Reportagem

Leite e iogurtes do Waco Cungo

Leonel Kassana |

Num momento em que estão em curso vários programas destinados a elevar a oferta de bens alimentares em todo o país, entre eles o leite, a Aldeia Nova, um pólo agro-industrial localizado na vila do Waco Cungo, município da Cela, província do Cuanza Sul, dá sinais de franca recuperação depois de um período sombrio.

Fotografia: Vigas da Purificação| Edições Novembro

As 200 vacas importadas da África do Sul em finais do ano passado pela Sociedade Agro-pecuária Aldeia Nova e distribuídas a 40 famílias da vila do Waco Cungo, já estão a produzir e a contribuir para o aumento da oferta de leite. Os beneficiários são famílias de ex-militares que vivem na aldeia. Cada uma recebeu cinco animais.
O gado é criado em estábulos (regime fechado) e a Aldeia Nova assume toda a assistência, desde a alimentação, água e vacinas a outros componentes essenciais. Tudo isso para garantir a protecção e os cuidados necessários aos animais, que são os principais activos da actividade. Os criadores de gado passaram por um rigoroso processo de formação para tirarem dele o máximo proveito.
Por estas paragens, salta à vista a forma organizada como se desencadeia o processo. Nada é deixado ao acaso. O leite é testado em laboratório antes de ser colocado no circuito de consumo.
Mas antes, a ordenha é feita em salas sofisticadas e equipadas para o efeito.
Essas salas com equipamento de ordenha foram criadas nos aldeamentos um e 12, o que permite o controlo da produtividade por cada animal.
O Jornal de Angola pôde acompanhar, por alguns dias, o crescimento que a Aldeia Nova regista actualmente, depois de alguma retracção, motivada por dificuldades de ordem conjuntural.
A Aldeia Nova aposta no repovoamento animal. É um empreendimento empresarial que foi impulsionado pelo Estado angolano para promover a produção e reduzir a importação deste produto, essencial na dieta alimentar da população. Essa aposta ajuda a Aldeia Nova a reforçar a posição na produção e distribuição de leite em todo o país.
O coordenador social da Aldeia 1, José Guerreiro, explica que o gado proveniente da África do Sul já recuperou do desgaste da viagem. “Os animais estão em bom estado e adaptaram-se muito bem ao clima do Waco Cungo “, sublinha, notando que algumas vacas já estão a produzir e garantem o sustento de muitas famílias. José Guerreiro destaca a satisfação da população com a chegada das vacas, depois de um período crítico dominado pela incerteza. “Muitos ficaram sem um único animal”, observa o gestor, antes de realçar a alegria da população que volta erguer-se e já vê o futuro com mais optimismo. José Guerreiro acrescenta que, hoje, com a produção do leite, as famílias conseguem suprir as despesas com a educação dos filhos, alimentação, vestuário e outras.
“A população é estável, temos uma escola com 10 salas de aula que recebem alunos até à sexta classe, que, depois, são encaminhados para a comuna da Kisssanga Kungo, onde existe o primeiro e o segundo ciclo”, refere, adiantando que, com o rendimento das vacas, encaminhar os alunos para o magistério ou Instituto Médio Agrário tornou-se mais fácil.
Ao Jornal de Angola, o director-geral da Aldeia Nova, refere que, paralelamente à importação das vacas leiteiras, há um processo contínuo de modernização dos equipamentos, assim como o alargamento das áreas dos campos de produção de milho, soja, feno e de capim melhorado para que não falte a alimentação para animais.
O feno, sobretudo, deve ser destacado pela importância que representa para as categorias de gado mais exigentes, como as vacas leiteiras, que são criadas em estábulo, ou sejas em regime fechado. O mesmo é determinante para a quantidade de leite a obter das vacas.
Percorremos várias aldeias que formam o complexo agro-pecuário Aldeia Nova. Os dados que nos foram apresentados confirmam, na verdade, a viabilidade de um projecto que veio mudar definitivamente a vida de muitas famílias de ex-militares das FAPLA e das FALA, provenientes de diferentes regiões do país, num processo de selecção que, depois, passou por acções de formação sobre noções básicas em diferentes áreas da agro-pecuária.
