Reportagem

Investimento na produção de arroz na linha de prioridades do Moxico

Leonel Kassana |

Para as gentes do Moxico, do pequeno agricultor lá no distante Alto Zambeze, o apicultor artesanal nos Bunda, ao empreendedor do ramo hoteleiro na sede da província,

Moxico mobiliza a classe empresarial para a aposta na produção de arroz em grande escala com foco na auto-suficiência alimentar
Fotografia: Nicolau Vasco

a decisão do Executivo de apoiar a produção de bens da cesta básica, promover a substituição gradual das importações, no âmbito da estratégia para a saída da crise e a diversificação da economia, vem numa boa altura.
A imensidão de terras aráveis e a quantidade de recursos hídricos estão associadas à vontade dos habitantes de produzir localmente aquilo que a guerra, principalmente esta, obrigou a consumir apenas o que vinha de outras regiões do país ou mesmo da Zâmbia.
Ao serem definidos programas dirigidos para os quais o Executivo, através dos seus departamentos ministeriais, tem direccionado apoios à produção e também ao investimento, na esteira do processo de diversificação, vários projectos empresariais públicos e privados puderam ser lançados ou reactivados.
O Moxico tem alguma tradição na produção de alguns bens como o arroz, o mel e a madeira, que se devidamente orientados os respectivos processos de produção, podem contribuir decisivamente para a resposta nacional às necessidades de aumentar a produção, além de garantir a segurança alimentar e contribuir para a entrada de divisas para o país através das exportações.
Neste momento, no Moxico trabalha-se arduamente para que a província recupere o seu lugar de grande produtor de arroz. Já vai longe o tempo em que esteve nos lugares cimeiros do ranking nacional dos produtores de arroz. A aposta agora é trabalhar para recuperar  o estatuto de grande produtor.
Entretanto, oOutros projectos de produção  estão a ser desenvolvidos com sucesso notável em vários municípios do Moxico, que aos poucos vê surgir polos de produção de milho, hortícolas, de povos e criação de aves para abate.
A abundância de recursos hídricos, terras férteis, aliadas à força de vontade e criatividade as  famílias camponesas, fazem do Moxico uma província com as condições ideais para tornar-serapidamente uma potência agrícola.
Aliás, a contrastar com um passado recente em que importava tudo e mais alguma coisa, hoje a aforta de produtos agrícolas no mercado local e províncias fronteiriças já é um facto, enquanto a exportação para países vizinhos, como a República Democrática do Congo e Zâmbia começa a fazer parte das contas dos homens de negócios, animados com o apoio institucional para a implementação dos vários projectos na região.

