Reportagem

Laúca garante apoio às populações locais

Rodrigues Cambala |

O projecto hidroeléctrico de Laúca atende as populações das aldeias vizinhas. Foram construídos fontenários, escola e hospital. A fábrica de sabão já está a gerar rendimentos.

O fabrico de sabão caseiro é uma das fontes de rendimento de muitas famílias da aldeia Yang Culo
Fotografia: Vigas da Purificação |

Casas minúsculas de adobe, uma mais próxima da outra, vielas, dois fontenários e capim à volta. É a aldeia de Muta. Adérito Tchiuca gesticula ao mesmo tempo que solta a voz para virarmos à direita. Ergue o dedo indicador para apresentar o terreno onde vai ser construída a padaria, fábrica de sabão, fazenda e a moagem.
O silêncio é quebrado por cães que correm em jeito de brincadeira. A matilha não vem só. Por trás seguem duas mulheres de camisola branca, lenço envolto na cabeça e panos pintalgados, vermelho, preto e amarelo. Eva Pedro Kiluanji e Maria Morgado estão visivelmente apresentáveis para um acto público.
“Twazekele,” respondemos em uníssono à saudação das duas mulheres em língua quimbundu. Aproximam-se, sem pejo, com um sorriso perceptível. Conhecem bem Adérito, técnico especializado de responsabilidade social do projecto Laúca que todos os dias interage com as comunidades.
Maria Morgado, 45 anos, natural de Kalandula, tem três filhos. Eva Pedro Kiluanji nasceu há 48 anos no Katengo Kangola. Viveu 30 anos no bairro Malanjino, em Luanda, onde fez os seus seis filhos. Está, há seis anos, no Muta, a realizar a actividade agrícola.
A empreitada da barragem hidro-eléctrica de Laúca arrancou em 2012, e além de criar emprego à população local, estão a ser implementados vários projectos sociais ligados ao saneamento, distribuição de água potável, construção de escolas e hospitais.  Eva tem estatura baixa,  mas mesmo assim é mais alta que Maria Morgado. Se Maria perde em termos de altura, na hora de falar regista um avanço significativo. É desinibida e tem sempre alguma coisa para falar sobre a vida da comunidade.
Mal Eva Kiluanji começa a explicar que cultiva mandioca, feijão, maracujá, Maria Morgado estorva para acrescentar em língua nacional: “No cacimbo do próximo ano vamos tirar já a mandioca que plantámos no ano passado”. Maria Morgado frisa que no próximo ano vão poder também fazer o bombó, que vai ser triturado na moagem local.
Para gáudio dos camponeses,  os produtos do campo são vendidos ao projecto. Antigamente percorriam grandes distâncias para comercializar o que produziam. Vezes sem conta estragavam por dificuldades de escoamento.
“A nossa vida mudou desde a presença do Laúca. Está a ajudar-nos porque estávamos a sofrer”, lembra Eva Kiluanji, que vê no momento a sua opinião reforçada por Maria: “Agora com o que ganhamos compramos o sal, o peixe e o lápis para os miúdos irem à escola”.
Laúca reduziu o sofrimento de dezenas de famílias. A batata, a mandioca, o feijão já não apodrecem dentro de casa. Deixaram de levar os seus produtos até Dondo. Deixaram de trabalhar em vão.
A aldeia está limpa, sem lixo e moscas. A equipa de saneamento, criada no local pela Odebrecht, convida com regularidade os moradores a participarem nas campanhas de limpeza.  Faz-se igualmente oferta de mosquiteiros impregnados. A localidade conta com seis tanques de lavar roupa, o que ajudou à higienização.
Houve épocas em que consumiram água da cacimba onde bois, porcos, cabras, macacos e cães também punham o seu focinho. Este tempo está nos arquivos mortos. De lá ninguém mais retira. Além de construir fontenário, o projecto hidroeléctrico de Laúca tem um camião cisterna que abastece água tratada às populações.  As localidades ainda sem água receberam bidões de mil litros de água que são postos à berma da estrada.
“Sofríamos muito por falta de água”, recorda Maria Morgado, levando as mãos ao rosto magro.
 