Todos os dias, da Aldeia 12 são extraídos, por cada vaca, cerca de 20 litros de leite, totalizando 1.800 litros. O processo acontece duas vezes por dia (ao princípio da manhã e ao meio tarde) e é feito com o recurso a um equipamento moderno, que permite a ordenha simultânea de oito vacas, de um total de 93 actualmente disponíveis.
Na Aldeia 12, Quintas Baptista é o responsável pelo processo de inseminação artificial e tratamento dos animais. Ex-militar e com 11 anos na Aldeia Nova, mostra confiança na recuperação progressiva da produção de leite com as novas vacas, depois de um período sombrio.
Para retirar o máximo de rentabilidade desses animais, a aldeia conta com 32 pessoas, entre elas duas mulheres (Cristina e Belmira), que tratam da alimentação, água, ordenha, limpeza dos estábulos e outros detalhes para que nada falte às vacas.
Quintas Baptista adianta que, se no passado houve uma baixa considerável na produção do leite devido à seca, actualmente na Aldeia Nova existe uma elevada disponibilidade de alimentação para os animais. “Temos feno, selagem, capim elefante e cerca de 45 campos só de capim melhorado”, sublinha, visivelmente satisfeito.
A criação de vacas na Aldeia Nova segue padrões mundialmente recomendáveis, para maximizar os investimentos realizados e aumentar a disponibilidade de leite e seus derivados no mercado. Naves foram criadas especialmente para os bezerros, onde permanecem por 90 dias, antes de seguirem para um outro espaço, por seis meses. Aqui se inicia a sua preparação para um processo que culmina na inseminação artificial.
Os bezerros machos são criados para serem encaminhados ao matadouro, um complexo industrial capaz de processar diariamente 10.000 quilogramas de carne. Pretende-se, assim, criar uma cadeia produtiva completa que permita a rentabilidade das várias unidades industriais e fornecer ao mercado produtos de qualidade, a partir do Waco Cungo .
A boa a notícia para as estatísticas, como se diz noutro espaço desta peça, é que quinze das 200 vacas que chegaram em Dezembro ao Waco Cungo, provenientes de Port Elizabeth, África do Sul, já têm bezerros e garantem a produção diária de 200 litros de leite. Todo o produto é encaminhado para a fábrica de lacticínios, onde é transformado em iogurte, queijo e outros derivados que são encaminhados para grandes superfícies comerciais um pouco por todo o país.
A entrada de novas vacas representa um impulso grande na recuperação da capacidade produtiva da Aldeia Nova, permitindo, assim, a sua auto-sustentabilidade. A rentabilidade das diferentes unidades industriais está agora assegurada com a importação das novas vacas.
Espera-se, pois, que quando todas as vacas entrarem em produção haja, de facto, um significativo incremento no mercado de leite no país, a partir da Aldeia Nova, com mais de 8.000 litros por dia até final do ano, superando largamente a meta de 3.000 prevista para Julho.
Os números reflectem uma evolução notável na produção do leite na Aldeia Nova, pois em 2016, por exemplo, foram contabilizados, em média, 2.600 litros, quando em 2013 não passava das 750 unidades. Emo2014, já com 85 vacas, a produção por animal cifrou-se em 13 litros, chegando aos 401.550 anuais. Em 2015 e com o aumento para 97 vacas leiteiras, a produção passou para 638.750.
É a olhar para esses números que o director-geral da Aldeia Nova, Kobi Trivizki, projecta, com optimismo redobrado, o futuro. Sublinha que nesta altura as necessidades de importação de matéria-prima para manter toda a cadeia produtiva na empresa situam-se em cerca de 20 por cento. “Actualmente, cerca de 90 por cento da matéria-prima é produzida localmente, desde o milho, sementes de soja, alimentação para os animais”, acrescenta. “Estamos muito próximos de atingir a nossa auto-suficiência, pois só precisamos de importar cerca de 20 por cento de bens, como fertilizantes, sementes, embalagens e outros para  completar a cadeia produtiva”, disse.
O director-geral da Aldeia Nova explica que, paralelamente à importação de vacas leiteiras, há um processo contínuo de modernização dos equipamentos, assim como o alargamento das áreas dos campos de produção de milho, soja, feno e de capim melhorado para manter a alimentação dos animais.