Optimismo do governador

O governador da província do Moxico, João Ernesto dos Santos, destaca a implementação de dois projectos implantados na região e que vieram mudar definitivamente o mapa agrícola do Leste de Angola. Trata-se dos projectos Sacassanje, próximo do Luena, e a Fazenda Camaiangala, no município de Camanongue. O primeiro foi desenhado a pensar na produção, em grande escala, de todo o tipo de hortícolas, carne de cabrito e ovos, enquanto o segundo dedica-se à produção de milho, soja e suínos.
O governador explica que esses dois projectos localizados no território do Moxico são de âmbito central, estão em pleno funcionamento e que cada um deles cumpre a sua função, que é a produção de bens de consumo para a população daquela província e das regiões vizinhas.
“Sacassanje e Camaiangala são neste momento os projectos de bandeira na província do Moxico, têm subordinação central e são de grande dimensão, cumprindo com os objectivos estabelecidos pelo Executivo no quadro do programa de diversificação da economia e o aumento da oferta de bens alimentares para a população”, acrescenta.
O governador recorda que no quadro dos programas dirigidos, o relançamento da cultura do arroz na província do Moxico foi um dos projectos apreciados numa sessão conjunta das Comissões Económica e para a Economia Real do Conselho de Ministros que, em Junho deste ano, se realizou no Luena. “As orientações foram traçadas para que com os órgãos competentes do Executivo, nomeadamente a Agricultura e Economia, se possa trabalhar com os sectores privado e empresarial e encontrar as melhores formas para o relançamento efectivo da produção do arroz”, sublinha.Para já, os passos desenvolvidos até aqui para tornar realidade esse desafio lançado pelo Executivo aos empresários e camponeses individuais ou organizados em associações e cooperativas agrícolas começam a dar resultados.A começar pelos seminários realizados na cidade do Luena sob orientação de peritos de diversos departamentos ministeriais directamente ligados à implementação de programas de produção de bens alimentares, sobretudo do arroz.
A esse propósito, o governador explica que foram realizadas várias acções de capacitação para empresários e camponeses para que estejam organizados e conheçam as melhores técnicas do cultivo do arroz permitindo alcançar elevadas colheitas. Acrescenta que alguns desses empresários não tinham processos completos nem o estudo de viabilidade, mas que isso hoje está a ser feito e com sucesso visível. “Muitos empresários já têm feito algum trabalho no Cameia, um dos municípios que possuem várias extensões de terras propícias ao cultivo do arroz”, revela, explicando que delegações de empresários nacionais e estrangeiros têm cada vez mais como destino a província do Moxico onde recebem apoio institucional do Governo.
Aliás, no dia em que falou ao Jornal de Angola, o governador acabava de receber mais três destas delegações, o que é particularmente ilustrativo do interesse dos investidores nesta parcela no território nacional. “São empresários que dispõem de capital para investir e estiveram aqui para obterem apoio institucional e indicámos o tipo de documentação necessária e outros detalhes”, acrescenta João Ernesto dos Santos, destacando que alguns empresários estão mais adiantados, pois “já possuem no terreno alguns equipamentos agrícolas e estão prontos para arrancar com a produção”.
O encontro do Luena, sublinhe-se, abordou também os programas ligados à pesca continental e florestal, duas das áreas em que as autoridades da província do Moxico fizeram uma aposta forte na senda da diversificação da economia.
 Nesse domínio estão a ser desenvolvidos programas para a exploração sustentada do peixe dos rios, lagos e lagoas, bem como da madeira. Equipas do sector das pescas já estiveram a trabalhar no Moxico tendo percorrido várias localidades que no passado desenvolveram a pesca continental e viram as condições paraa sua  reactivação à escala comercial.

Ano do arroz

“Este ano (2016) é do início do relançamento do cultivo do arroz no Moxico, da concentração dos equipamentos para que em 2017 possamos dar início efectivo à execução das acções que foram orientadas superiormente para a província do Moxico no quadro dos programas dirigidos”, sublinha o governador.
Outros projectos ligados à agricultura familiar de subsistência são destacados e que paulatinamente vão ganhando mais relevância com a chegada do comboio que agora viabiliza, com facilidade, o escoamento da produção para os grandes centros de consumo nas vilas e cidades.João Ernesto dos Santos, que tem presente a rapidez com que a agricultura responde aos desafios ligados ao combate à fome e pobreza, assume claramente que a aposta no cultivo do arroz vai contribuir para a diminuição da sua importação e contribuir significativamente para a diversificação da economia.
A aposta em métodos modernos de cultivo do arroz e outros incentivos aos pequenos agricultores, como sementes e fertilizantes, pode garantir o aumento do rendimento das famílias e recolocar rapidamente o Moxico no lugar das regiões mais produtoras do país.
 Esse é já um dado adquirido, numa altura em que províncias como Uíge, Cuando Cubando, Bié, Huambo e outras surgem iniciativas para a produção do arroz em larga escala.Particularmente significativa é a referência do governador aos empresários com capital que têm vindo a rumar ao Moxico para “agarrar” as oportunidades de investimento que a província oferece, particularmente no domínio do cultivo do arroz.
Na verdade, a entrada de empresários “fortes”no segmento do arroz pode significar também a industrialização da província e uma garantia segura para a produção em proporções que permitam prover o mercado angolano, primeiro e, depois, para a exportação, sobretudo para os países limítrofes, num momento de sérias limitações cambiais.
Na generalidade, os municípios do Moxico têm em comum condições climáticas óptimas para a produção do arroz e outros cereais, além de hortícolas, frutas e outros bens agrícolas.
No Alto-Zambeze, cerca de 520 quilómetros a leste do Luena, por exemplo, o retorno à cultura do arroz em todas as chanas está a levar as autoridades a criarem mais incentivos para as associações de camponeses com apoio em sementes, instrumentos agrícolas, formação sobre técnicas de cultivo, paralelamente ao diálogo com os bancos para a cedência de crédito.
No Luacano, outro município, com uma população de mais de 30.700 habitantes a, Leste do Luena, o aumento da produção passa pelo aumento do número de associações e cooperativas agrícolas para viabilizar o apoio, pelo governo, em equipamentos agrícolas, como máquinas de descasque do arroz, alfaias, enxadas, sementes e outros meios.
Este ano, na comuna do Lago Dilolo foram preparados 48 hectares para o cultivo do arroz, um aumento significativo se comparado com os 12 hectares da campanha agrícola passada.
Ainda não são conhecidos os resultados esperados, mas só o aumento de hectares pressagia um acréscimo  significativo nesta empreitada, que envolve sete associações que totalizam 8.200 camponeses.
Dados disponíveis indicam que para a campanha agrícola recentemente aberta na cidade do Luena foram preparados 187.580 hectares para o cultivo do arroz, milho, mandioca, batata-doce, feijão e hortícolas com participação directa de 61.667 famílias camponesas e 425 agricultores de pequeno porte que contam com o apoio do governo através do programa de extensão e desenvolvimento rural e do fomento agrário. Só do município da Cameia espera-se a colheita de mais de 500 toneladas de produtos, maioritariamente arroz, a grande aposta das autoridades.

