Reportagem

Lunda-Norte: um celeiro quase esquecido

Sónia Ferry e José Honório (Angop)

As culturas de arroz, milho e girassol associada aos palmares que, nos anos de 1970, transformariam a província da Lunda-Norte numa terra de oportunidades, estão mesmo a desaparecer, ao contrário dos diamantes.

Fotografia: Dr

Apenas para ilustrar, a área de cultivo de arroz no nordeste da Lunda Norte reserva 45 mil hectares de terras aráveis à espera de resposta dos potenciais produtores. Na frente Luachimo, por exemplo, há outros 200 mil hectares de terreno propício à produção em grade escala deste cereal, precisamente numa das margens do rio com o mesmo nome.
O verde dos extensos campos onde predominava o cultivo do milho, arroz, girassol e mandioca, associado à criação de gado em cinco reservas que contabilizavam 23 mil cabeças e à piscicultura, graças aos experientes agricultores da época, foi sendo, aos poucos, substituído pela letargia resultante da falta de investimento no sector agrícola.
Existem projectos que apontam para a entrada em acção de novos investidores, tanto nacionais quanto estrangeiros, nomeadamente sul-africanos e vietnamitas, mas ainda estão no papel, adiando a tão desejada “revolução verde”.
O nordeste da Lunda-Norte, envolto em condições climatéricas favorecidas pelo rio Kassai, tem forte tradição na cultura do arroz, desde muito antes da independência se bem que a plantação dos palmares seja mais antiga, fazendo fé à tradição da produção de óleo de dendém, que data de 1969.
São bastantes os motivos para que a agricultura na Lunda-Norte possa desenvolver. A província está dentro de uma das maiores bacias hidrográficas do planeta - o grande rio Zaire, cujos afluentes Luembe, Catchimo e Tchiumbue drenam para o curso do Kassai.
O mais importante ainda é que a Oeste e a Norte prevalece um microclima ideal para a produção em grande escala: potencial desperdiçado que até podia gerar riqueza.
Optimista, o director do gabinete provincial da Agricultura, Pescas e Desenvolvimento Rural, Francisco Lubamba, garantiu à Angop que há condições de irrigação, porque chove durante cerca de oito meses, mais precisamente de Setembro a Maio.
Em termos globais, o volume de precipitação é superior a 1.400 milímetros (mm). Além disso, os solos da província são férteis para produzir e abastecer o mercado agro-alimentar nacional. Os municípios do Cambulo, Capenda Camulemba, Xá Muteba, Lucapa, Cuango e Chitato, entre o Nordeste e o Sul da província, concentram as maiores parcelas de terrenos aráveis.
Francisco Lubamba dá conta da existência de 289 cooperativas na Lunda-Norte, num universo de oito mil e 851 camponeses. Constam ainda das estatísticas 325 associações, sendo assistidas igualmente 157 federações, com 16 mil e 388 associados, oito mil e 393 dos quais do sexo feminino.
Na campanha agrícola 2017/2018, por exemplo, só no segmento da produção de raízes e tubérculos, a safra foi de 157 mil e 233 toneladas, volume superior ao registado em 2016. Os cereais renderam três mil e 456 toneladas e as leguminosas 550 toneladas. Já em hortícolas e frutícolas, foram colhidas 2.153 e 24.313 toneladas, respectivamente. Estes números, na avaliação do director da Agricultura, estão ainda longe da real capacidade produtiva da região.
Daí que declare como desafio na presente campanha 2018/2019 contar com a ajuda de brigadas de mecanização agrícola em toda a província, quer no Nordeste, quer no Sul, para aumentar a produção. Apesar das dificuldades, a produção agrícola tem sido escoada para as províncias de Malanje, Luanda e Lunda Sul.
Enquanto isso, estão em carteira outros projectos estruturantes que aguardam por financiamento no sentido da revitalização da produção de arroz, milho e palmares no nordeste da província. A Cosa, uma zona forte na produção animal, também faz parte desses planos.
Será de grande valia a concretização do projecto de médio prazo para reactivação da produção agrícola no nordeste e na Calonda, em que se deverá contar com investidores nacionais e estrangeiros, nomeadamente vietnamitas.

