Reportagem

Inventores buscam oportunidades e confiança na classe empresarial

Augusto Cuteta

Dois jovens aparecem em frente de um outro, que percorre uma ruela isolada. Um deles tem empunhado uma arma de fogo. Saca a pistola e, depois de anunciar o assalto, aponta-a para o jovem que anda a sós. Os agressores pedem os pertences da vítima, com a ameaça de que podem disparar, caso este resista.

Ministra Maria do Rosário Sambo prestigiou a Feira Nacional do Inventor e do Criador com a sua presença durante dois dias
Fotografia: Miqueias Machangongo| Edições Novembro

A vítima, que está a caminho de casa, depois de sair da escola, por volta das 22h00, num trajecto de cerca de quilómetro e meio, apela à clemência dos agressores. Explica que, além dos manuais escolares e de um telefone de baixo custo, nada tem para “oferecer” aos marginais.
A justificação não foi convincente. O assaltante armado aperta o gatilho e dispara à queima-roupa. A bala atravessa o peito do estudante, que devia terminar o ensino médio, numa escola do Cazenga, deixando o corpo inerte estendido no chão. O marginal atirador mete-se em fuga, juntamente com o seu comparsa.
Três dias depois, o jovem é sepultado. A família continua à espera de esclarecimentos. Os especialistas do Serviço de Investigação Criminal trabalham arduamente no caso, mas os assassinos do jovem ainda estão por ser identificados. A arma usada no crime, em posse dos marginais, foi adquirida no mercado negro, conta um dos familiares do malogrado, daí as dificuldades para a sua localização.
Cenários como este em que a localização de um criminoso, utente de uma arma de fogo, demore tempo para a sua captura, podem ser evitados, nos próximos tempos, caso as autoridades aprovem e se coloque em prática um projecto criado por um grupo de inventores do Complexo Escolar Eliada, em Viana. Trata-se do “Sistema de informação de apoio à luta contra o tráfico e uso ilegal de armas de  fogo”.
Esse sistema, apresentado durante a Feira do Inventor/Criador Angolano, realizada entre os dias 14 e 16 deste mês, tem como objectivo auxiliar o Ministério do Interior, através do Comando Geral da Polícia Nacional (CGPN), a controlar e a monitorar as armas de fogo distribuídas aos seus efectivos, para evitar o uso indevido deste material letal.
Os criadores explicam que, por meio desse sistema, a arma só efectuaria disparos, se reconhecesse a impressão digital do efectivo a quem fosse atribuído e cadastrado. Além disso, para cada tiro efectuado pela arma, o método forneceria um relatório para a Base de Dados do CGPN, através de uma estrutura de rede de comunicação de dados.
Embora o protótipo do Complexo Escolar Eliada não tenha sido premiado, durante a feira, o projecto despertou a curiosidade de dezenas de visitantes à exposição das criações, aberta e encerrada pela ministra do Ensino Superior Ciência Tecnologia e Inovação, Maria do Rosário Sambo. Durante o evento, promovido pelo Centro Tecnológico Nacional, o mesmo grupo apresentou igualmente o protótipo do “Sistema de informação de apoio à gestão e controlo do curso da vida do munícipe”, que visa auxiliar o detentor do poder local, o autarca, a controlar a região, por meio de informações, em tempo real, sobre o nascimento, evolução escolar e profissional, enquadramento no mercado de emprego, idoneidade social e de óbitos.
A criação do grupo de professores e alunos do referido complexo escolar pôde proporcionar à administração local uma visão ampla sobre o município, de maneira a tomar decisões correctas, principalmente no que toca à formação de quadros, construção de escolas, centros de formação profissional e de emprego, hospitais, assim como ter dados precisos da necessidade da população, para a montagem de estratégias para o seu bem-estar.

Semáforo móvel

Outro projecto apresentado na feira tem que ver com o “Semáforo móvel”, criado pelo engenheiro, Marcolino Kanganjo, auxiliado por Luciano Kanganjo, para ajudar na redução da sinistralidade rodoviária e promover a segurança para reguladores de trânsito.
 Também conhecido por “Penhanha Inteligente”, o projecto é uma inovação para emergências, que estabelece prioridades e oferece segurança para reguladores de trânsito e a sociedade, explica o engenheiro especializado em Electrónica e Telecomunicações, pelo Instituto Superior Politécnico do Huambo, da Universidade José Eduardo dos Santos.
Vencedor da categoria freelancer, nesta nona edição da Feira do Inventor/Criador Angolano, o produto pode ser usado para casos de eventuais avarias nos semáforos convencionais ou para casos em que não existam semáforos fixos, mas que se deseja regular o trânsito.
O engenheiro Marcelino Kangalo esclarece que o sistema também pode ser usado nas escolas de condução como um meio de práticas para aulas de sinalização.
“Existem dois tipos: o de cruzamentos e o de uma estrada. Ambos funcionam sem fio”, avançou, para salientar que o dispositivo funciona como robô, que substitui a penhanha nos cruzamentos ou o regulador em estradas simples.
O engenheiro considera a sinistralidade rodoviária como um problema mundial e refere que o custo alto na compra de equipamento sinaleiro limita a existência do próprio semáforo fixo em muitos municípios do país.
Por outro lado, as oscilações de energia eléctrica em Angola interrompem o funcionamento de muitos semáforos fixos e, por essa razão, trabalham em pouco tempo e avariam. Esse procedimento resulta em abarrotamento de veículos, acidentes e obriga a presença de um regulador no cruzamento de estradas, para monitorar o trânsito.
O inventor afirma que essa situação que, por vezes, coloca em risco a vida dos próprios efectivos da Polícia de Trânsito, visto que nunca se conhece o estado mental de quem conduz e não só, pode ser substituída pelo equipamento que criou. “O próprio regulador, sendo humano, nunca teria tempo integral para ficar na estrada até que seja reposto o funcionamento do semáforo fixo avariado”.