Educação

Muta tem uma única escola, de ensino primário. As paredes transpiram vigor. Não tem alunos e professores. As portas estão encerradas. É sábado. O quintal está vedado com rede de arame. A dez metros vê-se a numeração das seis salas de aulas onde estudam mais de 80 alunos, alguns oriundos de comunidades longínquas.
A escola começou a ser construída pelo Fundo de Apoio Social, mas foi concluída pela Odebrecht. Devido à distância, as crianças das comunidades da Vila dos pescadores e Kiakulungo são recolhidas por uma viatura para poderem aprender a ler e escrever. Trinta adultosfrequentam aulas de alfabetização.
Reiteradas vezes, Maria e Eva agradecem pelo Laúca, ora em português, ora em quimbundu. “Graças ao Laúca que vimos os problemas reduzidos”, contam em coro. “As crianças aqui não estudavam”, acrescenta Eva em tom alto.
Os professores enviados pela Direcção Provincial de Educação não têm comparecido. “Os professores que Laúca enviou é que garantem as aulas aos nossos filhos”, afirmou Maria Morgado, que viu a sua opinião corroborada por Adérito Tchiuca.
A conversa ganha novos temas com a chegada de Maria José, com o filho ao colo. Mais uma Maria. É franzina tal como as amigas. Não sabe bem a sua idade, primeiro revela que tinha 35 anos. Mas a correcção foi prontamente feita por Maria Morgado. “Ela tem 43 anos”, rectifica.
Uma pequena pausa antecedida de murmúrio e gracejos. O registo de nascimento  de Maria José tem idade reduzida. O irmão mais novo tem mais idade que ela. Justificação plausível.
Apresentam os pés esbranquiçados.  Calçam chinelos de borracha, suportados por uma alça que atravessa o tornozelo. O sol está entre as nuvens carregadas de água. Nestes dias, a luz das manhãs é ofuscada por bastante nevoeiro que se prolonga até quase ao meio da manhã. O terreno está seco.
Muta é o bairro que se destaca nos projectos sociais. A sede principal de todas as actividades vai estar instalada ali. A associação está em vias de ser criada, contando com um pequeno compartimento de bloco cor de rosa.
“O bairro acolheu melhor a empresa e tiveram maior disponibilidade”,  justifica Adérito Tchiuca, explicando que a intenção é a comunidade ter capacidade de gerir as suas actividades depois do fim das obras da barragem.
Um grupo de crianças aproxima-se das mulheres. O barulho ensurdecedor quase atrapalha a conversa mantida ao lado do terreno da padaria. Maria Morgado, Maria José e Eva Kiluanji aproveitam a ocasião para propor a construção desta padaria num outro lugar, por estar mais próximo da estrada e oferecer mais visibilidade.

Latrinas 

Um buraco foi aberto rente à casa de Eva. É uma amostra de como as latrinas vão ser construídas. Adérito diz que a população ainda utiliza as matas para as necessidades. “Queríamos fazer latrina colectiva, mas já tive esta experiência noutras localidades e sei que não funciona”.
Deste modo, cada casa vai ter a sua própria latrina, no próximo ano. “Os mais velhos não aceitam utilizar a mesma casa de banho com as crianças e mulheres do bairro.”
Laúca tem a particularidade de ser o ponto de Malanje que  limita a fronteira com  a província do Cuanza Norte. Daí as razões de alguma confusão. O rio faz questão de tirar algumas dúvidas. Mas as duas últimas aldeias estão apenas separadas por escassos quilómetros. Ngola Ndala é Cuanza Norte. Yang Culo é Malanje. São as últimas aldeias de cada província.
Um total de 125 famílias que moram nas zonas de Kissakina, Banguanga, Jinguri (Cuanza Sul) e Vila dos Pescadores, Malanje,  vão ser reassentadas por causa do aumento da albufeira da barragem de Laúca. As aldeias vão manter-se distanciadas uma das outras para evitar desconforto já esboçado pelos sobas. Os seus interesses não comungam, pois ninguém quer ficar à mercê das ordens de outrem. “Há aldeias com três e cinco casas, mas ninguém quer perder o sobado”, salienta Adérito Tchiuca, deixando escapar sorriso.