Um sector fértil mas pouco produtivo

Se, antigamente, as grandes produções agrícolas estavam a cargo da Diamang (empresa de capitais portugueses, belgas, americanos e franceses que explorava diamantes numa concessão privada que abrangia grande parte da Lunda-Norte e Sul), actualmente, a agricultura familiar começa a organizar-se e a ganhar espaço na Lunda-Norte.
Com 1.343 criadores de gado bovino nos municípios do Cuango, Capenda Camulemba, Chitato, Cambulo e Lucapa, a pecuária também quer mudar o quadro para melhor.
Em 2016, por exemplo, o sector controlava 6.421 bovinos, 5.670 suínos, 5.177 ovinos e 6.582 caprinos. Já a avicultura contabilizava cerca de 40 mil aves, no quadro do programa implementado pelo projecto agro-pecuário Cacanda.
Mais do que as dificuldades, é destas potencialidades do Nordeste da Lunda-Norte que José Salam e Anacleto Almeida gostam de falar. Antigos funcionários da Endiama, nas zonas de Calonda e Cacanda, ambos defendem investimentos para uma viragem na agricultura.
José Salam tem 62 anos. É natural da Lunda Norte, onde começou a trabalhar na agricultura em 1972, até ser aposentado pela antiga Companhia de Diamantes de Angola. Antes, esteve nas áreas do Nordeste e Catximo, no Cambulo, e de Luachimo, no Lucapa. E no vai-e-vem da cidade para o campo ganhou experiência.
“A maior parte dos técnicos não explora o sector como se esperava”, diz, frisando que é essa apatia dos agricultores que leva a que o país sinta a necessidade de importar alimentos, especialmente arroz e óleo de palma, apesar da existência de províncias com potencial.
Este é também o sentimento de Anacleto Almeida, 70 anos, natural da província da Huíla e reformado há sete anos. Trabalhou no projecto Cacanda desde 1987, como técnico da área de ração animal. Ele vê a Lunda-Norte como exemplo do que pode acontecer se houver forte investimento no sector e na formação profissional dos jovens associados à agricultura.
Com passagem pela Endiama, José Rosa, já na casa dos 60 anos, também foi director do Gabinete de Estudos e Planeamento do Governo Provincial, até 2007. Não é por acaso que, fora da extracção de diamantes, apoia a transformação do Nordeste da província em Pólo de Desenvolvimento Agrícola.
Lunda de naturalidade, José Rosa, um experiente agro-pecuarista, abre o livro: “Houve um estudo efectuado pelo governo local sobre as áreas que poderiam concorrer para a diversificação da economia fora dos diamantes”. E achou-se que o Nordeste, pela sua forte influência nas culturas e pelas condições naturais, poderia ser um pólo de desenvolvimento, completa o agora reformado.
Uma vez mais, o director da Agricultura espera que a colaboração da Endiama e de outros parceiros ajude o Governo da Lunda-Norte a relançar a actividade agrícola na região. Não foi por acaso que investidores sul-africanos estiveram, em Fevereiro de 2018, no nordeste da província, onde constataram as condições dos terrenos para possíveis trabalhos de prospecção.

Projecto Cacanda com altos e baixos

Até há poucos anos, o projecto Cacanda, reinaugurado em 2012, era visto como a esperança para a Lunda-Norte dar um passo em frente na agricultura. A sua estrutura, concebida no tempo colonial, contava com pocilgas, aviários e áreas para bovinos e cultivo de hortícolas.
Anacleto Almeida, o único técnico de ração na Lunda-Norte, refere que o projecto Cacanda de hoje retrocedeu em relação à estrutura de 1975, em que começou a funcionar “com profissionais certos, no lugar certo”, uma prática que mais tarde foi substituída pelo nepotismo.
“Produzia frangos, galinhas poedeiras e reprodutoras, gado bovino, caprino e suíno”, relembra, com indisfarçável nostalgia. Ainda falando do maior projecto agro-pecuário da Lunda-Norte, acrescenta que Cacanda tinha também uma fábrica de produção de ração para galinhas e bovinos. Juntava-se a isso uma sala de encubação.
Assim sendo, não era permitida a importação de pintos com um dia de vida. Só depois de criados é que eram distribuídos entre as zonas do Cosa, Calonda e Cafunfo, como frisou Anacleto Almeida, incapaz de esconder a emoção que sente ao falar desses tempos.
Cacanda atingiu de 1988 a 1989, uma produção de 35 mil ovos/dia. O objectivo da empresa era, primeiro, abastecer os trabalhadores. Mais tarde, o produto era despachado para os mercados de Luanda e outras províncias circunvizinhas.
Em finais de 1990, a empresa fechou. A Endiama retirava-se definitivamente de Cacanda em 1992, depois das primeiras eleições gerais da história de Angola. Cerca de três anos depois, em Junho de 1995, o empreendimento voltava a arrancar com o projecto sul-africano Trans Energy, que só durou dois anos, por desentendimento com a parte angolana. Por isso, o técnico reformado lamenta ver a Lunda-Norte a depender actualmente da produção de ovos de outros pontos do país.
Assim que foi reinaugurado, em 2012, à Agricultiva, uma empresa israelita, foi confiada a gestão privada pelo Governo Central, para que garantisse a auto-suficiência do projecto, então com 20 mil galinhas poedeiras. Mesmo assim, os níveis de produção de ovos, que são de 18 meses, diminuíram por causa da má qualidade da ração.
Anacleto Almeida admite que a entrega do projecto a estrangeiros levanta várias questões, como a falta de experiência em relação à alimentação das aves segundo o tempo de vida. “Não há centro agro-pecuário que sobreviva sem uma fábrica de ração”, alerta, antes de precisar que essa omissão compromete o desenvolvimento das galinhas, e, por conseguinte, dos frangos.
Desolado com o projecto Cacanda, Francisco Lubamba, o “homem forte” da agricultura na Lunda-Norte, deplora o estado daquela infra-estrutura de produção agro-pecuária, que diz estar a ser mal gerida. Em vez de produzir, como era esperado, está a usurpar os meios do empreendimento, encaminhando-os à província da Huíla.
Em Março de 2018, altura em que o actual Presidente da República visitou a província da Lunda-Norte para orientar uma reunião da Comissão Económica do Conselho de Ministros, o projecto Cacanda recebeu 17 mil aves para a produção de ovos. Três meses depois, de acordo com Francisco Lubamba, desapareciam, inexplicavelmente, igual número de aves.
Desde 2013, já passaram pela gestão do projecto Cacanda três empresas privadas, nomeadamente a israelita Agricultiva, a Omatapalo e, actualmente, a Agrisurbi, que, entretanto, não se disponibilizou a falar à Angop.

