Reportagem

Luanda: Turmas repartidas em grupos para garantir distanciamento entre alunos

Fula martins

Depois de mais de dois meses confinados em casa, devido a Covid-19, os alunos regressam às aulas no próximo mês.

Com mais de 15 mil alunos matriculados e 420 professores, o Distrito Urbano do Sambizanga conta com 33 escolas
Fotografia: Alberto Pedro | Edições Novembro

Em decreto presidencial sobre a Situação de Calamidade Pública, o Executivo angolano orientou a reabertura das instituições de ensino primário do primeiro ciclo do ensino secundário, públicas e privadas, oficialmente, a 27 de Julho. Mas nas universidades e nas escolas do Ensino Secundário, as actividades lectivas começam mais cedo, a 13 de Julho.

A propósito, no Distrito Urbano do Sambizanga, município de Luanda, o sector da Educação trabalha na criação de condições para assegurar a higienização frequente das mãos e o distanciamento físico entre alunos. O chefe da Repartição da Educação do Sambizanga disse que, o regresso às aulas em época de pandemia obriga a novas regras, como a divisão das turmas em vários períodos de ensino.

António Guilherme Cabuço avança que, para garantir o distanciamento físico, as turmas do ensino primário estão a ser repartidas em dois grupos.
“No turno da manhã, o primeiro grupo entra às 7h30 e sai às 10h00, e o segundo estuda das 10h15 às 12h35. No turno da tarde, o primeiro grupo tem aulas das 12h45 às 15h15, enquanto o segundo entra às 15h25 para sair às 17h55”, explica.

O responsável reconhece que, a maioria das escolas do Sambizanga não possuem condições para a higienização das mãos, nem de segurança sanitária para o reinício das aulas presenciais. Mas garante que, até à data marcada às escolas da localidade estarão aptas para receber os alunos. Numa ronda efectuada por vários estabelecimentos de ensino, a reportagem do Jornal de Angola constatou que as escolas 1 de Dezembro, Anangola e Kadipovo, incluindo a escola nova do São Paulo, ainda não reúnem as condições de higienização necessárias e recomendadas pelas autoridades sanitárias, para a protecção dos alunos e professores contra o novo coronavírus.

No Sambizanga, a água não jorra nas torneiras da maioria das instituições de ensino.  “Existem algumas escolas com sistemas de água instalados, mas os equipamentos carecem de reabilitação para que o líquido volte a jorrar nas torneiras”, disse, para sublinhar que o maior problema reside nas escolas do ensino primário.

O Distrito Urbano do Sambizanga conta com um total de 420 professores, que asseguram as aulas de um total de 15.875 alunos matriculados. O ensino primário absorve o maior número de educandos (10.334), seguindo-se o I Ciclo (4.225) e o II Ciclo (1.316).

Em defesa dos professores

O secretário provincial do Sindicato Nacional dos Professores (SINPROF) de Luanda, Fernando Tomé Laureano, afirma que as escolas não dispõem de condições de biossegurança para o retorno às aulas no próximo mês de Julho, e por essa razão aconselha o Executivo a reconsiderar a deliberação. “As escolas não têm água para a higienização frequente das mãos.

Quem vai fazer a desinfecção das salas de aula no intervalo de cada turno, como mandam as regras sanitárias?”, questiona o representante do SINPROF em Luanda, apontando o mês de Setembro como sendo o ideal para o retorno às actividades escolares, e terminar em Junho de 2021. “As aulas deviam ter início em Setembro.

Até lá, o executivo terá três meses para criar as condições de biossegurança indispensáveis para a prevenção e protecção dos alunos, professores e de todo o pessoal de apoio”, defende Fernando Laureano, para lembrar que as crianças são as mais vulneráveis, e podem facilmente transportar a pandemia aos seus familiares.

“Será que, em tão pouco tempo, o executivo vai conseguir colocar água corrente ou reservatórios, quantidades de sabão, álcool em gel e termómetros, distribuir máscaras aos milhares de alunos matriculados, reabilitar as casas de banho e desinfestar periodicamente os estabelecimentos de ensino?”, questiona o sindicalista.