Programa de rendimentos

Nesta altura há um programa agrícola para um espaço de 30 hectares para geração de rendimentos. Adérito quer unir as pessoas para trabalharem em conjunto, como aconteceu na Hanha do Norte. O jovem coordenou um projecto na referida localidade que lhe valeu um prémio internacional da Odebrecht.  Hoje o projecto tem sustentabilidade, ou seja, por mês rende perto de dois milhões de kwanzas, que agora cobre gastos da educação e saúde.
“Vamos fazer o mesmo aqui”, assegura Adérito Tchiuca, 35 anos. Trabalha, desde os 15 anos, como voluntário. Uma larga experiência que faz com que reprove programas de assistencialismo. “São programas que morrem depois da conclusão dos projecto”.Os membros da associação vão ser treinados a cultivar, criar estatutos e repartir rendimento e fazer poupança.

Fábrica de sabão

Aldeia de Yang Culo. Mais ou menos a três quilómetros de Muta. A estrutura da fábrica de sabão ainda não está em pé, mas foi arrendado um casebre. Debaixo de uma frondosa árvore, foi posto um bidão de grande capacidade.  Não tem mais de vinte litros de óleo usado, principal matéria prima para produção do sabão.
Adérito afirma, peremptório, que no próximo ano pretendem trabalhar com óleo limpo.
“Estamos à espera que o óleo baixe no mercado”, explica, enquanto olha para Antónia Caetano que, apressadamente, abre a porta da fábrica de sabão.
O soba de Yang Culo está do outro lado da estrada. Adérito acena as mãos em jeito de saudação e convite. Chapéu branco esmaecido. Vê-se a logomarca do Aproveitamento Hidro-eléctrico de Laúca. Domingos Manuel Casal, 64 anos, completados em Março, não balbucia quando fala. “O projecto da barragem está a salvar o povo aqui e saudamos”, comenta o soba, que agradece de seguida o apoio ao saneamento básico.
Um casal de anciães e cinco crianças juntam-se quase à entrada com um olhar pálido. O interior da fábrica é muito escuro. Adérito agarra o recipiente de plástico com três barras inteiras de sabão e algumas metades. Antónia, 26 anos, apresenta-nos uma gamela com sabão ainda não fatiado. Nesta altura são produzidas mil barras por mês, das quais 750 são distribuídas às comunidades que vão ser reassentadas.
O óleo utilizado na fábrica  vem da cozinha de Laúca. “Este sabão faz vinte vezes mais espuma que outras marcas”, revela o técnico de responsabilidade social. O sabão cheira ainda a óleo. A seguir vai ser adicionado um produto para dar outro aroma.
A fábrica produz sabão há seis meses. Antónia é das mais antigas. Tem tranças desajustadas na cabeça e um cachecol comprido que cobre o rosto quando fala. É quase  afónica e as suas respostas iniciais são acompanhadas de interjeição. “Hum! Hum! Este sabão é bom. Desde que Adérito nos ensinou, nunca mais comprámos detergentes”, conta, franzindo os olhos.
Nove mulheres e quatro homens trabalham com afinco e sonham com a construção da fábrica. As obras da fábrica atrasaram por causa do ritual tradicional que só aconteceu no princípio do mês.
De casaco castanho, Domingos Casal enaltece o apoio na construção de latrinas. “As nossas visitas não podem mais ir à mata”, disse.
Os passos do soba são lentos. As botas podem influenciar na agilidade. Domingos Manuel lamenta, com altivez,  que a comunidade não tem energia eléctrica, apesar de os postes que transportam energia ao Laúca cortarem o bairro. Pediu também a construção de um fontenário e posto de saúde  na comunidade.
Adérito está atento às preocupações do soba. “Há previsão de se colocar também um posto de saúde aqui”, explica, afirmando que o projecto hidroeléctrico construiu o posto médico Ngola Ndala, Cuanza Norte, e paga salário aos enfermeiros.


                                                                Um pouco de história sobre Laúca

O nome Laúca provém de uma pedra, contigua à barragem, que em Agosto de 2015  foi classificada como monumento histórico. Os mais velhos contam que uma cabra, depois de ser perseguida por uma onça, fugiu até à montanha. Para  escapar do predador, lançou-se  a partir do cimo da rocha. A onça, na tentativa de saltar, também caiu. Desapareceram no rio. A pedra é hoje chamada Laúca e dá nome à barragem.  

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