Reportagem

Inventar maneiras de estar em casa

António Capapa

Felisberto Cassua, homem de teatro, assegura que se adaptou “bem à situação de emergência que o país está a viver”, porque, na sua condição de reformado, já só saía de casa quando algo se impusesse, e o tempo de quarentena está a servir-lhe para a criação de “argumentos para novas peças de teatro”.

Fotografia: DR

Como vários outros, Felisberto Cassua vê o confinamento em casa como um momento de retiro, de reflexão e reencontro com a família e sobretudo “de interação com os filhos”, ajudando-os em assuntos escolares, estando com eles em brincadeiras e a aprender a gerir o estresse.

“Ter os filhos como foco” é o que aconselha mesmo a psicóloga Jacinta Costa, que devido à busca por ajuda por parte de algumas pessoas, inclusive médicos, por conta da exigência e da pressão na sua actividade neste período de excepção, decidiu, com alguns colegas de especialidade, criar um grupo que presta gratuitamente aconselhamento por telefone e ajuda as famílias a “saberem encarar com serenidade” o estado de isolamento social que estão obrigadas a cumprir.
Conhecer a rotina em casa das pessoas, desde a alimentação ao entretenimento, é o que fazem os especialistas, no sentido de lhes prestar o melhor aconselhamento. O medo parece ter tomado conta de muita gente, que, segundo Jacinta Costa, busca amparo junto do Altíssimo, através da oração. Mas, no entender da psicóloga, “as pessoas não devem buscar Deus com o sentimento de pânico”.
A prática de exercícios físicos, para evitar o sedentarismo, “que é natural em muitos de nós angolanos”, é um dos conselhos, “assim como criar momentos de total entretenimento com os filhos, envolvendo-os, se possível, em todas as actividades”. Segundo Jacinta Costa, o que se pretende é que as pessoas se sintam bem, mesmo que forçadas ao confinamento em casa durante largos dias. Daí que toda a orientação seja de acordo com a preocupação das pessoas.
O consumo por excesso de notícias sobre mortes por conta do novo coronavírus, divulgadas pelos meios de comunicação estrangeiros, é algo que a psicóloga Jacinta Costa sugere que se evite, assim como a não se ater em demasia às informações e mensagens disseminadas via facebook ou whatsaap.
E muitos dos alunos do Instituto de Telecomunicações de Luanda (ITEL) têm a sorte de, através das redes sociais, manterem a sua rotina estudantil, como assegura Alberto Paulo, professor daquela instituição. É através do WhatsApp, Facebook e e-mails que recebem dos seus professores matérias com a possibilidade de verem esclarecidas as suas dúvidas.
“Cada professor estipulou um horário com os grupos por turmas para, através das tecnologias, tirar dúvidas e enviar exercícios aos estudantes. São usadas as redes WhatsApp, Facebook e os e-mails dos estudantes”, realça.
Para o pedagogo Alberto Paulo, o tempo de quarentena deve ser aproveitado pelos pais para ajudarem os filhos com problemas de escrita e de leitura.
“Os pais devem estimular o hábito de leitura nas crianças e ensiná-las como pesquisar matérias na internet e fazer resumo das leituras feitas por eles”.
No entender do professor, mais do que se preocupar com a obtenção de informações sobre a pandemia no mundo, os pais e encarregados de educação “devem aproveitar esta fase para cultivar novos hábitos, alguns já perdidos por causa da situação imposta nas grandes cidades onde os pais deixam e encontram os filhos a dormir”.
Para o psicólogo Paxi Pedro, a ansiedade, a impaciência, o aborrecimento, dentre outros sentimentos, são próprios de momentos como estes.
“Aconselha-se que haja paciência, equilíbrio emocional, prudência e que se evitem os aborrecimentos e estresses desnecessários, apesar de a situação não ser fácil para muitas famílias, sobretudo para aquelas que não possuem um televisor ou alternativas para diversão neste período”, sublinha.
Permanecer em casa vai continuar a ser mesmo o apelo até que cheguem ao fim os dias mais longos, as noites mais curtas, por conta do Estado de Emergência. Para o economista Gilberto Segunda é preciso que as famílias continuem a observar as medidas de biossegurança para se vencer a Covid-19, “evitando ao máximo a propagação do vírus letal”.
O economista realça o facto de a situação não estar fácil para as famílias, “fundamentalmente para as que dependem do mercado informal”, razão porque entende que tanto as empresas como o Estado devem continuar a garantir as condições para que as famílias satisfaçam as suas necessidades sem correrem o risco de se exporem a um inimigo invisível.
“O impacto dessa pandemia obriga a que os agentes económicos encontrem, involuntariamente, o choque na demanda e na oferta de bens e serviços”.
E numa situação como esta é preciso “racionalizar no consumo”, como sugere ainda Gilberto Segunda. Porquanto, afirma, “os excessos e o consumo exagerado podem prejudicar e afectar directamente a renda e a poupança das famílias, sobretudo as que não detêm poder de compra significativo”. Daí que as famílias “devam recorrer única e exclusivamente a bens e serviços necessários,como é o caso da alimentação e saúde”.

 

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