Melhorias sociais

António Salomão, ex-militar das FAPLA, é um dos beneficiários do programa de criação de vacas na Aldeia Nova. Natural da Gabela, detalha a sua ligação, de onze anos, com o projecto, que veio mudar significativamente a vida de milhares de pessoas provenientes de diferentes regiões de Angola. “Ingressei no Projecto Aldeia Nova, depois de passar por uma entrevista”, revela, recordando que no passado, os ex-mobilizados, além da criação de animais, produziam cereais em grande escala. Lembra que, devido a algumas dificuldades por que passou a Aldeia Nova, em determinado momento, as vacas deixaram de ter assistência e, em consequência, desapareceram completamente, criando um ambiente de profundo desespero em inúmeras famílias.
Definindo-se como agricultor, hoje, António Salomão ocupa o seu tempo a cuidar das cinco vacas que recebeu da Aldeia Nova e tem como aspiração primeira aumentar a sua manada para cima de 13 efectivos, cifra que conseguira antes de surgirem dificuldades na Aldeia Nova.
Da nova manada, já nasceu um bezerro e dentro de dias chegam outros, para a satisfação da família deste agricultor, pois tal representa mais lucros. “Com os novos animais, vamos tentar recuperar o tempo perdido e recompensar tudo”, sublinha, satisfeito, António Salomão, exultando com a chegada, havia três dias, do primeiro bezerro do lote importado da África do Sul.
O ex-militar destaca o papel de relevo que a Aldeia Nova tem no combate à fome e à pobreza das famílias, sublinhando que entregar as vacas, galinhas e rações à empresa torna as pessoas mais confiantes no futuro. “Sem a Aldeia Nova, teríamos mais dificuldades em suprir as nossas necessidades, como alimentação, transporte, propinas, uniforme e material escolar para os nossos filhos”, sublinha, apelando aos seus colegas para cuidarem bem dos animais e aplicarem correctamente todos os conhecimentos adquiridos durante o processo de formação.
Quem também foi contemplada com cinco vacas leiteiras é Aurora Ernesto, viúva de um ex-militar das FAPLA. Quando a interpelámos, não cabia de satisfação em si mesma. Depois do “muito sofrimento”, com o desaparecimento, há cinco anos, dos primeiros animais que recebera da Aldeia Nova, desta vez, foi contemplada com outras cinco cabeças de gado.
Desde 2006 na Aldeia Nova, Aurora Ernesto é um exemplo de persistência. Conta que quando o esposo morreu, teve que “batalhar bastante” para cuidar dos cinco filhos, sobrevivendo com alguma produção de milho, hortícolas, mandioca e batata-doce de um largo terreno distribuído aos ex-militares próximo das suas casas.
Dona da casa 43, da Aldeia 1, ela é muita directa: “a minha vida melhorou desde que recebi essas vacas, pois, antes, todo o tempo era lutar para manter os filhos na escola.”
Quem também exulta é Maria Miranda, 52 anos, outra criadora de gado. Esposa de um ex-militar e mãe de 12 filhos, Maria corrobora da opinião da colega. “A vida melhorou desde que recebemos as vacas da Aldeia Nova e podemos, agora, satisfazer as nossas necessidades principais, como a educação dos filhos.” Diz que já tem uma vaca na ordenha, o que é uma grande satisfação para quem, havia anos, andava desesperada.
Com a recepção dos animais, Maria Miranda vê renascer a esperança de novos tempos. Quatro dos seus filhos estudam no Instituto Médio Agrário (IMA), no Waco Cungo, e ela já prepara o ingresso deles no ensino superior.
À semelhança de António Salomão, Aurora Ernesto e Maria Miranda, milhares de famílias viram, progressivamente, melhoradas as suas condições de vida com a criação de vacas leiteiras no Waco Cungo.
Globalmente, a Aldeia Nova garante 610 postos de trabalho directos e 3.500 indirectos.

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