Reportagem

Kinshasa para além das eleições

Luísa Rogério

A voz do call center do aeroporto anuncia o embarque para Kinshasa, via Brazzaville. Faltam 50 minutos para o voo, programado para as 14 horas, e já estamos perfilados. Pelos vistos, ficaram no passado os tempos em que a nossa companhia de bandeira dava “bandeiras” monumentais em relação ao cumprimento de horários.

Fotografia: DR

A “voz” chama os passageiros para Lisboa. Seguem-se os que têm como destino Addis Abeba. E Joanesburgo. Continuamos à espera de informações. Passa das 15 horas quando entramos no avião. Cumpridos os procedimentos, a aeronave faz-se à pista. Prestes a levantar, o comandante comunica um problema técnico. Os passageiros voltam para a sala de embarque. Ninguém diz nada.
O aumento da ansieda-de é proporcional à falta de esclarecimentos. Ligamos para conhecidos na companhia. Garantem que a avaria está reparada. Voltamos ao aparelho de aspecto cansado, privado do serviço de entretenimento e com cintos corroídos. Se calhar, é para nos habituarmos às condições que nos esperam no destino, comenta alguém. A gargalhada provocada pela piada politicamente incorrecta ajuda a desanuviar a tensão no ar. Novamente prestes a levantar voo. Precisamente no ponto onde estacionara da primeira vez, o comandante anuncia a persistência da avaria. Uma segunda tentativa de descolagem e abortada deixa toda a gente receosa. Às 16 horas, altura em que devíamos aterrar em Kinshasa, desembarcamos outra vez em Luanda de onde não chegamos a sair.
De regresso à sala de embarque constatamos o voo 542 no placard electrónico, que indica a remarcação para as 16h50. As assistentes de terra, que antes discutiam sobre quem devia ter feito o quê, também atendem. A companhia não oferece, se-quer, um copo de água. Contudo, a troca de aeronave ani-
ma. Esta tem ar condicionado. O entretenimento a bordo está operacional. Nunca é demais voltar a ouvir as instruções da cabine com vista a reforçar a sensação de segurança. São 17h25. À terceira é de vez. O pássaro de ferro sobe sem sobressaltos. Quase a aterrar em Brazzaville, onde chovia torrencialmente, se-gundo a tripulação, começa aquela turbulência. Nada grave. A operação desembarque/­­­embarque, para quem fica nesta escala, de-corre dentro da normalidade. Passados treze rigorosos mi-nutos no ar, a aterrissagem perfeita nos situa. “Bem-vindos a Kinshasa”, augura a chefe de cabine.
As surpresas iniciam no Aeroporto Internacional de Ndjili. Pequeno, mas funcional. Limpíssimo. A única pergunta formulada pela funcionária dos serviços de migração é concernente ao hotel de estadia. A menção à Embaixada de Angola, inclusive para utentes de passaporte ordinário, ga-rante o carimbo de entrada. Ao transitar para a zona de recolha de bagagens é obrigatória a paragem no “check point”. A apresentação do cartão internacional de vacinas com a estampa de imunização contra a febre ama-
rela é requisito inegociável. A máquina para o despiste de febre ou outros sinais associados ao ébola “radiografa” todos os recém-chegados. “Porquê, se vocês é que têm ébola?” A resposta para o desabafo feito por um angolano desavisado vem igualmente em português: “temos que controlar, a doença não escolhe nacionalidade…”. Não era essa a previsão do primeiro contacto com Kinshasa.

