Reportagem

Jornalistas,uma linha da frente no combate ao vírus

Rosalina Mateta

Como que num piscar de olhos, a dinâmica do mundo transformou-se. O surgimento do novo coronavirus ditou o recolhimento obrigatório, medidas de higiene redobradas, distanciamento social, confinamento, etc.

O jornalismo é das profissões que muito facilmente coloca em risco quem a exerce.
Fotografia: Edições Novembro

Alterações que a racionalidade humana não concebe. Muitos direitos foram usurpados ou simplesmente anulados. A vida dos jornalistas, já em si agitada, por conta do dever diário de informar, também alterou-se consideravelmente, tanto no modo de actuação como de precaução. As redacções reinventaram-se e os jornalistas tiveram de se adaptar a elas e às condições exteriores de trabalho.

Em Tempo de Pandemia, a velocidade da notícia cruza-se com um inimigo invisível, a Covid-19, da qual nem quem dá a conhecer ao mundo os seus estragos está imune. Por toda a perte, particularmente na Europa e Estados Unidos, conhecem-se histórias de jornalistas que foram vítimas desta doença. Em Angola, felizmente, não há registo de qualquer caso de contágio entre os membros da classe. Sem dúvidas, os jornalistas fazem parte do grupo que está na linha da frente ao combate da Covid-19.

Jerusa Ferreira, repórter da Televisão Pública de Angola ( TPA), faz coberturas sobre a Covid-19. Mãe de quatro filhos, com 22, 11, 9 e 6 anos, está fora do convívio familiar há mais de 20 dias. Por precaução, está hospedada num dos hotéis de Luanda. Desde o anúncio dos primeiros casos da pandemia em Angola, “ o trabalho foi a dobrar. Na TPA, eu e o meu colega, Artur Gil, operador de câmara, somos os jornalistas da linha da frente. Tem sido gratificante e cansativo”, avalia Jerusa.

Neste período, a jornalista da TPA já trabalhou no Instituto Nacional de Investigação em Saúde, onde são processadas as amostras da Covid-19 e não só. Anunciou os primeiros casos positivos registados na Clínica Girassol, entrevistou, em exclusivo, pacientes infectados e recuperados - foi a única jornalista no país a fazê-lo - e tem trabalhado com médicos intensivistas de várias unidades públicas e privadas.

O contacto directo com todos os elementos que gravitam à volta da doença causada pelo novo coronavírus está a causar dissabores à Jerusa e à sua equipa. “Desde que entrei na Clínica Girassol e fiz o caso do paciente infectado, instalou-se o pânico. Os colegas têm medo de ficar ao pé de mim”, queixa-se. O que lhe devia consagrá-la heroína, torna-a vilã. Jerusa fala do estigma e de discriminação. Se, no princípio, achou normal o facto de as pessoas a evitarem, agora já diz: “é complicado… O que mais me tem preocupado é o estigma das pessoas, inclusive alguns colegas”.

A gota de água que fez transbordar o quadro discriminatório, descrito pela jornalista, foi a cobertura da chegada dos médicos cubanos e o posterior anúncio da infecção de uma cidadã do país norte-americano. “As coisas começaram a complicar ainda mais. Não tenho tido apoio dos colegas. Eu é que tenho aprendido a lidar com esta situação. Entendo que muitos ainda têm dificuldades, não sabem das formas de contaminação do novo coronavirus. O meu PCA é a pessoa que mais liga para mim e que mais ralha comigo, porque acha que tenho exagerado nas minhas idas aos hospitais”.

Porém, Jerusa Ferreira, a trabalhar com matérias ligadas à Saúde, define-se como uma mulher que enfrenta as adversidades. “Gosto de desafios… Nos hospitais, sei onde pisar. já entendo bem sobre o que é uma área contaminada e limpa. Mas tenho cuidados redobrados”. A par do estigma e da discriminação, Jerusa está também muito preocupada com a desinformação ou informações erradas que chegam às pessoas.  “Nesta altura, além do estigma e da discriminação, é a falta de informação sobre as formas de contaminação e medidas de biossegurança. Estes, para mim , são as maiores das pandemias” .