Poucas escolas do segundo ciclo

Na última divisão administrativa que ocorreu, em 2010, no país, o Distrito Urbano do Sambizanga deixou de ter uma instituição pública do segundo ciclo. Apenas a Escola do I e II Ciclo do Ensino Secundário nº 1312 “Dom Bosco”, afecta à Igreja Católica, acolhe alunos deste nível de ensino.No passado, no  Sambizanga havia um Instituto Médio Politécnico e duas escolas do segundo ciclo, que passaram à gestão do Distrito Urbano do Ngola Kiluanje, no município de Luanda, e do município do Cazenga.

Neste momento, o sector da Educação controla 33 escolas, sendo 13 públicas, 10 do ensino privado e igual número de escolas comparticipadas. Apesar disso, mais de seis mil crianças se encontram fora do sistema normal do ensino. Quanto ao número de escolas, o chefe da Repartição da Educação, António Cabuço, disse que o Sambizanga necessita de mais 15 estabelecimentos de ensino, incluindo dois institutos politécnicos, duas escolas do segundo ciclo do ensino secundário, e mais de 60 professores para assegurar o processo de ensino-aprendizagem nos três níveis de ensino.

António Cabuço avançou que, este ano, em todas as escolas do ensino primário, públicas e privadas, incluindo as comparticipadas, os alunos já beneficiaram de livros de apoio às diferentes disciplinas, distribuídos gratuitamente pelo Ministério da Educação.

Encarregados receosos

Pais e encarregados de educação dos alunos matriculados nas escolas do Distrito Urbano do Sambizanga estão receosos em mandar as crianças à escola. A maioria não acredita que as direcções das instituições de ensino em funcionamento, na localidade, consigam dar resposta positiva às exigências impostas pelas autoridades sanitárias, para que alunos e professores se sintam protegidos da Covid-19.

Os encarregados de educação alegam que, antes do anúncio para o regresso às aulas, o Executivo deveria criar condições mínimas de higienização nas escolas. Confirmam que, as instituições de ensino nem sequer dispõem de água canalizada. A maioria defende a testagem massiva de todos os cidadãos, para se saber qual o estado serológico de cada um.

“Enquanto não for resolvida a questão da biossegurança na escola das minhas filhas, não vou enviá-las para lá”, prometeu Francisca Tomás, mãe de duas meninas matriculadas na 7ª e 9ª Classes, na escola do I ciclo “Anangola”, que diz sentir-se desconfortável com os argumentos dos responsáveis do sector da Educação, que esperam ver as crianças nas escolas, para permitir que os pais voltem ao trabalho, reduzindo os prejuízos económicos.

Para José Pedro, pai de dois alunos matriculados na Escola do I Ciclo do Sambizanga, vulgarmente conhecida como “escola nova do São Paulo”, enquanto não for realizada a testagem voluntária da população, também, não vai enviar os filhos à escola. Segundo o encarregado de educação, as medidas sugeridas pelas autoridades não são convincentes para que o reinício do ano lectivo decorra em segurança.

“Quem, durante vários anos, não conseguiu criar boas condições de higienização nas escolas, não as vai criar em um ou em menos de um mês. Eu não acredito nesta mentira”, contraria José Pedro, que deseja ver adiado o reinício das aulas enquanto aguarda pela erradicação total da doença no país, e no mundo.

“Vamos aguardar mais um pouco, porque se obrigarem as crianças a irem à escola, vamos assistir um grau elevadíssimo de absentismo da parte dos alunos, porque alguns pais, como eu, vão criar resistência em mandar os filhos às aulas”, diz. Mãe de duas meninas, uma de 14 e outra de 17 anos, estudantes do Complexo Escolar “Dom Bosco”, afecto à Igreja Católica, Sandra Manuel teme que as escolas se convertam num meio favorável à propagação da pandemia da Covid-19.

“Por mais que se diga que a doença está controlada, não se devia decretar já o reinício das aulas tão cedo, porque as escolas não têm condições, o que propicia facilmente o contágio ao novo coronavírus. Eu não vou permitir que as minhas filhas saiam de casa”, afirma a encarregada de educação. Sobre o regresso às aulas, não são apenas os pais e encarregados de educação que se mostram receosos.

A professora Maria Luísa refere que, se há professores que manifestam ansiedade para regressarem ao trabalho, outros, sobretudo os que fazem parte do grupo de risco (indivíduos com mais de sessenta anos e portadores de doenças crónicas) nem querem ouvir falar disso. “É óbvio que há professores que vão recusar dar aulas presenciais”, garante.

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