Antítese do caos

Ludovico M, jornalista investido nas funções de adido de imprensa da Embaixada de Angola na República Democrática do Congo (RDC), dá dicas prestimosas sobre a cidade e o país. Explica que a visão do caos expectável quando se visita Kinshasa não é generalizada. O olhar dispersa-se freneticamente em busca das primeiras im-pressões. Há iluminação pú-blica. Não esperava encon-
trar avenidas largas. Muito menos com seis faixas de rodagem. Perto das vinte horas da última sexta-feira do ano há grande movimentação na via que liga o aeroporto ao centro da cidade.
Kinshasa é a capital do país administrativamente dividido em 26 províncias. Com cerca de 12 milhões de habitantes, de acordo com estimativas de 2018, goza da fama de ser a cidade francófona mais habitada do mundo. Múltiplos sites de internet calculam que a sua população seja cinco vezes superior a de Paris, França. A cidade floresceu nas margens do rio Congo, que lhe empresta uma beleza singular. Fundada em 1881 pelo explorador britânico Henry Stanley, ganhou o nome de Leopoldville em homenagem ao rei Leopoldo II da Bélgica, tendo-se tornado capital da colónia do antigo Congo Belga em 1926. Em 1966 foi rebaptizada com o actual nome, herdado da vila piscatória denominada Kinshasa.
De lá para cá Kinshasa cresceu exponencialmente. Converteu-se na terceira maior cidade do continente africano, atrás da milenar Cairo, no Egipto, e Lagos, capital económica da Nigéria. A magnífica vista do rio Congo, conhecido por Zaire em Angola, enche os olhos. Com uma extensão de 4.700 quilómetros, é o segundo maior rio de África, depois do Nilo, e o sétimo do mun-do. Brazzaville, capital da República do Congo, fica na outra margem, a dez minutos de barco.
Ao longo da independência do país, alcançada a 30 de Junho de 1960, foi palco de intrigas políticas, situando-se ainda hoje no centro de intrincadas teorias de conspiração. Ostenta o estatuto de importante meio académico, cultural e social da África Central, constituindo referência incontornável no âmbito do estudo de civilizações de matriz bantu. Fruto do período histórico em que cada cidadão era aconselhado a desembrulhar-se mediante as possibilidades, Kinshasa é a cidade onde tudo é vendável e pode ser negociado.
Se nos anos oitenta a cidade passou a ser a imensurável praça na qual todos eram simultaneamente mercadores e compradores, conforme exaltou o cantor Tabuley, hoje o sector informal movimenta parte considerável da economia do país.
Fontes díspares de pesquisas inserem Kinshasa na descrição de cidade do “salve-se quem puder”. Engana-se, contudo, quem a circunscreve na redutora visão do caos. Tem um trânsito infernal, às vezes prevalece a impressão de estarmos num país totalmente desgovernado e dotado de regras concebidas unicamente para serem quebradas, ao sabor da nossa conhecida gasosa, bairros de-gradados e saneamento bá-sico sofrível. É uma cidade bonita. O centro é limpo, em-bora se encontrem focos de lixo. A arborização abranda o calor. Em Novembro chove todos os dias. Mas raramente as populações ficam sitiadas. No instante a seguir, as águas pluviais percorrem caminhos previamente traçados, ainda que de modo precário. Águas residuais dificilmente inviabilizam o acesso a becos e atalhos nas zonas suburbanas.
A boulevard 30 de Junho, a Patrice Lumumba e outras artérias com edifícios modernos ficariam bem na fotografia de qualquer cidade do mundo. As mulheres e homens “invisíveis” limpam discretamente as ruas. Os jornalistas angolanos filmam. Perguntam-se por que razões as televisões, incluindo as nossas, poucas vezes mostram imagens que fazem parte do postal chamado Kinshasa. Tão perto de nós, à distância de alguns cliques, tão diversificada e reveladora, cosmopolita e precária. Assim é Kinshasa. A cidade descrita genericamente como concentração de lamaçal, sujidade e bairros caóticos.