Hospedagem como medida de protecção

Jerusa e o repórter de imagem, Artur Gil, estão há mais de 20 dias hospedados em hotéis. Depois de 15 dias, mudaram-se para outro, onde estão actualmente. Na segunda-feira, 27, juntaram-se à dupla dois editores de imagem, nomeadamente, Francisco Torres e César de Carvalho.
“Neste momento, estamos hospedados num outro hotel, onde escrevo e editamos. Muitas vezes vou à TPA, apenas para ler os textos”.
Para Jerusa, do ponto de vista mental e emocional, tem sido um pouco difícil manter-se afastada dos que ama.

“ Vejo pouco a minha família. Embora faça vídeo- chamadas, falo com os meus filhos e com o meu marido. Às vezes, tenho vontade de abraçá-los, beijar… dá saudade… Mas, para proteger a minha família, prefiro estar distante…”, exterioriza. Se, do ponto de vista emocional, Jerusa não parece totalmente satisfeita, profissionalmente considera difícil, mas prazeroso. “Trabalho com Saúde já há 10 anos, sei muito pouco ou quase nada sobre a Covid-19, porque é um vírus novo, do qual vêem sendo feitas novas descobertas. Mas, como medidas de prevenção, tenho tomado cuidados redobrados para proteger os meus colegas, a mim e a minha família. Tem sido uma luta, acima de tudo, uma luta prazerosa. Tenho aprendido muito com aquelas pessoas acometidas com a Covid-19. Nas minhas matérias, tenho falado muito de prevenção”, descreve.

Apoios

Da família, Jerusa garante que recebe todo o apoio e carinho, através de mensagens de incentivo que a levam a acordar todos os dias com vontade de correr atrás da informação. “ Estas mensagens, de certa forma, fazem com que perca o medo. O meu marido, às vezes , também fica acordado até muito tarde a investigar sobre a Covid-19 e manda-me algumas sugestões para pautas. A minha família tem sido o meu grande suporte... Os meus irmãos com o meu pai ficam todos bastante preocupados comigo, mas incentivam-me.

Da TPA, por via do meu PCA, que tomou a iniciativa de hospedar-nos em hotel para protegermos os colegas e as nossas famílias, também recebemos mensagens de encorajamento. O PCA, o senhor Francisco Mendes, é o que mais liga para mim e demonstra preocupação, principalmente, quando vê no ar uma peça em que eu esteja num hospital”, detalha Jerusa. Quando a saudade aperta de verdade, não resiste e vai a casa visitar os filhos. Argumenta que se cruzam pouco e que, como é óbvio, os mais novos sentem a falta da mãe.

“O mais velho e o pai devem conversar muito com os meninos para os consciencializar de que estou a trabalhar. Mas, sempre que posso, visito os meninos, passo a tarde com eles, tomando todas as medidas de biossegurança”, assegura a jornalista.

Fuga da quarentena

Para Jerusa, fugir da quarentena não é apenas um comportamento infantil, é crime. Porque estamos diante de um problema global e sabe-se que o processo de contaminação é muito fácil e que uma pessoa infectada pode contagiar mais três ou quatro pessoas. Então, fugir da quarentena é um acto condenável. Fico muito, muito desapontada. Estas pessoas não sabem o que podem causar aos outros. Fico ainda mais triste com as pessoas que vêm de países com infecção comunitária, mas, ainda assim, dão endereços falsos, dificultando o trabalho do Ministério da Saúde, que tem sido elogiado, inclusive, internacionalmente, pelas medidas de biossegurança que vem tomando. Se as pessoas fogem, estão a comprometer todo o trabalho de uma Nação e eu vou continuar no hotel…”, lamenta.

 

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