Energia eólica
Outra criação do freelancer Marcelino Kanganjo, igualmente coadjuvado por Luciano Kanganjo, tem a ver com o projecto “Moto vento gerador”, que é uma invenção tecnológica para transporte de energia com sustentabilidade ambiental e económica.
A inovação é uma motorizada eólica que gera energia e possui um sistema de irrigação, para facilitar a deslocação e a produção de energias alternativas com recurso ao vento.
Marcelino Kanganjo explica que o produto aproveita o fluxo do vento ao longo do deslocamento para a auto alimentação, reserva de energia para uso doméstico e irrigação.A energia produzida pelo vento é convertida em energia eléctrica por conversores e é armazenada em três partições dentro da estrutura da moto vento gerador, esclarece o inventor angolano.
Esse equipamento funciona com três partições dentro da sua estrutura, que são os sistemas de geração de energia, para a locomoção da moto e o de irrigação.
“É uma energia económica e ecológica, sem necessidade de utilização de combustíveis fósseis. Não cria poluição ambiental nem aquecimento global, assim como contribui para a saúde e o bem-estar das pessoas”, refere.
O sistema pode oferecer energia eléctrica de 220 volts, em potência de 700 watts, transporta 50 quilogramas em uma velocidade de 40 quilómetros por hora e possui um sistema de irrigação para fazendas agrícolas.O engenheiro explica que criou o equipamento, tendo em conta que a mobilidade e a energia são um problema transversal de todas as cidades de África. O custo alto dos combustíveis, para facilitar a mobilidade e geração de energia, afecta directamente o poder de compra das famílias pobres. Para levar avante o projecto de industrialização, o criador pretende identificar um laboratório técnico para montagem do equipamento, ajuda na compra dos componentes para o protótipo original e apresentar os resultados e produzir em escala.

Estratégia “Xotar a fome”

Na feira, que contou com participantes de 15 províncias do país, Simão Hossi Fulama, estudante do 5º ano do curso de Enfermagem Geral do Instituto Superior Politécnico do Cunene, apresentou o projecto de combate à desnutrição, no bairro do Caculuvale, no município de Cuanhama.
      Nesta localidade do Cunene, registam-se muitos casos de desnutrição. Só no primeiro quadrimestre deste ano, as autoridades anotaram 55 menores de cinco anos com o problema, enquanto, no ano transacto, as estatísticas apontam para 161.
        Em função disso, Simão Hossi criou a estratégia “Xotar a fome”, que pode ser implementada a partir do primeiro semestre de 2019, com vista a melhorar a nutrição e a saúde a nível do bairro Caculuvale, através da distribuição de alimentos ricos em ferro e vitaminas, em crianças com menos de cinco anos.
     O projecto incide ainda  em acções de educação da comunidade de Caculuvale sobre as condições, modo e estilo de vida na prevenção da desnutrição infantil, por meio de mensagem em dialectos locais. Os meios de comunicação social, agentes comunitários e o Ministério da Saúde, são chamados a redobrar esforços, para ajudar nessa batalha.

Aprender com ciências

Em três dias, cerca de 120 projectos e 80 expositores, dos quais 28 seleccionados entre os vencedores das quintas antecâmaras da Feira do Inventor, encheram o recinto do Centro Tecnológico Nacional, para mostrar arte, ciência e inovação.
A feira foi preenchida por representantes de Luanda, Malanje, Cuanza- Sul, Lunda-Norte, Lunda- Sul, Benguela, Cuando Cubango, Huíla, Namibe, Zaire, Uíge, Cuanza-Norte, Huambo, Bengo e Moxico.
Projectos e ideias das áreas de informática, segurança electrónica, educação, ciências ambientais, química e electromecânica representaram-se, em maior escala, durante a nova edição da feira.No encerramento do evento, a ministra Maria do Rosário Sambo considerou a feira como um verdadeiro espaço para aprender ciências, tecnologias e inovação.

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