  Equilibrismo no trânsito

Em definitivo Kinshasa não é uma versão maior de bairro nenhum. São muitas realidades misturadas. Claro que sempre vamos ver um camião carregado de mercadoria com gente em cima. Ou um turismo pequeno com o porta-malas cheio de folhas de mandioqueira. Estamos em Kinshasa. Os táxis personalizados e colectivos são amarelos. O tom vivo sobrepõe-se a outros detalhes em inúmeras paisagens. Tal como em Angola disputam clientes a dedo. Os cobradores proporcionam um “show” à parte. Caso a viatura esteja cheia empoleiram-se na parte traseira. Atenção: fora do carro. Com os braços presos às laterais circulam até terem uma vaga no interior. “Não se podem dar ao luxo de desperdiçar o dinheiro de um passageiro,” explica Júnior, motorista que apoia a equipa de jornalistas.
As viaturas que fazem táxi estão identificadas com um número atribuído em função da rota pré-definida. Quer dizer, é vedada aos motoristas a possibilidade de alterarem de percurso conforme os seus interesses. Estranhamente, mesmo em troços complicados devido ao tráfego, os acidentes de trânsito são pouco frequentes. Também é verdade que se desrespeitam as regras de trânsito de modo flagrante. Causa espanto quase nenhum a passagem pelo sinal vermelho. É comum os automobilistas transporem barreiras, como se houvesse um acordo tácito de circulação à margem de regras.
O que faz a Polícia de Trânsito? Perguntas óbvias pedem respostas óbvias. Intervenções pedagógicas ou coercivas acontecem quando há acidentes graves. Geralmente os agentes da polícia assistem impávidos ao desenrolar dos acontecimentos. Há quem diga que, muitas vezes, a impavidez resulta de “estímulos” monetários. Viaturas sobrelotadas de passageiros e cargas, mercadorias mal acondicionadas e cobradores suspensos fora dos táxis passam “despercebidos” ao abrigo do espírito congolês, inspirado no célebre “débrouillez-vous”. Qualquer coisa como “desembrulhai-vos”, em bom português. A prática, incrementada durante a vigência de Mobutu Sese Seko, sugeria ao cidadão a busca de melhores alternativas na luta pela sobrevivência.

Dolarização da economia

Do ponto de vista administrativo Kinshasa tem categoria de província. Está dividida em 4 distritos e 24 comunas geridas por um prefeito. Trata-se de áreas diferentes, sulcadas pelas assimetrias profundas que caracterizam a maior parte das cidades africanas. Por um lado, o irrefutável crescimento em áreas nobres como “La Gombe”. O Presidente da República, embaixadas, hotéis de 5 estrelas, shoppings e lojas badaladas situam-se no perímetro considerado o mais seguro da cidade. No centro e mercados periféricos, o dólar norte-americano circula a par do franco congolês. A moeda norte-americana é usada para pagar a estadia num hotel, fazer compras na maior cadeia de supermercados de África, recarregar o telemóvel ou beber um refrigerante, que custa aproximadamente dois dólares. À determinada altura, o visitante resigna-se. Deixa de fazer contas, passando a depender da índole do vendedor.
Viajar num contexto de cobertura eleitoral restringe as oportunidades de descobrir a vibrante Kinshasa. Fica adiada a deslocação ao Lago Vitória, onde em 1957 Patrice Lumumba apelou à insurreição popular que culminou com a proclamação da independência. Não conhecemos o Mont-Fleurie, bairro rico da capital, nem Kinshasa 2, na zona do Maluko. Turistas experimentados o classificam como pequena maravilha arquitectónica. Merece a classificação de maravilha o imponente hospital construído pelo basquetebolista  Dikembe Mutombo, ex-estrela da NBA. A solidariedade do filho da terra, que jamais se esqueceu das origens, chama a atenção na avenida que liga o centro ao aeroporto. Evidencia as consequências da solidariedade, vontade de realizar e empenho na captação de recursos. Esse e outros hospitais têm sido procurados por pacientes angolanos.
Motivos suplementares para marcar encontros posteriores com Kinshasa, porta de entrada do país assolado com graves problemas estruturais. As enormes riquezas do seu subsolo são, paradoxalmente, inseridas entre as causas da pobreza da população. A riqueza assenta na génese de convulsões recorrentes que assolam o país, esquecido pela comunidade internacional e estigmatizado por olhares eivados de preconceitos. O Congo é o Congo. É aqui. Não tem que ser eternamente o expoente de paradoxos.

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