Ligação com os municípios                          

Mas se o aumento da produção de bens alimentares é já uma aposta quase ganha no Moxico, a circulação efectiva, segura e barata de pessoas e mercadorias por estrada ainda se apresenta como preocupação para as autoridades.
Segundo o governador João Ernesto dos Santos, o Executivo já deliberou a delimitação do troço rodoviário paralelo à linha do Caminho-de-Ferro de Benguela para garantir a ligação entre a cidade do Luena e os municípios do Luena, Leua e Cameia. Isso numa primeira fase, já que o programa prevê posteriormente a intervenção na via Luacano/ Luau.  “As obras na via Luena/Leua estão já em desenvolvimento, apesar da existência de alguns atrasos motivados pela conjuntura económica menos boa do país e acreditamos que nos próximos três, quatro ou cinco anos poderemos ver concluído o troço até ao Luau”, explica o governador do Moxico. À pergunta sobre a ligação com os restantes municípios, o governador que dirige a província mais extensa de Angola, com 223.023 quilómetros quadrados, adianta estarem em andamento “importantes obras de reabilitação” e dá como exemplo a intervenção no troço entre Luena e a sede do município dos Bundas e daí para as comunas do Ninda, Tchiume e Narquinha, na fronteira com  a província do Cuando Cubango, assim como na Estrada Nacional 180 em direcção ao município de Luchazes.“Se outros constrangimentos não surgirem, acreditamos que no ano das eleições (2017) essas obras poderão ser concluídas e apresentadas, para a satisfação da população dos Bundas e Luchazes”.
A reabilitação de pontes, pontecos e outras estruturas das estradas entre os vários municípios revela-se, pois, de importância capital, sobretudo para aquelas localidades mais distantes do traçado da linha do CFB, que é hoje o principal meio de escoamento de bens agrícolas para os grandes centros de consumo nas vilas e cidades um pouco por todo o país.
Neste aspecto, o governador não poderia ser mais assertivo: “Com as estradas reabilitadas, as pessoas têm tudo mais facilitado, ao conseguirem movimentar-se sem dificuldades. Podem vender os produtos do campo e outros, melhorando, assim, o nível de vida”. Paralelamente, a implementação dos programas de assistência às populações, sobretudo do meio rural, têm respostas mais eficazes, pois o transporte e montagem dos equipamentos sociais, como sistemas de abastecimento de água, energia, saúde, educação e outros serviços chegam com mais rapidez aos municípios localizados no interior da província do Moxico.

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