lembra que no momento das inscrições já não havia vagas para acesso ao curso de enfermagem. Por alguns minutos pensou que dificilmente conseguiria ser enfermeira como a mãe. Mas a instituição ofereceu-lhe a oportunidade de matricular-se no curso de análises clínicas. Não hesitou. Está hoje na 12ª classe e não se arrepende de se ter desviado um pouco do seu desejo inicial. Mas ainda tem dúvidas se vai continuar a fazer o mesmo curso no ensino superior. “Penso em ser médica. Mas se não der vou continuar mesmo com esse curso na faculdade," referiu
“Para mim, a Faculdade será prioridade logo depois de concluir a formação média. Os meus pais estão separados. Já lá vão muitos anos que não vejo o meu pai. Ele não se importa comigo. Por isso, para dar continuidade aos estudos vou contar com ajuda da minha mãe e do meu padrinho”, disse.
A jovem estudante revela ter enfrentado várias dificuldades no estágio realizado em alguns hospitais da província. Contou que não havia boa interacção entre os técnicos em serviço e os estagiários. “Quando quisessem saber alguma coisa as vezes eram humilhados. “Muitos deles não sabem explicar o que fazem”, acusou.
Apesar da idade, 37 anos, Ntsingui António, da 11ª classe do curso de radiologia, não tem mulher nem filhos. Só pensa em recuperar o tempo perdido. Aposta em concluir rapidamente o curso médio para ingressar na faculdade e, desta forma, poder servir melhor a sociedade e a família que vir a constituir futuramente.
A propósito, o funcionário do Departamento Provincial da Saúde Pública já pensa em pedir transferência no serviço, logo depois de concluir a formação média, para frequentar o ensino superior em Luanda ou noutra província onde haja o curso superior de radiologia.
“Tenho um colega que trabalha comigo na saúde pública que trabalha nesta área. De tanto ver o que ele faz senti-me motivado a fazer o mesmo. Fico emocionado quando vejo especialistas a manusearem equipamentos de imagiologia, sobretudo quando efectuam exames de ecografia”, acrescentou.

                                                Faltam salas de aula na Escola de Formação de Técnicos de Saúde

Com 26 compartimentos, o antigo Instituto Médio de Saúde funciona na província desde 2003. Tem apenas 11 salas de aula  capazes albergar até 45 alunos cada, um laboratório de anatomia, um de análises clínicas e um outro para técnicas de enfermagem, todos eles bem equipados e em pleno funcionamento.
A instituição, que passou a chamar-se Escola de Formação de Técnicos de Saúde (EFTS) em 2012, a luz do Decreto Executivo Conjunto 91/12 de 29 de Fevereiro dos Ministérios da Educação e da Saúde do Uíge, carece de infra-estruturas mais adequadas para a actividade lectiva neste nível de ensino.
São no total 1.453 alunos matriculados este ano nos quatro cursos em funcionamento na instituição, que dispõe ainda de uma biblioteca, vários gabinetes de trabalho e uma sala de reuniões com capacidade para mais de 150 pessoas. Do número total de estudantes matriculados da 10ª a 13ª classe, o curso de enfermagem é o que tem mais alunos inscritos, 876, seguindo-se o de farmácia com 174, análises clínicas 222 e radiologia com 169. Os alunos a serem admitidos na instituição devem ter a 9ª classe concluída. Os cursos têm duração de quatro anos.
A instituição conta com 56 professores e 37 funcionários administrativos de várias categorias gerais, que asseguram o seu funcionamento. A EFTS funciona com a dupla dependência da Direcção Provincial da Educação e a da Saúde. Do total de professores que ali trabalham, alguns são do regime geral e outros do regime técnico.
Os primeiros técnicos formados na instituição começaram a ser lançados para o mercado de trabalho em 2007. Até 2016, a EFTS formou, no Uíge, um total de 1.579 técnicos de saúde, entre enfermeiros, analistas clínicos e radiologistas. Em Dezembro deste ano está previsto o lançamento de outros 162 técnicos, 104 dos quais finalizam o curso médio de enfermagem, no de análises clínicas são 33 e 25 frequentam o último ano do curso de farmácia. A escola carece de professores efectivos em algumas disciplinas dos cursos de Farmácia e Radiologia, facto que obrigou a direcção da mesma a recorrer a contratação dos docentes em falta, incluindo alguns que dão a disciplina de educação física.
O director da EFTS, Mário Martins, explicou que a instituição faz parte de um leque de escolas que, ao nível do país, estão vocacionadas a leccionar oito cursos técnico-profissionais.
“Por falta de salas de aulas e de mais professores torna-se impossível aumentarmos o número de cursos”, justificou, tendo avançado que os cursos de cardiopdeumologia, dietética, ortóptica, saúde ambiental e estomatologia deverão ser administrados na instituição logo haja condições de acomodação.

 
Admissão de alunos

Lembrou que no fim ou no princípio de cada ano lectivo a instituição recebe inúmeras solicitações para admissão de alunos. “Somos obrigados a delimitar as vagas por falta de espaços. A procura é maior todos os anos”, deplorou.
Quanto à necessidade de professores, a maior dificuldade está no curso de Farmácia. Mário Martins disse que alguns professores formados nesta área  só foram admitidos no último Concurso Público de Ingresso realizado o ano passado. “Antes disso tínhamos apenas três professores formados nesta área. Agora o número duplicou”, informou o responsável.

Novas infra-estruturas

Até 2014 havia um projecto para a construção de uma nova infra-estrutura escolar onde estavam contemplados alguns laboratórios destinados a esta área de formação. A actual estrutura não facilita a instalação de um laboratório do género.
Mário Martins disse que o projecto só não avançou por culpa da crise económica e financeira que assola o país desde o ano de 2015. A obra seria executada nas imediações da centralidade do Quilomosso, numa área de cerca de 100 metros quadrados.
Sobre a qualidade dos técnicos formados na instituição de ensino que dirige, Mário Martins avançou que dos hospitais, centros e postos de saúde onde os mesmos são enquadrados, a direcção só recebe elogios pela qualidade técnica que os mesmos demonstram. “Isso significa que nós temos aqui bons professores”, concluiu o director da escola.

História da instituição

Do ponto de vista histórico, de 1977 até 2003, os quadros que asseguravam o funcionamento do sector, no Uíge, saíam da antiga Escola Técnica de Saúde, instituição que tinha capacidade para formar apenas técnicos básicos de enfermagem e parteiras. Pelo menos 2.082 técnicos básicos tinham sido formados durante o período em  análise.
Quanto a formação média, quem manifestasse interesse de elevar os seus níveis de conhecimentos académicos era obrigado a abandonar a província. Muitos abandonaram os postos de trabalho. Foi  em função dessa situação que o Governo Provincial do Uíge criou o Instituto Médio de Saúde, que nos seus primeiros anos de funcionamento, de 2003 a 2012, formava apenas técnicos médios de enfermagem.
Só em 2012, quando a instituição passou a chamar-se Escola de Formação de Técnicos de Saúde (EFTS) é que foram criadas as condições para o surgimento dos cursos de Análises Clínicas, Radiologia e Farmácia.

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