Faltam técnicos agrários

Na receita para a reactivação da produção agrícola, José Salam afirma que também falta aos jovens profissionais trabalharem mais com os veteranos, ainda que muitos já estejam reformados.
A visão é partilhada por Anacleto Almeida, que insiste na necessidade da construção de um Instituto Médio de Agronomia na Lunda-Norte, uma vez que a província não pode só depender da exploração de diamantes.
Anacleto gostaria de ver, pelo menos por enquanto, reconstruída uma escola de formação profissional técnica de nível básico e médio no Luxineno, área do Luxilo, no município do Cambulo, onde a Endiama formava operadores de engenhos, cacheiros de armazéns, oficinas e anotadores de pecuária e agricultura.
A expectativa dos dois interlocutores faz eco nas palavras do director do Gabinete Provincial da Lunda Norte da Agricultura, Pescas e Desenvolvimento. Francisco Lubamba denuncia a degradação do laboratório de solos e equipamentos erguido há seis anos no município de Capenda Camulemba.
Em contrapartida, não há técnicos de laboratório, razão que leva Francisco Lubamba a olhar para o Instituto de Investigação Agronómica, no Huambo, onde podem ser formados pelo menos 10 quadros que irão reactivar as infra-estruturas para facilitar a análise dos solos.

Resiliência dos pequenos produtores

Com os olhos das autoridades governamentais fixos no brilho dos diamantes, a reabilitação da produção agrícola na Lunda-Norte não é uma tarefa fácil. Ainda assim, pequenos produtores no Dundo, Chitato, Luxilo e Mussungue, só para citar alguns pontos, são exemplos de resiliência. Vencendo barreiras, tornaram-se fornecedores de produtos como o limão, goiaba, abacate, ananás, mandioca e milho, entre outros.
Responsável pela Fazenda Txissua, da empresa Escorpião, a 25 quilómetros do Dundo, Carlos Borba Maria, 60 anos, aposta na cultura de citrinos, além de abacateiros e ananases. Dos dois mil hectares, só mil estão cultivados, por enquanto. Contudo, nas áreas de Maóca e Mapulo, a 20 quilómetros da sede do Chitato, e no Luxilo, conta com outros quatro mil hectares para plantar mandioca, milho e batata-rena.
Satisfeito por ter colhido até meio hectare de laranjas que já lhe renderam algum dinheiro no mercado informal, o representante da Fazenda Txissua, em actividade há 10 anos, confessa que abraçou a fruticultura pela experiência de ter trabalhado nas cinco frentes agrícolas do Cosa, Cacanda, Calonda e Mocolonji e no município do Cambulo, que, no entanto, desapareceram depois da Independência Nacional. Como trabalha com 70 por cento do seu salário de funcionário público e adquire os pés de alguns citrinos ora na Huíla, ora na vizinha República da Zâmbia, Carlos continua a fazer planos para o futuro. Cogita vender os seus produtos noutros pontos fora da província e aguarda que algum dia venha a processar industrialmente as frutas. Por isso, pretende financiamento para ampliar a produção.
José Alberto Maiel, proprietário da fazenda Kanema, a 12 quilómetros da cidade do Dundo, queixa-se das dificuldades que os produtores vivem ano após ano, na Lunda-Norte, porque “ainda sentem pouco apoio do Estado”.
Cem hectares de terra estão disponíveis na fazenda Kanema, com 14 anos de existência, que tem como foco o cultivo de ananás e mandioca. E a visão não fica por aqui. Está ainda em curso a criação de aves.
Como o projecto agro-pecuário Cacanda subiu o preço da ração, José Alberto Maiel, que comercializa todos os produtos em hotéis e hospitais da cidade do Dundo, disse que deixou de criar galinhas e que a nave agora foi adaptada para suínos.
A criação de gado também está comprometida na fazenda Kanema. Metade dos 120 bovinos foi dizimada após ingestão de capim infestado com larvas venenosas. Apesar da preocupação com a falta de pastagem, o agricultor não pensa desistir do campo porque acredita no futuro da agricultura.
As causas da fraca produção na Lunda-Norte estão relacionadas com a carência de recursos humanos especializados mas também com as dificuldades na aquisição de máquinas agrícolas e peças sobressalentes, como reforça David Gregório Arsénio, director técnico da Fazenda Txamboma, uma propriedade que existe há cinco anos, a 12 quilómetros do distrito do Mussungue e que produz hortícolas e frutícolas.
Com água abundante, só faltam mesmo os arados...

 

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